De Baku a Glasgow são cinco mil quilómetros de distância.

As 10 horas de avião, ou 60 de carro, são mais do dobro do que as que separam, por exemplo, São Petersburgo de Sochi – as cidades-sede mais distantes do Mundial 2018 acolhido pela imensa Rússia.

Ainda assim, a distância está longe de ser o maior desafio para uma fase final de um Campeonato da Europa que se estende das praias do Mar Cáspio às margens do Rio Clyde.

Com 12 cidades distribuídas por 11 países, com dez línguas oficiais e sete moedas diferentes, além de índices de desenvolvimento muito distintos, o Euro 2020 ameaça ser, desde logo, um pesadelo logístico.

Os indícios acabaram por confirmar o que no papel já parecia complicado, no passado sábado, naquele que foi provavelmente o sorteio mais confuso de sempre de uma grande competição de futebol.

Os inúmeros condicionamentos deixaram grupos quase fechados ainda antes das bolas saírem dos respetivos potes. Mesmo depois, ficaram pontas soltas – lugares vagos e sedes por decidir – para resolver lá para março, quando as últimas quatro seleções decidirem o apuramento através de play-off.

O sistema deste primeiro Europeu com 24 equipas é de tal forma inusitado que, após o sorteio ter ditado que no seu grupo Portugal enfrentaria pesos-pesados como França e Alemanha, além de uma seleção surpresa, Fernando Santos confessou-se sobretudo aliviado de não ver os jogos da seleção nacional desterrados para a capital do Azerbaijão – que, diga-se, não se qualificou para o torneio.

Este é, portanto, o primeiro Euro itinerante. Uma experiência saída da cabeça do ex-presidente da UEFA, Michel Platini, que tinha em campo uma criatividade bem mais profícua do que nos gabinetes.

No fundo, é um périplo pela Europa, sem o envolvimento umbilical de uma nação anfitriã. Hoje em Bucareste, amanhã em Dublin, depois em Bilbau ou em Copenhaga.

Ainda assim, este experimentalismo da UEFA, que poderá até a resultar em alguns aspetos, jamais ultrapassará o da FIFA com o Mundial que se irá jogar dentro três anos no inverno do Qatar.

Bem mais absurdo que em espalhar 24 seleções por toda a Europa, será confinar 32 num país do tamanho de Trás-os-Montes, com a população da Área Metropolitana de Lisboa e cuja para tradição futebolística está espelhada no facto de nunca se ter qualificado nas 21 edições anteriores de um Campeonato do Mundo.

Pior: a escolha obscura pelo Qatar validou um tipo de exploração laboral difícil de crer nos dias de hoje. Em pleno século XXI, o futebol compactua com uma espécie de escravatura dos tempos modernos.

Como noticiava o Guardian em outubro, centenas de trabalhadores morrem a cada ano no Qatar, sobretudo nas obras como a construção dos novos estádios, sem que, na esmagadora maioria dos casos, haja qualquer investigação por parte das autoridades daquele país

Segundo o Observatório dos Direitos Humanos, antes de ser dado o pontapé de saída para o Mundial do Qatar, o número estimado de mortes de trabalhadores chegará a quatro mil – cerca de cem vezes mais do que a soma de vítimas laborais nos últimos dois Mundiais, na Rússia e no Brasil.

Mais do que as suspeitas de corrupção ou do que o absoluto desrespeito pelos adeptos, esse é o mais sórdido legado que Joseph Blatter e Michel Platini deixam no futebol.

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«Geraldinos & Arquibaldos» é um espaço de crónica quinzenal da autoria do jornalista Sérgio Pires. O título é inspirado pela expressão criada pelo jornalista e escritor brasileiro Nelson Rodrigues, que distinguia os adeptos do Maracanã entre o povo da geral e a burguesia da arquibancada.

Sérgio Pires