BARACK OBAMA em abril de 2015 ao assinar acordo nuclear com o Irão: "Não se faz a paz com os amigos. Faz-se com os adversários, para que eles não se tornem nossos inimigos"

DONALD TRUMP em Riade, maio 2017: "Tudo o que está a acontecer na Síria é culpa do regime iraniano. O Irão apoia crimes indescritíveis. Todos os países devem trabalhar para isolar o Irão e privá-lo dos fundos que financiam o terrorismo"

Os que falharem na transição para a economia verde vão ter um futuro cinzento”

ANTÓNIO GUTERRES, Secretário-Geral da ONU, em recado a Donald Trump

A saída dos EUA do Acordo de Paris e as razões apontadas por Donald Trump para tomar essa decisão errada e anacrónica mostraram à evidência que os Estados Unidos da era Trump estão condenados a passar vergonhas em temas em que era suposto que liderassem pelo exemplo.

Trump desvalorizou a subida de “um grau da temperatura média”, como se isso fosse pouco, disse que o dinheiro que se gasta em programas da ONU não serve para nada e insistiu na aposta nas indústrias do carvão, não percebendo que está a focar-se no passado e a hostilizar o caminho para as renováveis e para as indústrias “verdes”, que além de serem ambientalmente mais sustentáveis são, elas próprias, geradoras de emprego. 

Que um Presidente dos EUA em início de funções pretenda demarcar-se do seu antecessor é relativamente normal.

Mas basta entrar um pouco mais a fundo na análise das opções do atual inquilino da Casa Branca para percebermos que a presidência de Trump não está a ser “normal”. 

Donald foi eleito sob promessas de “drenar o pântano” de Washington, uma ideia especialmente popular no eleitorado americano. 

Sucede que, mais de quatro meses depois de tomar posse, ainda nada fez para “secar” a corrupção que diz existir na capital política dos EUA. Prometeu barrar os “lobistas” e já nomeou vários. Prometeu enfrentar o poder da grande banca e da alta finança e foi buscar quase todos os elementos de topo na área económica e financeira da sua administração, precisamente, às grandes empresas desses setores. 

Se há ideia que define, de forma singular, o posicionamento de Donald Trump na sua caminhada para a Casa Branca é a rejeição do legado de Barack Obama nas suas ideias fundamentais: ObamaCare, Imigração, Acordo Climático, Reforma Fiscal aumentando os impostos para os super ricos para aliviar fiscalmente 95% dos contribuintes americanos.

A estas prioridades de Obama (conseguidas em grande parte nos seus oito anos de presidência), Trump responde com revogação de ObamaCare (mesmo sem ter alternativa válida para cobertura de Saúde de vários milhões de americanos); travagem de imigrantes ilegais com um “enorme muro” e ameaças de expulsões em massa (com duas tentativas já falhadas de aplicar uma “travel ban” focada no mundo muçulmano); posição de princípio de que as alterações climáticas “são um mito e não têm mão humana”; proposta de Reforma Fiscal com descida brutal de impostos para as empresas (de 35% para 15%) e para as grandes fortunas. 

Vermos Trump a rasgar o Acordo de Paris, sendo uma espécie de cumprimento perverso de uma promessa de campanha, reforça a ideia de que os EUA voltaram a estar “do lado errado da História”. 

É, literalmente, o mundo ao contrário, a visão de Trump, quando comparada com a de Obama.

Nos primeiros 122 dias como Presidente dos EUA (entre a tomada de posse até hoje), Donald Trump mentiu pelo menos 586 vezes, de acordo com a contagem do Washington Post. São quase cinco mentiras por dia. Frase que repetiu mais vezes (28): “You look at what's happening with Ford, and General Motors, in Michigan and Ohio ... that's what I'm proud of.” Por 26 vezes disse isto: “Obamacare is collapsing. It’s dead. It’s gone. There's nothing to compare it to because we don’t have health care in this country.” 

“Covfefe”, um novo “low”

Sem se conter no Twitter, Donald Trump passoi na madrugada de terça para quarta-feira uma nova fronteira: acabou uma frase de um ‘tuit’ com um misterioso (e, provavelmente, trapalhão) “covfefe”. Oh, God. Digno de uma série de David Lynch. Será do regresso de “Twin Peaks”?

Se a tudo isto juntarmos uma incrível falta de capacidade de concretização legislativa (mesmo com o Partido Republicano a dominar as duas câmaras do Congresso) e uma crescente sensação de ingovernabilidade dentro da própria Casa Branca (fugas de informação, conflitos internos sobre estratégia entre conselheiros próximos do Presidente, desconfiança em relação à capacidade de Trump cumprir até ao fim o seu próprio mandato), concluímos que esta presidência está sob sério risco de falhanço completo. 

A História e pródiga em “corrigir” sentenças. Barack Obama deixou a Casa Branca há apenas quatro meses e meio e já se fica com a sensação de que, durante os seus dois mandatos, foi por várias vezes injustiçado na forma como se avaliou o seu desempenho.

As dificuldades que Obama tinha de lidar com o Congresso que o hostilizava parecem brincadeiras de criança quando comparadas com este clima de “impeachment iminente” que começa a pairar em Washington.

Mesmo que esse processo de destituição do Presidente não apareça tão cedo (não há, para já, condições políticas para isso), a verdade é que Donald Trump parece ser um líder fraco, incapaz e à deriva. 

Com poucos ou nenhuns aliados, sem capacidade de mobilização, a somar inimigos e preso a uma base de apoio que será neste momento pouco superior a um terço do eleitorado americano.

O intensificar das investigações sobre o alegado ‘conluio russo’ ainda não deixou claro que Trump possa estar diretamente implicado, mas aumenta, a cada dia que passa, a noção de que figuras decisivas da campanha que levou Donald à Casa Branca tiveram mesmo contactos comprometedores com responsáveis russos.

Não terão sido só Paul Manafort, diretor de campanha de Trump até ao verão de 2016, o general Flynn (Conselheiro de Segurança Nacional, o homem que todas as manhã briefava o Presidente sobre os temas mais sensíveis, e afastado ao fim de 23 dias em funções) ou Carter Page (consultor de política internacional da campanha Trump e, de acordo com as investigações já efetuadas, será suspeito de ser agente duplo com fortes ligações ao governo russo).

Nos últimos dias, a “Russia Connection” chegou ao genro do Presidente, Jared Kushner, marido de Ivanka e incumbido por Trump de vários temas fundamentais na área externa (incluindo o processo de paz no Médio Oriente). 

De acordo com o Washington Post, o FBI estará a investigar reuniões de Kushner com o embaixador e um banqueiro russo, com “possíveis interferências nas eleições e eventuais crimes financeiros”.

Até quando?

Como é que, depois disto tudo, ainda há quase quatro em cada dez eleitores americanos a aprovar o Presidente Trump? Winston Churchill dizia que "bastam cinco minutos de conversa com um eleitor médio para se ver que o sistema de eleição por voto não é bom". E isso foi na culta Inglaterra dos anos 40 do século passado. Com um eleitor médio do Midwest americano desta era da pós-verdade... talvez um minuto chegue?

A questão que se coloca é mesmo esta: vão os republicanos no Congresso e, no limite, os eleitores americanos viver, sem fazer algo de politicamente relevante durante todo o mandato presidencial de Donald Trump, com a dúvida razoável sobre se o Presidente dos EUA teve ou tem ligações ilícitas com a Rússia? Que consequências isso terá para a autoridade natural do Presidente dos EUA para exercer a sua liderança no plano internacional?

A primeira série de viagens de Trump como Presidente foi outro foco de tensão e fragilização da sua presidência. 

Donald Trump faz nova tentativa de compensar na frente externa o falhanço completo da sua presidência durante os primeiros quatro meses. 

Começou em Riade, seguiu para Israel, foi recebido pelo Papa no Vaticano, numa espécie de ‘tour’ pelas três principais religiões. Foi, depois, à Cimeira da NATO em Bruxelas e à Cimeira do G7, na Sicília.

Se olharmos para os critérios da agenda das primeiras viagens do 45.º Presidente dos EUA, nada de especial a apontar. A Arábia Saudita é um aliado fundamental dos Estados Unidos, o maior do mundo muçulmano. Os últimos presidentes americanos reforçaram essa aliança, mas com Obama isso alterou-se ligeiramente, pela forte aposta de Barack no acordo nuclear com o Irão (muito bem sucedido). 

A retórica de Trump foi a de confrontar o Irão e reforçar aliança com a Arábia Saudita, o que, na verdade, não faz muito sentido, se olharmos para a proximidade de Donald com Vladimir Putin, o presidente russo, que tem no Irão o principal aliado na região.

Confusos? É caso para isso. Donald Trump elegeu a destruição do Daesh como prioridade na luta contra o terrorismo. Ora, o Daesh é um grupo jihadista sunita. O maior pilar do mundo sunita é a Arábia Saudita, controlada pela dinastia wahabita. O Irão, pilar do mundo xiita, tem sido um dos principais travões ao crescimento do Daesh e após o acordo nuclear assinado entre Obama e Rouhani, o clima de tensão nuclear estava controlado

Até vir esta agressividade despropositada de Trump. 

O que fez Donald Trump? Chegou a Riade e assinou com a Arábia Saudita o maior contrato de vendas de armas da história americana. O atual Presidente dos EUA não tem uma estratégia. Não terá, aliás, a preocupação de ser coerente nos pressupostos que segue, de modo a ter alguma espécie de estratégia. Ao que parece, não tem, sequer, princípios. Tem mesmo só interesses.

Além de ser uma excelente notícia para o Irão, a reeleição presidencial clara de Hassan Rouhani (57% dos votos) é a prova de que o acordo nuclear feito durante a Presidência Obama está a ser um sucesso e tem tido forte apoio popular em Teerão. É mais um sinal de que a «onda populista autoritária» está em nítido recuo nos últimos meses (Holanda e França já o tinham indicado). 

E é também, claro, a demonstração de que a atitude agressiva de Donald Trump com o atual presidente iraniano, tendo a promessa de rasgar o "nuclear deal" como pedra base da sua política para a região, é um disparate completo. 

Talvez seja cedo para pensarmos a sério em “impeachment”. Mas o que as últimas duas semanas da presidência Trump mostraram é que os Estados Unidos estão metidos num paradoxo: elegeram alguém sem capacidade para o cargo, mas que mantém os poderes atribuídos a quem, supostamente, teria as características que ele não tem.

Em quatro meses, Donald Trump tentou banir a entrada nos EUA de muçulmanos de sete países mas viu barrada a tentativa pela força do sistema judicial americano; cortou apoios a programas sem significado percentual no orçamento americano e que apoiavam grávidas, mães desfavorecidas e crianças obesas (decisão tão absurda que levou Michelle Obama a dirigir-se em público a Trump, para perguntar: “Sr. Presidente, passa-se algo de errado consigo?”); disse que a NATO era obsoleta e depois disse que não é bem assim; despediu o diretor do FBI porque o estava a investigar e Comey lhe tinha garantido que iria manter “honestidade” no trabalho; revelou segredos de Estado que põem em causa vidas humanas; mentiu descaradamente em tantas situações que não caberiam nestas linhas. 

O maior risco desta era Trump é cairmos numa certa normalização do inaceitável. Convém, por isso, relembrar o essencial. 

Seria cómico se não fosse trágico

O Presidente dos EUA, nestes quatro meses, mentiu descaradamente por várias vezes, mas não com aquelas “habilidades” de linguagem que quase todos os políticos têm, de alguma maneira e nalguma fase da sua liderança, que fazer. 

Não se trata disso: Donald Trump mente de uma forma que leva muita gente a considerar que há mesmo razões para acionar a 25.ª adenda da Constituição Americana, que prevê o afastamento de um Presidente, não através de um “impeachment” (que é sempre um processo de base judicial e, em última instância, uma decisão política, com necessidade de dois terços no Senado), mas por via de uma conclusão maioritária do Congresso de que o Presidente não possui “condições físicas ou mentais” para exercer a sua função.

Só três exemplos muito concretos: a insistência com que Trump disse, mesmo em conversas informais com congressistas e jornalistas, que ganhou mesmo o voto popular (quando a realidade factual é que perdeu por três milhões de votos contra Hillary Clinton) faz com que alguns especialistas temam que não se trate de um golpe comunicacional e que o Presidente dos EUA possa mesmo sofrer de delírios egocêntricos; outro caso de mentira descarada tem a ver com a taxa de homicídios: Trump continua a insistir que nos anos Obama o número de assassinatos nos EUA atingiu o valor mais alto das últimas quatro décadas, quando, na realidade, a taxa de homicídios nos EUA em 2015 foi de 4,9 por 100 mil habitantes (ligeiramente mais alta, de facto, do que os 4,4 do ano anterior, 2014, mas incrivelmente mais baixa que os 10,2 de 1980).

É estatisticamente impossível afirmar que a taxa de homicídios nos EUA está nos valores mais altos das últimas quatro décadas. 

Com variações anuais, ele subiu consistentemente nas décadas de 60, 70 e 80 e foi começando a descer nos anos 80, sendo que a partir de 2005 essa descida passou a ser ainda mais considerável até atingir, em 2014, o valor mínimo do último meio século.

Finalmente, o exemplo mais bizarro, de rir mesmo: recentemente, num comício, o Presidente dos EUA disse que “reverter o TPP era um exercício digno de grandes mestres do xadrez. E não temos nenhum nos EUA”.

Ora, na verdade, os Estados Unidos têm 93 (noventa e três!) grandes mestres de xadrez, apenas ultrapassados pelos 238 grandes mestres russos.

Seria cómico, se não fosse trágico.

O olhar do Papa Francisco

O ar propositadamente pesado e desconfortável do Papa Francisco ao lado de Donald Trump ficará como uma das grandes imagens desta estranha era em que vivemos. A comparação com a forma como recebera Barack Obama é reveladora.

Nessa ocasião, o Sumo Pontífice ofereceu a Donald Trump a cópia de texto que escreveu em 2015 sobre a necessidade de se proteger o planeta dos efeitos nocivos das alterações climáticas. Ouch.

Quando um Presidente dos EUA deixa de assumir a liderança pelas melhores causas, coisas destas podem acontecer. E devem.

*autor de dois livros sobre a presidência Obama e outro sobre Hillary Clinton e a eleição presidencial de 2016