Dados lançados, faça-se o jogo.

As eleições intercalares para o Congresso, que decorrem esta terça nos EUA, serão o primeiro grande teste à presidência Donald Trump.

Os cenários mais prováveis apontam para que os republicanos mantenham o controlo do Senado e que os democratas tomem a liderança da Câmara dos Representantes.

A confirmar-se esta ideia, teremos um “split Congress”, um poder partilhado no Congresso, cenário que se verificou durante a maioria dos anos Obama, ainda que em sinal contrário (na altura, os democratas controlavam o Senado, os republicanos tinham a Câmara dos Representantes).

A “House” é a câmara baixa, tem 435 representantes, mas é de lá que parte o essencial da iniciativa legislativa. O Senado, câmara alta, tem poderes importantes na política externa e na verificação e confirmação de nomeações presidenciais e das principais leis que a Câmara dos Representantes produz.

Se os democratas recuperarem a House, isso é um cartão amarelo para Trump. O Presidente volta a estar em risco em temas nebulosos como a “Russia Collusion”.

Mas também pode ser um pretexto para Trump mostrar capacidade de negociação com “o outro lado” (Donald sabe que para se reeleger em 2020 tem que aumentar um pouco o seu índice de aprovação, que está na casa dos 40%). E passará a ter um novo “bode expiatório”: sempre que algo falhar nesta presidência, além dos media pode também culpar a futura maioria democrata no Congresso.

Os democratas chegaram a ter, nas sondagens, uma vantagem enorme, mas os últimos números apontam para uma relação de 225-210 (o que dará uma clara vitória ao partido de Obama, Hillary e Sanders, embora não na dimensão que chegou a imaginar-se). E não está afastada, em absoluto, uma surpresa de última hora que possa manter do lado republicano o controlo da House.

O Senado segurará o Presidente

O Senado continuará, quase de certeza, nas mãos dos republicanos. Apesar de diferença curta neste momento (51 senadores republicanos, 47 democratas e 2 independentes de tendência democrata), vão a jogo 26 lugares democratas e apenas 9 republicanos.

Até é de admitir que os republicanos aumentem ligeiramente a sua vantagem (as projeções apontam para 52-48 ou mesmo 53-47).

Com os republicanos a continuarem a ser maioritários no Senado, não é crível que Trump tenha em risco o seu lugar até 2020: um cenário de impeachment, mesmo que os democratas o criem na House, nunca passará na câmara alta.

Dupla mobilização

Tudo indica que estas venham a ser as eleições intercalares mais participadas das últimas décadas.

Do lado republicano, a “maioria Trump” tem uma base por natureza mobilizada.

A novidade é que, do lado democrata, se tem notado uma forte mobilização de segmentos que tradicionalmente não votam assim tanto: jovens, mulheres e minorias – três grupos que, em alguns estados, sentem um “drive” especial em contestar esta presidência.

Questões como o aborto, Health Care ou a integração dos imigrantes serão motivos para os democratas terem votos “anti-Trump”, embora seja de esperar também reação no polo oposto.

Os números da Economia favorecem os republicanos (desemprego historicamente baixo, crescimento económico, salários a subir), mesmo que o primeiro ano fiscal da Presidência Trump tenha tido um aumento da dívida em níveis históricos – os cortes de impostos em momento em que ainda não se procederam a cortes significativos de programas sociais levaram a esse cenário.

Foi o próprio John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Trump, a admitir que “a dívida é, a longo prazo, uma das maiores ameaças à segurança nacional dos EUA”.

A questão é que Trump é o mestre da perceção de curto prazo. E a curto prazo muitos americanos sentiram alívio fiscal, mais dinheiro na carteira e uma sensação (errada, mas gerada pela narrativa do Presidente) de que “a América passou a estar mais segura e a ser mais respeitada”.

Os democratas ainda não encontraram uma narrativa forte contra isto.

Será que, mesmo assim, conseguem ter uma vitória clara hoje?