Paulo Portas discorda do convite do presidente eleito do Brasil ao juiz Sérgio Moro para ministro da Justiça. No habitual espaço de análise “Global”, no Jornal das 8, o comentador da TVI explicou porque entende que o convite é mau tanto para Jair Bolsonaro como para o próprio Sérgio Moro.

Acho mal e acho que pode acabar mal para um e para outro”, começou por dizer Paulo Portas, enunciando quatro razões.

O antigo vice-primeiro-ministro sublinhou, em primeiro lugar, que a aceitação do convite por parte de Sérgio Moro legitima a crítica de que a forma como conduziu o processo Lava Jato, no que diz respeito ao antigo presidente Lula da Silva, poderia ter sido politicamente orientada.

“Uma coisa são os factos, outra coisa são as perceções. Ele acaba de confirmar essa perceção de uma parte dos brasileiros”, defendeu.

A segunda razão apontada por Paulo Portas é que, em vez de levar a fundo a separação de poderes, o convite de Jair Bolsonaro a Sérgio Moro, traduz “uma sobreposição de poderes entre Justiça e Política”.

Em terceiro lugar, o ex-líder do CDS-PP apontou que o facto de Sérgio Moro se tornar ministro da Justiça prejudica a própria operação Lava Jato, que continua.

Os juízes ficam perante o dilema de continuar a ação de Sérgio Moro ou desafiar a sua própria linha de orientação”, explicou.

Por fim, Paulo Portas apontou que a própria Constituição brasileira tem um artigo que diz que os juízes não podem exercer funções político-partidárias.

Eu sou absolutamente a favor de uma incompatibilidade firme entre Magistratura e Política. E tão grave é um político querer obstruir a ação da Justiça como um magistrado meter-se em política. É por isso que os magistrados são uma espécie de sacerdócio”, defendeu.

Apontando dois casos no Ocidente, relativamente recentes, de magistrados que passaram para a política - Baltazar Garzón, em Espanha, e Antonio Di Pietro, em Itália – Paulo Portas argumentou que o mínimo que se pode esperar de Sérgio Moro no futuro é que não volte à magistratura, se um dia vier a deixar o Governo.

O juiz estrela não tem um ego modesto e a política não é propriamente um lugar onde os egos também sejam discretos. Muito provavelmente haverá no meio de todo este caminho um conflito entre este senhor [Jair Bolsonaro] e este senhor [Sérgio Moro] porque quando houver uma questão ética dentro do Governo e ele disser: ‘ou eu ou a outra pessoa ou uma determinada medida’, provavelmente acabará a sair. Foi o que aconteceu noutros casos”, vaticinou.

Taxa de aprovação de Trump cada vez mais negativa

A 48 horas das eleições intercalares nos EUA, na terça-feira, e um dia antes de Donald Trump assinar o novo pacote de sanções contra o Irão, a taxa de desaprovação do presidente norte-americano cresceu algumas décimas desde a semana passada e estará agora em 8,3%.

Para Paulo Portas, se as sondagens não se enganarem, Trump manterá a maioria no Senado e perderá a maioria na Câmara dos Representantes.

Nas últimas eleições parciais que houve nos EUA, houve maior mobilização do voto democrata. É muito curioso porque Trump não teria sido eleito se não fosse Trump, mas aquilo que o fez eleger pode ser o que determinará na terça-feira a sua derrota na Câmara dos Representantes”.

O comentador da TVI e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros explicou que a mobilização contra Donald Trump é muito maior hoje do que há dois anos.

Porque como ele tem uma forma de fazer política muito agressiva, muito conflitual e em permanente desafio, isso leva à mobilização da base dele, mas também leva à mobilização dos adversários dele. Essa é a grande diferença com 2016: os democratas não estavam especialmente mobilizados com Hillary Clinton, agora estão mais mobilizados contra Trump.”

O fim de Angela Merkel

No dia em que a direção da União Democrata-Cristã (CDU) se reuniu, em Berlim, para debater a sucessão de Angela Merkel na liderança do partido, Paulo Portas realçou que a chanceler lidera os destinos da Alemanha há 13 anos e “cedeu a uma pequena tentação que é ultrapassar o recorde de tempo no Governo de Helmut Kolt e Konrad Adenauer”.

Angela Merkel  anunciou no dia 29 de outubro que deixará a liderança do seu partido democrata-cristão no congresso que terá lugar em dezembro, tencionando permanecer como chanceler até às eleições gerais previstas para 2021. Paulo Portas elogiou a decisão de Merkel de sair de cena.

Tudo se desgasta e ela deixou de ser o tesouro eleitoral da CDU e teve a grande lucidez de o reconhecer agora e seria pior reconhecê-lo mais tarde, com mais derrotas ou mais quedas.”

Sobre o legado de Angela Merkel, o comentador da TVI destacou três aspetos.

Para nós, europeus, eu acho que, objetivamente, ela muitas vezes criticada por ser excessivamente alemã contribuiu para que a Europa não se partisse, mesmo na questão da Grécia.”

Um segundo aspeto, disse ainda Paulo Portas, foi o de ter feito o que devia na questão dos imigrantes, mesmo que com isso Merkel tenha sacrificado a carreira política.

Sobretudo olhando, não apenas à formação cristã dela, mas à demografia da Alemanha e, nesse sentido, salvou um pouco a consciência moral da Europa nessa matéria.”

Para Paulo Portas, outro aspeto que não pode ser esquecido é que Angela Merkel também ultrapassou a crise financeira, onde havia bancos alemães indiretamente envolvidos.

Esta senhora trouxe a dívida alemã de 80 para 64% e manteve a Alemanha a funcionar. Antes de ela chegar dizia-se que a Alemanha era o doente da Europa e que não conseguia ganhar competitividade (…). Acho que ainda vamos sentir alguma falta da serenidade dela”, rematou.

No comentário de Paulo Portas houve ainda tempo para duas notas finais: o desempenho económico da Europa, com uma redução de crescimento do PIB da Zona Euro, e uma notável evolução tecnológica em Lausanne, na Suíça, que dá esperança aos paraplégicos.