A “geringonça” de António Costa já tem um ano e, contra todas as expetativas, vingou. José Miguel Júdice, comentador da TVI24, analisou no programa 21ª Hora o percurso do atual primeiro-ministro.

Para o antigo bastonário dos Advogados, a "grande qualidade do António Costa é que ele é um verdadeiro oportunista”, disse, esclarecendo logo de seguida que não o era "no sentido ofensivo” da palavra. Para o comentador, “na política, é preciso aproveitar a oportunidade, não a deixar passar e não ter quaisquer contemplações em, até, mudar de opinião. A política não é para meninos”.

E é este o caso de Costa. O advogado considerou que o primeiro-ministro “é o homem que trabalha à beira do abismo", que "pressupõe que tudo vai correr bem”. E, se tudo correr pelo melhor, “Costa é capaz de vencer as próximas eleições legislativas com maioria absoluta e até nem precisar do PCP para isso”. Caso alguma coisa corra mal, estaremos, na opinião do comentador, em maus lençóis porque o Governo não está a aproveitar a conjuntura favorável atual para realizar reformas. “Ele não fez realmente reforma nenhuma”, sublinhou.

Ele é o melhor político da sua geração. Em Portugal, não há ninguém comparável. Ele conseguiu coisas fantásticas por isso mesmo. Já meteu no bolso o PCP e o Bloco de Esquerda, claro que o PC está sempre a fugir por um buraquinho que há nas calças, mas está no bolso”.

Relação entre Costa e Marcelo: “é um namoro de oportunistas”

Por outro lado, para José Miguel Júdice este sucesso é consequência da frieza que utiliza na política e na gestão dos assuntos do Estado.

Ele é frio, não tem emoções que perturbem o seu processo e é muito inteligente e tem pensamento estratégico. No fundo, o objetivo dele foi o seguinte: vou meter dinheiro no bolso dos portugueses a curto prazo ainda que isso tenha consequências a médio ou longo prazo. E toda a estratégia vai nesse sentido”.

Mas também o otimismo do chefe do Governo, outrora comentado por Marcelo Rebelo de Sousa, foi escrutinado. “Sendo otimista, comunicou otimismo às pessoas. Passos Coelho estava sempre com um ar torturado de quem achava que a tragédia vinha aí. Como ele é otimista, se amanhã as coisas correrem mal ele dirá: eu tentei tudo”, explicou o comentador.

Depois há o namoro descarado com Marcelo Rebelo de Sousa, que retribui o namoro, andam encantados. Tenho visto casos de paixão que duram anos que não são tão fascinantes como este. Como o prestígio do Marcelo Rebelo de Sousa é impressionante, tudo se cola como que por osmose à pele do António Costa”, disse José Miguel Júdice.

No que respeita ao trabalho no panorama político nacional, nomeadamente à esquerda, Júdice considerou que António Costa “secou a extrema-esquerda”.

“Ele conseguiu fazer o que nenhum político da esquerda moderada conseguiu na Europa. Claro que ele tem de lhes dar, como com aqueles animais ferozes, algum pedaço de carne, algumas coisas para eles se irem entretendo”, referiu o advogado.

Questão dos precários é “um disparate”

A contratação dos precários do Estado foi outro dos temas abordados no espaço de comentário da 21.ª Hora. Para José Miguel Júdice, esta questão “é um disparate”, mas acarreta riscos para o país.

Isto é um disparate, mas tem alguma intenção também. Além de criar eleitores, todos os precários vão ficar muito gratos a António Costa”, comentou Júdice.

O advogado abordou ainda uma questão que tem estado afastada das manchetes dos jornais: os “boys” dos partidos. Segundo denuncia, ainda que sem concretizar nenhum caso, os partidos costumam colocar “os seus rapazinhos e as suas rapariguinhas com umas avenças, uns contratos, uns recibos verdes” e nestas ocasiões “vai tudo para o Estado”.

“Pode ser que isto até seja muito bom para reforçar António Costa dentro do partido."

Para Júdice a medida de absorção dos precários na máquina do Estado não é salutar, antes pelo contrário. “Isto é perigosíssimo porque se amanha um conjunto de problemas acontecerem, de repente Portugal está à beira do abismo e cai”.

Declarações da PGR são “de uma gravidade sem termo”

José Miguel Júdice condenou ainda o despacho de Cândida Vilar relativo às mortes no curso dos Comandos. No documento, a procuradora considerou que os militares agora indiciados trataram “os instruendos como pessoas descartáveis”.

Acho que ela perdeu a cabeça. Ela queria que eles ficassem presos em preventiva, que é talvez a coisa que mais prazer dá aos procuradores da República”, criticou o comentador, considerando as declarações do despacho “de uma gravidade sem termo”.

Para o antigo bastonário, a Procuradoria-Geral da República deve assumir uma posição sobre o documento, visto que Cândida Vilar agiu assim para, na sua opinião, “influenciar o juiz de instrução”.

É desnecessário ser assim para tentar que eles fiquem na prisão preventiva, porque ela não está a acusar de coisa nenhuma, está só a tentar influenciar o juiz de instrução para o manter na cadeia”, disse.

Júdice considerou ainda que as declarações do Ministério Público denunciam populismo no ceio da instituição e isso não deve ficar impune.

O Ministério Público não é um bando de pessoas que querem ser justiceiros que querem ter sucesso junto das multidões. É preciso que a Procuradora e a sua hierarquia ponham ordem nisto porque isto é contra o estado de direito. O populismo não é só o Trump, tudo isto é populismo”, concluiu.

Verónica Ferreira