Há uma dúvida que põe sob suspeita a sabedoria do eleitorado norte-americano e que reforça a ideia, que muitos têm injustamente, de que se trata de um país de gente maioritariamente ignorante: como é que o país que escolheu um homem como Barack Obama, elege, oito anos depois, alguém com o perfil de Donald Trump?

Já foram dadas inúmeras explicações, mas nenhuma aquieta a alma dos povos que se sentem totalmente vinculados ao direito de, também eles, votarem numa escolha de tamanha importância.

Como é que primeiro se escolhe alguém ponderado e sensato, para depois se elevar ao pódio do mundo a conversa do café? Nada parece resolver este dilema.

E tudo passa inevitavelmente pela personalidade, pelo universo dos sonhos e dos anseios, que é o motor da motivação de cada um, mas também pelas origens, pelos meios e pelos fins.  

Pelo menos isso desenha uma separação abissal entre o Presidente que entra e o Presidente que sai. À partida, o que tínhamos como certo de um é, de facto, muito diferente do que esperamos do outro. Primeiro esperança, hoje receio. Há oito anos uma ideia benevolente do mundo, e agora, uma abordagem minimalista, redutora, e a preto e branco.

Cada último ato de Obama tornou-se numa espécie de roda obsessiva de despedida, o último vislumbre de algo que foi bom viver.

No dia do funeral de Nelson Mandela, o Presidente dos EUA  chegou à tribuna e deu um aperto de mão ao Presidente cubano, Raúl Castro, com um sorriso. Nessa manhã de dezembro de 2013, no Estádio de Joanesburgo, ninguém poderia imaginar um gesto tão de acordo com o homem que se ia homenagear na casa da Springboks, a selecção de rugby sul-africana, símbolo da paz e da reconciliação.

Barack Obama e Raúl Castro no funeral de Nelson Mandela. Foto Reuters

O gesto histórico reforçou a imagem de elevação que Barack Obama já tinha. Soube-se depois que a aparente espontaneidade escondia seis meses de contactos entre representantes dos dois inimigos figadais da Guerra Fria, mas já lançava as bases para o que Obama queria: restabelecer as relações diplomáticas com Cuba e terminar com o embargo.

Para Obama, inimigo não era aquele que se herdava, mas sim aquele que provasse sê-lo. Que revolução para o conceito americano!

Como em grande parte das iniciativas que teve nos oito anos que esteve na Casa Branca, Obama só conseguiu aquilo que dependia estritamente dos poderes do Presidente,  porque a maioria Republicana no Congresso declarou guerra ao primeiro Presidente negro da nação na noite da histórica  vitória eleitoral  de novembro de 2008. O racismo insinuou-se sempre, silencioso mas eficaz, na reação de rejeição quase epidérmica ao homem que tinha tanto para dar.

Quem senão ele Obama teria a audácia e a liberdade de espírito para dar este passo em direção à pequena e rebelde ilha caribenha? Quem senão esta personalidade para levar até ao fim as negociações para um acordo nuclear com o Irão, até há pouco tempo um  elemento central do chamado “eixo do mal” declarado pelo Presidente Bush.

Já em 2010, dois anos depois de ter sido eleito, Washington e Moscovo tinham assinado um acordo histórico para a redução em 30 por cento do arsenal nuclear dos dois países nos 10 anos seguintes. Putin ainda não tinha regressado à presidência russa e o acordo foi fechado com Dimitri Medvedev.

A passagem de Barack Obama pela história está cheia de exemplos da forma totalmente nova e pacificadora como ele encarou a política,  desde que se apresentou, com 45 anos, como a estrela das primárias democratas, roubando a nomeação a Hillary Clinton que, já nessa altura, estava pronta para ser ela própria a fazer história.

Mas nenhum acordo representa melhor a audácia deste político como aquele que era mais óbvio, mas também mais difícil. O mundo obteve finalmente a assinatura dos EUA e da China, os dois maiores poluidores do planeta, no Acordo de Paris, que traça os objectivos mais ambiciosos de sempre para tentar travar o aquecimento global.

Tirou os EUA da recessão, criou 11 milhões de postos de trabalho, relançou a decrépita indústria automóvel dos país com um pacote de estímulos vocacionados às energias renováveis, ajudou a levar a causa do casamento entre homossexuais até à legalização.

A história escreve-se assim, quase de forma cansativa, a falar das virtudes de Obama quando, na verdade,  já parece inútil. Primeiro porque não foi perfeito e, depois, porque o seu sucessor é tão diferente e pode pôr tudo em causa.

Barack Obama. Foto Pete Souza

Muita gente se sente desiludida com Barack Obama por várias razões, uma das quais está ligada à enorme expectativa que criou quando nos convidou a viajar para os sonhos de um mundo melhor. Ele queria mudar o mundo.

Não conseguiu fechar Guantánamo, e a nódoa da prisão abusiva e ilegal consegue manchar o seu legado por esse fracasso.

Um dos contributos mais destacáveis da intervenção de Obama na política internacional foi ter rasgado, intencionalmente, o papel da América como “polícia do mundo”. Terminou duas guerras e retirou, sem glória, o maior exército do planeta.

Resistiu o quanto pôde a um envolvimento aberto e massivo na guerra da  Síria, e apenas a luta contra o poder crescente do grupo Estado Islâmico colocou na agenda militar da potência ferida um regresso a operações no Médio Oriente, mas em nada parecido ao que tinha esgotado os recursos económicos e militares norte-americanos nas guerras do Afeganistão, mas principalmente do Iraque, lançadas por George W. Bush.

Obama sabia que os EUA já não tinham moral nem capacidade para travar as guerras dos outros,  ou sequer as guerras que começava para defender os interesses americanos, tantas vezes obscuros.

Falhou quando traçou uma linha vermelha com os ataques químicos do regime sírio e nada fez quando foi ultrapassada. Foi fraqueza, hesitação, faltou a fibra no papel de líder moral do mundo que lhe tínhamos dado?

Falhou e feriu o seu prestígio, mas nada nem ninguém poderia mudar a natureza profunda deste homem, o único presidente americano pacifista.

Mas o fim do papel de policiamento americano deixou um vazio de poder, e hoje é incontestável que existe uma nova ordem e um mundo em auto gestão, para o qual também contribuiu a erosão inexorável do papel moderador e do prestígio das Nações Unidas.

Donald Trump. Foto Reuters

É este o mundo novo que recebe Donald Trump. Já não recebe o homem novo que personificava Barack Obama, mas sim alguém que representa um salto para o desconhecido e uma ameaça sob tantos aspetos.

Obama trouxe à política uma nova forma de pensar e travar batalhas, criou e manteve uma retórica de esperança e conciliação, enquanto o milionário que foi eleito se destaca, para já, pela manifesta inabilidade e falta de preparação política e técnica para as complexidades, não só da política interna norte-americana, mas também para este mundo desregrado, aparentemente sem rumo, e certamente sem grandes líderes inspiradores.

Depois do fim do polícia do mundo, que vinha sendo anunciado por sinais de um declínio do império americano, a América de Trump promete fechar-se sobre si própria. Quer rever do ponto de vista contabilístico a relação com os aliados da Nato, quer fechar a porta ao seu vizinho do sul e construir o muro para travar um fluxo migratório hispânico que, segundo estudos recentes, nunca foi tão baixo.

Os números dos estudos não existem para Trump, nem sequer os factos científicos que estão na base das alterações climáticas, que recusa. Os serviços secretos não são de confiança para o novo Presidente, as sondagens são manipuladas, as notícias de que não gosta são falsas e os jornalistas são suspeitos. De tal forma são suspeitos que a equipa de Trump chegou a propôr  que a sala de imprensa da Casa Branca passasse para o outro lado da rua. Isso  não vai acontecer porque a associação dos correspondentes da Casa Branca recusou a ideia liminarmente, mas com a consequência de ver limitado o acesso apenas aos 49 jornalistas permanente,  e com lugar sentado,  da sala de imprensa. Mais ninguém. De fora ficam, a partir de agora, centenas de jornalistas nacionais e estrangeiros que estavam acreditados na Casa Branca.

Há vários aspectos a ter em atenção na intervenção que o Presidente Trump vai ter na vida política. Um deles é certamente a criação de uma realidade que apenas ele  pode reconhecer como verdadeira. Ao limitar ao nível da suspeita permanente o papel da imprensa, dos estudos e da ciência, Trump reserva apenas a si próprio o relato dos factos e daquilo que é certo ou errado.

Depois de oito anos de governação de um homem que ficou conhecido como “No drama Obama”, os EUA têm agora um líder mais errático e agressivo, que responde às críticas à letra, e que  muitas vezes recorre a realidades em  que ele  acredita, mas que não correspondem à verdade.

John Lewis. Foto D.R.

Temos dados para sustentar este receio. Com mais de um ano a registar as afirmações e os tweets de Donald Trump, com ataques a mulheres, a negros, a hispânicos e oponentes políticos, há um caso que confirma a forma como o novo Presidente lida com os assuntos. E envolve tão só um herói da luta pelos direitos civis, John Lewis, um político afro-americano de 77 anos que participou em momentos decisivos da luta contra a segregação racial nos EUA, e que é  um respeitado congressista democrata desde 1987.

Uma semana antes da tomada de posse de Trump, o político da Georgia quebrou um tabu que estava reservado para mais tarde: afirmou numa entrevista que não considerava Trump um presidente legítimo e deu como razão o envolvimento russo na campanha eleitoral, e o papel que os russos tiveram na destruição da candidatura de Hillary Clinton.

John Lewis foi o primeiro a usar abertamente a palavra “legitimidade” e Trump recorreu ao Twitter para escrever: “O Congressista John Lewis deveria passar mais tempo a resolver os problemas do seu distrito, que está em péssimo estado, e a cair aos bocados (já para não dizer infestado de crime), em vez de ser queixar, sem fundamento, do resultado das eleições. É só conversa, conversa, conversa, sem ação nem resultados. Triste.”

Acção, e muita, teve John Lewis ao longo da vida, e os dados mostram que o distrito que o nomeou na Georgia não corresponde ao lugar que Trump descreve como “infestado de crime”.

O incidente fez estalar o verniz dos democratas e aquilo que teria sido, dias antes, uma suave transição de poder, transformou-se no boicote de um em cada quatro congressistas democratas à cerimónia de tomada de posse do Presidente.

Começa bem. É tudo fantástico, “terrific”, como diria Trump, que promete tornar a América grande outra vez e criar emprego.

Nas últimas declarações públicas enquanto Presidente dos EUA, Barack  Obama disse que queria passar um período calmo para fazer um balanço do que foram os últimos anos. Disse que queria estar em silêncio, e ter a possibilidade de não ouvir a sua própria voz tantas vezes. Mas, embalado pelo som de si próprio, foi ele próprio. Como se ouvisse os seus  passos no corredor de saída e os tambores que ecoam em Washington, deu novamente nome às palavras para tentar que não fossem esquecidas: democracia, discriminação, silenciamento, expulsão.

Nome, conceito, ameaça. No implacável ritmo da saída, Obama prometeu que o cidadão estaria sempre presente para fazer ouvir a sua voz, se os fundamentos da grande nação fossem atropelados.

O Presidente disse. O cidadão dirá.

Que não haja espaço para a saudade, apenas para a acção, se for necessária.