João Rendeiro ia ser o primeiro banqueiro a cumprir pena em Portugal (lembram-se?) e a moralizar o sistema. Agora é que era. Depois de a justiça ter falhado com Oliveira e Costa, que morreu à espera, e com Ricardo Salgado, que se for condenado terá então 110 anos, era com Rendeiro que a sociedade ia acertar contas. E isso ia mesmo ser possível, diga-se, porque no caso BPP houve uma estratégia de investigação inteligente, pragmática e consequente. Separando factos, fracionando informação, com acusações mais pequenas e ágeis. Onde havia prova, seguiram-se condenações relativamente rápidas para os padrões domésticos.

O oposto dos megaprocessos, em suma, que não levam ninguém à prisão mas ficam bem nos escaparates do Ministério Público. Agora, com os recursos a esgotarem-se e as sentenças a começarem a sair do forno, já transitadas em julgado, íamos ter justiça. Primeiro a pena de 5 anos, depois a de 10, a seguir uma de três. Mas Rendeiro, que assistiu a tudo isto em liberdade, a partir da Quinta Patino, não era agora que se ia deixar prender. E isso estava escrito nas estrelas.

Ficou claro quando, numa entrevista à TVI, lhe foi perguntado se estava pronto para se entregar. Era uma vítima do sistema, perseguido político e “um espírito livre”, avisou, tão livre que se passeava pela Europa e pelo mundo, de passaporte no bolso e com dezenas de milhões de euros em sociedades offshore. Sem arrestos, nem cauções ou outras maçadas do género. Presos estamos nós, à carga fiscal que sustenta os desvarios do dr. Rendeiro e de outros burlões encartados como ele. E presos a um sistema autista que não viu nada disto, aos tribunais que nos dizem agora que não havia “sinais” (!) de que isto podia acontecer – e que assistiu, inerte, ao consumar deste desfecho cómico-trágico.

O sistema, lá está, que no Estado é sempre uma entidade abstrata, onde não há responsabilidade individual e onde ninguém é despedido por manifesta incompetência. Emitam agora todos os mandados, europeus, internacionais e interplanetários, que o dr. Rendeiro vai só pedir mais um mojito. Ou dois. E eu, que prefiro rir do que chorar, brindo ao dr. Rendeiro.