Acabei de saber do falecimento de Rui Oliveira e Costa. Para o grande público, o Rui foi figura de proa do Sporting, deputado, dirigente da UGT, politólogo e administrador de uma empresa de sondagens. Para mim, o Rui foi um amigo a quem devo preciosa ajuda no acesso ao jornalismo.

Em 1980, procurando o meu primeiro emprego no então semanário “Tempo”, foi-me pedido, como prova de admissão, que fizesse a cobertura do Primeiro de Maio. Talvez não tivesse passado esse teste sem a ajuda do Rui.

A UGT organizara uma gala no Coliseu dos Recreios em Lisboa, que resolvi cobrir e para que me equipei recorrendo a um gravador de cassetes cinzento tipo electrodoméstico (até ali reservado às cassetes dos Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple) com teclas plásticas grandes e ruidosas, que coloquei no saco de napa branca Adidas “da tanga”, em que habitualmente levava o quimono para as aulas de judo. Ajuntei um bloco de notas e fui para o Coliseu assistir ao espectáculo.

Sem bilhete de ingresso, sem convite e sem acreditação jornalística, não consegui convencer os seguranças da urgência da minha missão de procurar trabalho… no Dia do Trabalhador. Ali à porta discuti com eles, roguei, pedi, barafustei. Sem sucesso.

O Rui estava a chegar para a gala e apercebeu-se do que se passava, depois de me ouvir, disse simplesmente: “Vem comigo. És meu convidado.”

Assisti à gala no camarote da direcção da UGT, e nos intervalos entrevistei o Rui e o secretário-geral, Torres Couto. À saída falei com trabalhadores na assistência e posteriormente fiz a cobertura do festival de atletismo e manifestações patrocinadas pela CGTP-Intersindical, mas o ‘prato forte’ foram as entrevistas exclusivas e o desembaraço mostrado no Coliseu. 

O trabalho continha o suficiente para me permitir o ingresso na redacção do “Tempo” – e pôr o pé na porta do mundo do jornalismo. O Rui já não se lembrava do episódio quando lho relatei, em 2018, por ocasião do lançamento do meu livro, Uma Vida em Directo. Mas eu nunca esqueci seu gesto quando poderia ter, muito simplesmente, ignorado o miúdo à porta a lutar por uma oportunidade.

Os seus últimos anos de vida foram difíceis, sob o ponto de vista pessoal e profissional. Nesta hora, prefiro recordar Rui no seu melhor, na sua generosidade, na sua amizade prezada por tantos. Onde quer que te dirijas, boa viagem, amigo Rui.

Luís Costa Ribas