Manuela Ferreira Leite considera que o aumento do salário mínimo nacional é uma "profunda contradição".

A antiga ministra das Finanças analisou, no seu habitual espaço de comentário na TVI24, as consequências que terá um aumento do salário mínimo nacional, num ano tão difícil como será o de 2021.

Governo mantém o objetivo de aumentar progressivamente o salário mínimo nacional aos 750 euros até 2023, mas o ministro das Finanças, João Leão, não se comprometeu com um valor. 

A comentadora começou por frisar que, para analisar esta medida, é necessária uma concentração na situação atual de recessão, e chegou mesmo a admitir não ter sido muito pessimista, em comentários anteriores.

 A recessão é bem mais profunda do que pensávamos”, admitiu Ferreira Leite.

Neste contexto de imprevisibilidade e de recessão, o Governo tem investido em apoios "para superar a crise e ver se salva muitas das empresas que estão com dificuldades em sobreviver”.

Por isso, para a antiga ministra, tomar uma medida “que tem um peso muito grande nos orçamentos das empresas” é algo que é contraditório com estas mesmas medidas.

Estamos a apoiar empresas para ver se elas sobrevivem e, simultaneamente, damos-lhes dinheiro que serve para que elas não sobrevivam”, considerou a comentadora, acrescentando que “maiores salários levam empresas a não sobreviver”.

As duas perplexidades de Ferreira Leite

Na quarta-feira, o primeiro-ministro afirmou-se "perplexo" com as advertências do presidente do PSD sobre um novo aumento do salário mínimo, considerando que não apresentou ideias para debate e repetiu a linha do seu antecessor, Pedro Passos Coelho.

Sobre a reação do primeiro-ministro, a antiga ministra começou por admitir que tem “dificuldade em ficar menos perplexa do que ele”. Mas Ferreira Leite foi mais longe e enumerou "duas enormes perplexidades”:

Uma foi o primeiro-ministro ter dito que o futuro do país eram as empresas que não faziam contas aos cêntimos para pagar o salário. É de algo de alguém que não conhece o país", começou por enumerar.

Por outro lado, como segunda perplexidade, a comentadora considera "não ser correto, nem conduz a lado nenhum, se alterarmos a verdade dos factos”. Em causa está o argumento do primeiro-ministro em defender que o aumento dos salários conduziu ao crescimento do país.

Ele sabe que isso não é verdade. O país cresceu, é verdade, mas porque a Europa estava a crescer e houve um boom turístico”

O setor do turismo é um dos setores mais afetados pela pandemia de covid-19. Este setor traduz-se, na grande maioria, em pequenas e médias empresas, com salários mínimos.

Há aqui um oportunismo inaceitável neste momento, que só pode ter um significado: tentar obter uma aprovação da esquerda do Orçamento", concluiu.

Rafaela Laja