No seu habitual espaço de análise às quartas-feiras,  Manuela Ferreira Leite sublinhou que as circunstâncias que contextualizam a injeção de mais de 850 milhões de euros no Fundo de Resolução destinado à recapitalização do Novo Banco têm de ser analisadas na sua vertente política e não legal.

Noutras circunstâncias valia a pena olhar para o contrato e ver que estava tudo de acordo com as regras em relação à injeção capital”, no entanto, explica, a situação de crise pandémica que o país atravessa dá uma natureza política ao problema.

 

Embora cumpra com a legalidade, a decisão de Mário Centeno foi feita contrariamente àquilo que o primeiro-ministro afirmou que se deveria fazer, sem um aviso prévio”, afirma, salientando que António Costa foi apanhado em falso na Assembleia da República.

Manuela Ferreira Leite argumenta que o país ficou sem saber se o primeiro-ministro sabia da injeção de capital e não quis dizer, ou que, por outro lado, não sabia e “o ministro das Finanças fez uma coisa que sabia que era contrário aquilo que Costa tinha dito no parlamento”.

O ministro das Finanças dificilmente se pode esquecer que, quinze dias antes, o primeiro-ministro já se tinha comprometido junto do parlamento de que, se não houvesse o resultado da auditoria ao Novo Banco, esse dinheiro não seria injetado de imediato”, afirma a comentadora.

Esta é uma crise política que, aos olhos de Ferreira Leite, está a ser agravada pela situação decorrente da pandemia, onde estamos a “assistir a uma pobreza muito séria”.

Manuela Ferreira Leite destacou ainda que são vários os testemunhos das dificuldades das empresas em obter fundos estatais. “Quando estamos numa situação de enorme escassez dos apoios do Estado, a única notícia que temos é que se deu 850 milhões à banca”, afirma. 

Muito se tem dito que chegou o momento da banca ajudar as pessoas, mais uma vez foi a banca que foi ajudada pelos recursos do Estado”, critica Ferreira Leite.

A comentadora sublinha ainda que o ambiente social em que o país vive não permitia que esta decisão fosse feita às escondidas e afirma que Costa “não pode ficar com a imagem de que sabia o que se estava a passar e disse o contrário na Assembleia da República”.

Manuela Ferreira Leite