Pedro Santos Guerreiro, António Pires de Lima e Mariana Mortágua juntaram-se esta terça-feira para debater os cenários que advêm de uma grande recessão à escala global, como consequência dos efeitos que a pandemia de Covid-19 está a causar nas diversas economias dos países.

Pedro Santos Guerreiro afirmou que, num momento em que os 'Eurobonds' ainda não têm consenso e os líderes europeus aceitam que a crise gerada pelo Covid-19 vai provocar uma grande recessão, há um consenso alargado sobre muito pouca coisa.

São resultados realmente decepcionantes, apesar de tudo não surpreendentes porque o caminho político já tinha vindo a ser preparado ao longo dos últimos dias", afirma o comentador, sublinhando que a Europa vai ter de decidir se é ou não União Europeia.

Pedro Santos Guerreiro diz que a pergunta mais pertinente neste momento é como é que esta crise vai ser paga? Se for apenas utilizado o mecanismo europeu de estabilidade, Pedro Santos Guerreiro afirma que isso levanta vários problemas.

Primeiro, o fundo tem cerca de 400 mil milhões de euros o que, para a dimensão de que estamos a falar, percebe-se que não é suficiente. Além disso, isto replica uma espécie de comportamento vivido quando foram as intervenções externas, em que está cada país por si", explica o comentador.

O economista António Pires de Lima revela que a sua maior preocupação "é de curtíssimo prazo" e que a população está a ser confrontada com um shutdown da economia decretado "por razões que devem merecer prioridade e que são boas razões".

Uma boa parte do comércio não alimentar, o turismo, a restauração são alguns dos setores que estão completamente ou parcialmente parados e que, segundo o economista, é preciso assegurar uma injeção de liquidez nas empresas, nomeadamente naquelas que assumem o compromisso de manter o emprego, "de forma a que seja possível a reativação das empresas e que a imobilização social seja atenuada".

António Pires de Lima considera ainda que as medidas decretadas pelo Governo neste cenário são insuficientes.

Acho que o Governo pensou conceptualmente bem ao apontar para o Lay Off simplificado, mas o conjunto de regras que anunciou faz com que só seja possível recorrer ao Lay Off dentro de 60 dias", admite o economista.

A deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, explica que vivemos numa situação absolutamente inédita em que a economia foi suspensa e essa suspensão vai se prolongar sem que se saiba por quanto tempo é que as atividades económicas vão estar paradas.

Corremos o risco de provocar uma recessão económica de enorme profundidade. Mas é aqui que entra aquilo que podemos fazer", afirma a deputada, sublinhando que os impactos na economia vão depender das medidas que tomarmos agora.

A deputada explica ainda que há dois cenários. "O pior cenário é a receita do costume: permitir que a suspensão se torne em disrupção através dos despedimentos, da não garantia dos pagamentos dos salários e da insistência de uma lógica de austeridade".

Do outro lado da moeda, Mariana Mortágua diz que é preciso que as pessoas saibam que a realidade vivida durante os tempos da troika não se vai repetir.

As pessoas não vão pagar esta crise com o seu salário, nem com o seu emprego, porque há instrumentos de política económica que vão ser usados para proteger a economia e para proteger o salário", afirma, explicando que a decisão mais correta passará pela proteção do emprego e pela garantia de um apoio aos salários, de forma a que os trabalhadores não percam poder de compra.

No entanto, Mariana Mortágua afirma que este apoio ao emprego e ao salário tem uma contrapartida, que é o apoio às empresas. Sobre este cenário, a deputada do Bloco alerta que as pequenas e médias empresas não podem ficar nas mãos da banca e dos seus critérios.

Mortágua realça ainda que há um conjunto de outras medidas moratórias que têm de ser garantidas, como a moratória dos pagamentos à banca, a moratória de serviços e a moratória às rendas. Sendo que para esta última a deputada defende que é preciso que exista um mecanismo que proteja os proprietários e os inquilinos.

No fundo, o que temos de tentar fazer é que a economia se suspenda durante este período, mas sem provocar disrupções que mais tarde teremos de pagar com a crise", afirma Mortágua.
 

/ HCL