Numa zona reservada do Museu do 11 de Setembro, em Nova Iorque, e no edifício do médico legista da cidade, há 22.000 fragmentos humanos, do tamanho de uma aspirina, a aguardar análises de ADN, para identificação.

Das 2.753 pessoas falecidas nas Torres Gémeas, nos atentados terroristas de 2001, mais de 1.100 ainda não foram identificadas e aqueles fragmentos são a chave. Foram recolhidos no local, junto com o entulho e separados num processo longo e penoso.

Levado para uma zona de armazenagem em Long Island, o entulho era separado, às vezes à mão, na procura de restos mortais. O processo demorou anos. Alguns fragmentos só foram detectados em 2006.

As análises de ADN são ainda mais lentas. A degradação dos fragmentos faz com que, apesar das novas e sofisticadas técnicas de análise, só tenha sido possível identificar duas pessoas nos últimos dois anos.

Para as 1.100 famílias à espera, a dor é constante. Vivem a mágoa de não se terem despedido dos seus entes queridos, nem do dia dos atentados, nem no simbolismo da cerimónia fúnebre. Pais e mães, filhos e filhas, irmãos e irmãs, primos, tias, noivos e namorados, simplesmente desapareceram sem deixar rasto.

No seu lugar, há um vazio. Uma dor que continua a doer. A natureza violenta e macabra do terrorismo torna ainda mais difícil aquelas pessoas processarem e fingir que esqueceram, pelos menos às vezes, a morte dos seus familiares. Todos os anos, naquela data, e mais ainda nesta data redonda dos 20 anos, renascem o interesse público, as notícias, as homenagens. E eles à espera de uma certeza.

A dor que continua a doer, dói mesmo aqueles que puderam fazer um funeral. Na reportagem desta sexta-feira na TVI, Virgínia Ferreira, uma enfermeira doutorada, é um livro aberto de sofrimento pelo noivo, David, que, ao morrer, levou com ele os sonhos de ambos, de um futuro inteiro, cheio de promessa. O luto de Virgínia é pela morte dele e pela vida em comum que não viveram.

A viúva de António Rodrigues, um polícia morto nos atentados, passou anos sem conseguir entrar em Nova Iorque, ainda que, se tivesse de passar para o outro lado da cidade, fosse obrigada a um desvio de dezenas de quilómetros.

Sobreviventes daquele dia, como Jack Silva, revivem, volvidas duas décadas, o dia assombrado em que julgava ter chegado a sua hora. Naqueles instantes, contou à TVI, assaltava-o o receio de que nunca mais veria o filho.

Os filhos pequenos, ou por nascer, de muitas vítimas contaram ao Wall Street Journal os traumas das noites de pesadelos, dos pais que muitos não chegaram a conhecer e do fardo de serem vistos, constantemente, como vítimas de um desastre histórico.

O lado político do desastre histórico domina os aniversários do 11 de Setembro. A conversa é dominada pela análise das medidas anti-terroristas, ou dos fracassos dos serviços de inteligência que deviam ter detectado os 19 terroristas islâmicos. E, é claro, esta questão tem mérito, sobretudo quando se sabe que a CIA ocultou ao FBI informação que poderia ter conduzido à intercepção dos terroristas.

É inteiramente justificado debater as guerras, que resultaram dos atentados, no Iraque e no Afeganistão – se valeram a pena pelos milhares de vivas perdidas e pelos biliões gastos. Se o preço de não ter havido outro atentado como o de 11 de Setembro justifica a limitação das liberdades fundamentais que um estado americano mais policial permitiu.

Mas é impossível não valorizar, ao ouvir as histórias dos familiares e sobreviventes, a mágoa que ainda sentem. Viveram duas décadas de um pesadelo que nunca os vai deixar.

Quando Osama bin Laden, o terrorista que concebeu os atentados, foi morto por comandos americanos, numa assombrosa operação no Paquistão, em 2011, celebrei, com milhões de americanos, o fim de um tenebroso canalha.

Mas às famílias ainda enlutadas, a vingança de pouco serve. Não há vingança que encha a alma, quando o luto é constante e a dor é infinita.