Manuela Ferreira Leite ficou impressionada com o número de ministros e secretários de Estado do novo governo de António Costa. A comentadora consegue compreender a composição do executivo à luz do pensamento do primeiro-ministro, baseando-se na sua experiência: quando encontra um problema, tenta resolvê-lo por decreto.

A antiga ministra das Finanças e da Educação acredita que António Costa elencou os problemas do país que conseguiu identificar e que quer resolver e arranjou um ministro e vários secretários de estado para cada um deles. E deu exemplos: não consegue ver conteúdo no Ministério do Planeamento, que, acrescenta, pode sobrepor-se ao Ministério da Coesão. Além disso, há várias secretarias de Estado que se sobrepõem umas às outras.

Manuela Ferreira Leite não consegue imaginar que António Costa não saiba, com a experiência de outros governos em que esteve e na Câmara Municipal de Lisboa, que um governo tão grande e com tanta sobreposição entre ministérios e secretarias de Estado não vai funcionar no próximo ano e meia. É gente a mais, defende, e a estrutura do governo vai alterar-se, podendo inclusivamente levar à paralisação da administração central durante vários meses.

A comentadora da TVI admite que António Costa esteja a dar visibilidade a pessoas da sua confiança, ao colocá-las no governo, para lhes dar mais peso dentro do partido, uma estratégia que tem custos para o país.

Ora, com um governo não tão grande, Manuela Ferreira Leite acredita que a nova geringonça está dentro do próprio executivo. Na anterior legislatura era composta pelo governo e o parlamento, com muitos atores políticos a espernear, mas com uma perna a segurar a geringonça: Mário Centeno, ministro das Finanças. Agora, equilibrar o governo será muito mais complexo.

Educação e Saúde foram as duas pastas em que António Costa não mexeu. Para a antiga líder do PSD, ou acha que não há nada para fazer ou então não sabem o que fazer, uma vez que, considera, são os ministérios mais problemáticos.

Sobre os recentes problemas do bebé Rodrigo, que nasceu sem rosto, e os recorrentes encerramentos da urgência do Garcia de Orta, Ferreira Leite considera que o desinvestimento na saúde não se trata apenas de uma questão de falta de dinheiro, mas sim das consequências económicas e sociais bastante sérias que daí advêm.

Uma crítica da antiga ministra das Finanças é à forma como são decididos os concursos públicos, nomeadamente o critério do preço mais barato, considerando que, no que diz respeito à qualidade dos serviços prestados, a proposta vencedora dificilmente será a melhor. Defende, por isso, que o sistema deve ser afinado e levar em conta mais critérios de decisão.

Ainda no que diz respeito ao novo governo, Pedro Siza Vieira pediu aos empresários, durante a reunião da CIP, para não terem medo e não se acanharem a investir no país. Ferreira Leite acredita que o problema de quem tem dinheiro e não investe é a falta de segurança e garantias na hora de investir. Para a comentador, o papel do Estado não é dar palavras de circunstância para os empresários investirem, mas sim tomar medidas que o façam.

Ora, Pedro Siza Vieira, que foi promovido a n.º 2 de António Costa dentro do Governo, não disse nada sobre impostos ou a desburocratização que possam incentivar o investimento. Os empresários, defende, não precisam de ouvir palavras de circunstância e inconsequentes, mas sim medidas de incentivo que Siza Vieira, enquanto responsável pela pasta da Economia, deveria conhecer e, acima de tudo, apresentar.

Quanto à guerra no PSD, Manuel Ferreira Leite defende que quem vai a eleições não se preocupa em anunciar qual a ideologia que defende, antes em apresentar as ideias que defende.

A antiga líder do PSD afirma que Rui Rio e Luís Montenegro tem programas claramente diferentes, ambos já tiveram tempo de mostrar o que valem, mas acredita que esta nova luta interna não vai abrir uma cisão no PSD, até porque é uma divergência que não é suficientemente profunda e porque o PSD ficou a saber, nas últimas eleições, que a Aliança de Pedro Santana Lopes não era nada e ninguém quer arriscar-se a criar outro nada.