Manuela Ferreira Leite considerou, no seu comentário semanal na TVI24, que o Governo está a negociar o Orçamento do Estado (OE) para o próximo ano somente com o Bloco de Esquerda e que essa intenção ficou clara a partir do momento em que não existe nenhuma verba inscrita para o Novo Banco. 

No Orçamento não será inscrita nenhuma verba para o Novo Banco. É um troféu. Em termos políticos soa bem, em termos de opinião pública soa ainda melhor”.

Na ótica da comentadora, só existe uma leitura possível: "que nos vai cair uma despesa em cima superior àquela que seria se ela [a verba] estivesse lá no Orçamento”.

Ferreira Leite alertou que o facto dessa verba não existir tem uma leitura muito positiva em termos políticos, mas do ponto de vista das pessoas é pior porque "alguém vai ter de pagar aquele valor". Foi mais longe e chegou mesmo a afirmar que "toda e qualquer solução" vai penalizar o contribuinte e que isso não está a ser dito com clareza nem por parte do Governo, nem por parte dos partidos políticos, mais concretamente, do Bloco. Uma vez que, em termos de encargos, seria preferível haver uma verba no OE do que agravar a dívida pública.

O dinheiro vai ter que sair” e acrescenta"a verba do Novo Banco é inevitável ser paga, resta saber como entra nas contas”.

Orçamento do Estado "não é um panfleto político"

A ex-ministra das Finanças criticou a instabilidade política criada por António Costa relativamente aos apoios para o OE2021, dizendo que "a incerteza em que todos vivemos, não apenas no país, mas na Europa e no Mundo, não são compatíveis com aspetos que podem traduzir em maior instabilidade do que aquela que já existe”

Admitiu que não é fácil elaborar um documento como este na situação em que nos encontramos, uma vez qualquer estimativa vai ser sempre bastante frágil dada a imprevisibilidade dos tempos de pandemia. 

Entende que uma crise política nesta altura seria “trágico” e que “não haver Orçamento seria o pior dos cenários”.

O Orçamento não é um panfleto político, não é um conjunto de promessas irrealistas, não é uma criação de expectativas”.

Na perspetiva de Manuela Ferreira Leite, o caminho certo deveria ser o do consenso e considera "impossível que não haja um mínimo denominador comum na Assembleia”.

Acho que aquilo que se esperaria era que se conseguisse um mínimo denominador comum entre as diferentes forças políticas que estão na Assembleia. Porque o Orçamento não é um papel qualquer, não é um documento qualquer. O Orçamento é a tradução financeira de uma política que se prevê e que se deseja que vá ser adotada”.

Apelou a um reforço no apoio às empresas, alegando que se isso falhar, falha o sistema bancário, agrava-se a Segurança Social, agrava-se o sistema financeiro, bem como a dívida pública. Aproveitou ainda para deixar uma última crítica ao Governo, por este não desvendar como e onde é que vai buscar a receita para o OE2021.

Covid-19 nos lares

Relativamente ao momento em que o primeiro-ministro e a ministra da Saúde responsabilizaram os proprietários dos lares pelos surtos de covid-19 que têm surgido e pelo número de mortes e infetados registados, Ferreira Leite fez um pequeno reparo.

É uma forma bastante direta de aligeirar responsabilidades. Quando se diz que a culpa não é minha e é de um outro qualquer, é um aligeirar de responsabilidades, quando o problema da saúde pública não tem nem privados nem públicos”.

A comentadora defende que o Estado ou tomou más medidas, ou não tomou medidas suficientes, ou não as fiscalizou. Relembrou que devem existir regras impostas pelo Governo, mas que essas mesmas regras devem ser fiscalizadas.

Reforçou o raciocínio dizendo que a responsabilidade não é dos proprietários, mas sim de quem permitiu que determinadas instituições funcionassem de certa maneira e não de acordo com as medidas implementadas. 

A responsabilidade é de quem permite que haja instituições à solta”.

Cláudia Évora