Manuela Ferreira Leite considerou, esta quarta-feira no seu espaço de comentário semanal na TVI24, que a eutanásia é um tema "muito transversal e complexo" para ser aprovado ou reprovado pelo poder legislativo da Assembleia da República. Ou seja, na ótica da comentadora qualquer decisão sobre a eutanásia, uma vez que esta mexe com os fundamentos de uma sociedade, deveria passar, obrigatoriamente, por um referendo. 

Acho difícil que não passe pela opinião uma coisa que diz respeito à sociedade inteira e que tem muito a ver com a consciência das pessoas".

Não concorda que a o tema da eutanásia se afunile e seja decidido somente no Parlamento, uma vez que os 230 deputados não podem representar os 11 milhões de cidadãos que existem em Portugal. 

O sobressalto cívico de que fala Pedro Passos Coelho e o pedido de referendo tem muito a ver com o facto de ser difícil que um tema desta natureza, que é tão pessoal e que tem tanto a ver com as pessoas e com a sociedade, possa ser resolvido por 180 e tal pessoas [número de deputados do PS e PSD que têm liberdade de voto] que estão na Assembleia. (...) É a consciência de 180 pessoas perante a consciência de vários milhões que tem o país".

Ferreira Leite admitiu não compreender o porquê deste tema, que foi chumbado há cinco meses no Parlamento, ter surgido agora de repente, assim como não compreende a pressa para a sua discussão e votação. Nesse sentido, disse que só existe uma hipótese: António Costa ter utilizado a eutanásia como "moeda de troca" pela abstenção do Bloco de Esquerda no Orçamento do Estado para 2020 e, assim, este ser aprovado.

A minha perceção é que este tema está envolvido na negociação do Orçamento. Só assim se explica esta pressa" e acrescenta "isto tem sido uma bandeira do Bloco de Esquerda e, portanto, tenho a perceção, e vou pedir desculpa ao Doutor António Costa se a minha perceção não corresponder à realidade, mas eu diria que isto só se justifica por algum acordo que fez que tem de ser cumprido. E, portanto, em troca dá-me a tua abstenção do Orçamento que eu dou-te a eutanásia, do estilo IVA das touradas." 

A ser verdade, considerou que colocar o tema da eutanásia como "moeda de troca" para manter a aprovação do Orçamento "é algo absolutamente inaceitável do ponto de vista ético e do ponto de vista da sociedade".

Isto é uma mancha no percurso político de António Costa, porque nem tudo é aceitável, nem tudo é suscetível de ser trocado, nem tudo tem preço". 

Manuela Ferreira Leite chamou ainda a atenção para o facto de o Partido Socialista não ter a questão da eutanásia no programa de Governo, mas, no entanto, ter-se apresentado na Assembleia da República com um projeto de lei. 

Voltando ao tema dos deputados, disse que o Parlamento está convencido que por terem mudado os deputados, as opiniões que lá prevalecem possam, eventualmente, também ter mudado. Confessou que a "incomoda bastante" que um conjunto de pessoas pense que uma questão tão complexa como esta possa ser resolvida, precisamente, por esse grupo de pessoas.

Na perspetiva da social-democrata, o tema prioritário neste momento deveria ser os problemas que existem no Serviço Nacional de Saúde "que necessita de meios e de recursos para poder funcionar"

Tendo nós um Serviço que não funciona e uma data de serviços que são necessários funcionar para conseguir preencher e responder às necessidades que há caso exista a possibilidade da eutanásia" e acrescenta "acho que é um sinismo sem dimensão defender uma coisa para a qual sei que não existe aquela resposta que previamente necessária ter".  

 

Se não há médicos para atender crianças num final de dia, ou durante a noite, nos serviços pediátricos, como é que há meios para ter psicólogos, psiquiatras e mais conferências de várias naturezas para poder responder a este problema?", questionou. 

A manter-se tudo como está, a despenalização da eutanásia deverá ser aprovada na próxima quinta-feira no Parlamento, com os votos de uma grande parte da bancada do PS, do Bloco de Esquerda, do PAN, dos Verdes e da Iniciativa Liberal.

Cláudia Évora