O comentador da TVI Paulo Portas abordou, este domingo, no habitual espaço de comentário “Global” a visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Angola, que considerou “um sucesso popular e também um sucesso político”.

Foi de tal maneira um sucesso popular que, às vezes, nem sequer havia espaço para se perceber a importância política desta visita, que foi muito grande.”

Paulo Portas considerou que a visita serviu para cimentar as relações entre os dois povos e os dois países: “Os portugueses são naturalmente pró-Angola e os angolanos são naturalmente pró-Portugal e esse espírito não é fácil de derrubar. Mas foi expresso de uma maneira particularmente óbvia e isso também prova que o presidente de Angola se sente suficientemente confiante para apostar nesta relação e ver com felicidade esta manifestação de amizade entre os dois povos.”

Os portugueses têm em Marcelo Rebelo de Sousa um presidente que é africanista. Acho que o é por vida e por visão. Faz parte daquela escola de pensamento (eu tendo a concordar com essa escola) que celebra o facto de Portugal, desde que nasceu, ser um país europeu, mas sempre ter precisado de ter relações muito especiais e não transmissíveis a terceiros com continentes como África, como as Américas, em particular a América Latina, e como a Ásia. É isso que nos dá balanço para compensar a nossa exiguidade populacional na Europa. O Presidente é intérprete dessa escola. Gostaria muito que o que aconteceu com Angola possa acontecer com Moçambique.”

Paulo Portas lembrou os progressos registados do ponto de vista económico, no que toca às dívidas das empresas portuguesas desde a visita do primeiro-ministro António Costa a Angola até à visita de João Lourenço a Portugal e, posteriormente, desde a visita de João Lourenço à visita de Marcelo a Luanda.

Aquilo que é preciso garantir é o seguimento. Que as administrações tenham um trabalho muito profissional para que este progresso se mantenha e avance.”

 

“Contrariar ilusões em ano de eleições implica alguma coragem”

 

Outro dos assuntos abordados no comentário deste domingo foi a revisão em baixa do crescimento económico da Zona Euro, por parte do Banco Central Europeu (BCE). Uma revisão que revela um crescimento “muito modesto”.

O Banco Central Europeu veio dizer que a Economia da Zona Euro não vai crescer 1,7%, mas vai crescer 1,1%. Não se trata de uma retificação de uma décima ou duas décimas. É uma retificação de 0,6%, num crescimento que já não era grande coisa.”

Transportando esta revisão em baixa para a Economia portuguesa, Paulo Portas considera que o Governo tem de rever a previsão de crescimento de 2,2%: “Os factos não apontam para a possibilidade de nós crescermos 2,2%, pela simples razão de que os nossos principais clientes – a Espanha, a Alemanha, a França e o Reino Unido - estarem com revisões em baixa.”

Acho que temos de rever este objetivo porque ele se está a tornar ilusório. Contrariar ilusões em ano de eleições implica alguma coragem.”

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Porque é que a Argélia é importante para Portugal?

 

Paulo Portas falou ainda da instabilidade que se vive na Argélia e sublinhou a importância do país para Portugal.

Um terço do gás que é determinante para a Economia portuguesa e para a vida dos portugueses é importado da Argélia. E vem pelo Magreb fora, passa pela fronteira com Marrocos, o que é muito delicado porque Marrocos e a Argélia praticamente não têm relações, vem para a Península Ibérica e entra em Portugal por Campo Maior. Para Portugal, é muito importante que este país seja estável. E este país é também muito importante para a Europa, porque tem um enorme impacto em França.”

O comentador da TVI considerou que o presidente Abdelaziz Bouteflika, cuja recandidatura para um quinto mandato, aos 82 anos, está na base dos protestos de rua que têm assolado o país, não terá já condições para governar.

Às vezes, os regimes perdem o contacto com a realidade. A sociedade argelina é muito jovem, como são em geral as sociedades árabes e do Norte de África. E o regime é gerontocrático. É um regime que é sobretudo exercido por gente que é muito idosa. (…) Ter proposto a uma sociedade muito jovem um presidente que está manifestamente incapaz pelo menos de aparecer ou de discursar (…) é quase fazer pouco das pessoas. Ele já não está capaz de ser presidente da república. “

 

A “ironia amarga” de Trump

 

O comentador falou ainda da situação económica dos Estados Unidos, que viu a diferença entre bens importados e bens exportados (défice comercial) aumentar em 2018, apesar das políticas protecionistas de Trump.

Se falarmos no défice de mercadorias, é o maior desde a crise financeira de 2008. É uma ironia amarga para o presidente dos Estados Unidos. Porque ele é vítima da sua própria política. Todos conhecemos o protecionismo de Trump, as tarifas de Trump, as barreiras alfandegárias de Trump. Em 2018, o défice comercial dos EUA, em vez de baixar, aumentou.”

“O presidente da América tem uma dificuldade especial de perceber a Globalização. E não percebe que, na vida global e na economia digital, não há praticamente produtos que sejam produzidos a 1005 num só país. É preciso importar peças, é preciso importar minerais, é preciso importar matérias-primas para poder chegar a uma peça final. Para a Economia americana crescer, importou muito”, sublinhou.