Talvez muitos de nós tenhamos ouvido esta frase, pela primeira vez, no filme “O Padrinho”, de Francis Ford Coppola, mas ela é atribuída, na realidade, a Lao-Tsé, filósofo e fundador do Taoismo, que viveu na China do século XIII antes de Cristo. “Mantenha os amigos por perto e os inimigos ainda mais perto”. A tradução é livre, mas o sentido — filosófico — encaixa que nem uma luva na estratégia de Marcelo Rebelo de Sousa. Não apenas nesta campanha presidencial, mas nos últimos cinco anos de mandato. 

Marcelo “did it again”. Depois do jantar à luz das velas com Marisa Matias, no sábado, na RTP, o Presidente, que faz por parecer um acaso o facto de ser candidato, vestiu o seu melhor fato e lá se dirigiu à hora marcada para o “encontro” marcado com João Ferreira, na TVI. O mesmo sorriso, os mesmos elogios, a mesma vontade de fugir ao confronto, sabendo, como sabe, que nenhum candidato do centro/direita melhora o seu score eleitoral de 52% sem os votos que podem vir da esquerda. Não foi, seguramente, por falta de temas em que os dois discordassem que Marcelo e João Ferreira não debateram mais. Nem por falta de esforço do candidato comunista, que ainda ensaiou duas ou três investidas sobre o atual presidente. 

João Ferreira tentou “espetar a faca” por vários lados: pela legislação laboral, pela falta de neutralidade no exercício de poder e até pela família política do atual Presidente, acusado pelo candidato comunista de ter sido faccioso nos últimos cinco anos. Marcelo foi-se desviando com subtileza, com souplesse, nunca utilizando a defesa como o melhor ataque, mas procurando sempre pontos de encontro com o candidato do PCP. Os sorrisos amigáveis, os elogios e a cortesia permanente foram tirados a papel químico do debate com Marisa Matias. A defesa, quando absolutamente necessária, foi sempre o mais institucional possível, sem margem para grandes parangonas, que se há candidato habituado a estas andanças é… Marcelo Rebelo de Sousa. 

E há lá coisa mais interessante para um jornalista do que uma notícia? Até isso Marcelo levava “na algibeira”. O Presidente que em tempos já demitiu ministros — mas que agora prefere segurá-los—, lá segurou mais um. O comunicado do primeiro-ministro a reafirmar a confiança na ministra da Justiça, na sequência da polémica em torno do Procurador Europeu José Guerra, ainda não tinha chegado às redações e já Marcelo Rebelo de Sousa o estava a anunciar em direto na TVI. Sobre isso João Ferreira não tinha muito a acrescentar à “trapalhada” que era a versão oficial do partido sobre este caso e… pronto. Foi assim uma espécie de passeio no parque para Marcelo, que sabe, como ninguém, que não é com vinagre que se apanham votos à esquerda. É com mel. E se há candidato com muito mel, é Marcelo.

“Migas”

Quem mudou de canal à espera de ver uma “luta na lama” entre Marisa Matias e Ana Gomes acabou, provavelmente, defraudado. Amigas de longa data, ex-colegas no Parlamento Europeu, Marisa Matias e Ana Gomes podiam muito bem ser uma espécie de dois em um, só que o Bloco de Esquerda não deixou. Essa é, de resto, a única notícia das duas entrevistas que foram feitas às candidatas à Presidência da República. Não culpem a moderadora: elas é que, como candidatas, não conseguiam discordar em quase nada. 

Pelo contrário, concordam em quase tudo, excepto naquilo em que os seus partidos discordam, mas como isto não são eleições legislativas, restas-lhes mais o que têm em comum do que aquilo que as divide. E em comum têm os mesmos dois adversários: Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura. 

Ana Gomes corre para ficar à frente de André Ventura — apesar de não o reconhecer —e Marisa Matias corre para igualar o resultado de há cinco anos, apesar de também não o reconhecer. Valeu o tempo de antena, para que cada uma pudesse dar as suas opiniões sobre quem não estava no debate, numa espécie de “aquecimento” para o que ainda aí vem. 

Vitorino tenta meter “tino” em Ventura 

Se não servir para outra coisa, a candidatura de Vitorino Silva — e a sua presença nos debates — serviu, pelo menos, para explicar a André Ventura que “os ciganos também são pessoas”. Não devia ser preciso explicar isto, em direto, na televisão, a um deputado da Nação, candidato presidencial, mas a verdade é que se Vitorino Silva não viesse lá de Rãs para dizer o óbvio, talvez ninguém o fizesse. E sim, estamos no século XXI. 

Chamemos-lhe o último duelo da noite, só para fingirmos todos que ter quase três dezenas de debates — sim, são quase 30 — é “a democracia a funcionar”, e foquemos no essencial do debate entre Carlos Daniel, (perdão), Vitorino Silva e André Ventura. 

Para além de ter levado umas pedras para o estúdio (quem sabe se não as junta todas e constrói um castelo), o calceteiro de Rãs pouco ou nada tinha para debater. O que não significa que não tivesse muito para dizer. Que concorda com a redução do número de deputados, que é o verdadeiro candidato do povo, que tem muita gente com ele, enfim, o mesmo que disse há cinco anos, mas cinco anos mais velho. Como todos nós. 

Já André Ventura foi… André Ventura. O candidato das generalizações, das frases feitas à medida do eleitorado que lhe der mais jeito, o anti-sistema que, estando dentro do sistema, vai jurar até que a voz lhe doa que o sistema nunca o vai engolir. 

O balanço da terceira noite de debates pode, por isso, resumir-se à frase de Lao-Tsé: mantém os amigos por perto; e os inimigos ainda mais perto. Que é como quem diz: diz-me com quem vou debater e logo te direi como me vou comportar. 

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Anselmo Crespo