Que estas eleições iam ser um “passeio no parque” para Marcelo Rebelo de Sousa, só os mais desatentos não perceberam. Mas que os adversários que surgiriam diante do atual Presidente lhe iriam facilitar tanto a vida, talvez pouco antecipassem.

Na véspera do arranque oficial da campanha eleitoral, Marcelo aniquilou politicamente Ana Gomes. E a maior das ironias está no facto de ter sido André Ventura o “instigador” da derrota de Ana Gomes, no confronto com Marcelo.

Marcelo é “raposa velha”. Sabendo, como sabe, que esta campanha se resume a duas coisas — à percentagem com que conquista a reeleição e à votação que André Ventura terá — “o professor” preparou-se, especialmente bem, para dois debates: com André Ventura e com Ana Gomes. No primeiro desmontou argumentos, teve uma atitude passivo-agressiva, sem nunca perder o controle. E Ventura ficou a debitar os seus clichés, caindo no ridículo. No segundo, limitou-se a mostrar a Ana Gomes que ser comentador é muito diferente de ser político. E candidato.

Marcelo já foi as duas coisas. E usa o “fato” que lhe dá mais jeito, em função da circunstância, sempre e quando lhe apetece. Às vezes é Presidente, outras vezes é comentador, outras não é nem uma coisa nem outra. É só o “amigo”, o “professor”, o “vizinho” simpático com quem gostamos de conversar. Mas que ninguém tenha dúvidas: Marcelo tem o killer instinct necessário e faz — como o seu percurso político já demonstrou — o que for necessário para ganhar.

Ana Gomes está, claramente, em baixo de forma. Tem feito uma pré-campanha pobre, sem rasgo e, pior, sem ideias novas. Vai cumprindo o papel de comentadora da espuma dos dias, sem nada para acrescentar ao debate político. Um dos fatores determinantes numa campanha eleitoral é a capacidade de marcar a agenda. O incumbente (Marcelo Rebelo de Sousa) devia ser o principal alvo, mas não é isso que tem acontecido. Porque, na realidade, esta campanha resume-se apenas a uma pergunta: quem ficará em segundo lugar? Ana Gomes? Ou André Ventura? A pergunta — a que os eleitores darão resposta — servirá de barómetro ao real peso eleitoral do Chega.

Ana Gomes, que, no debate da TVI com André Ventura, assumiu que o seu principal adversário era Marcelo Rebelo de Sousa, não conseguiu — longe disso — demonstrar isso mesmo no derradeiro debate com o atual Presidente. Marcelo desmontou-lhe cada uma das críticas, desfez-lhe os argumentos e os temas fetiche que lhe alimentavam os comentários semanais. O que só prova que nem todos os comentadores dão, necessariamente, bons candidatos.

Não há mediatraining que salve Mayan

Os candidatos podem ser de esquerda, de direita ou de centro. Podem ser mais aguerridos ou mais ponderados, mas convém que saibam comunicar. Minimamente. Tiago Mayan Gonçalves é, provavelmente, um dos maiores erros de casting da política portuguesa dos últimos anos. Não pelo que pensa ou defende, mas porque não sabe comunicar. E a política são ideias e a capacidade que temos de as comunicar.

O debate entre Mayan Gonçalves e Marisa Matias foi — a par do debate com João Ferreira — um dos debates mais chatos e desinteressantes desta campanha eleitoral. O que é estranho, porque, em tese, teriam todas as condições para serem dois debates ideologicamente muito interessantes. Mas não há milagres. Tiago Mayan não nasceu para isto e, quer num quer noutro, limitou-se a repetir meia dúzia de frases feitas, algumas claramente ensaiadas numa qualquer sessão de mediatraining, em voz alta, antes de entrar para estúdio.

Os debates de Mayan Gonçalves são a demonstração clara de que a democracia é algo que não se pode forçar. Que o politicamente correto serve de muito pouco, quando os políticos — ou os aspirantes — não estão à altura. Não seria preciso nenhum debate para sabermos que um liberal pensa de forma muito diferente de uma pessoa de esquerda. O que os eleitores precisam é de políticos que saibam expressar as suas ideias, que saibam esgrimir os seus argumentos — no fundo, que saibam falar. Comunicar. E Tiago Mayan Gonçalves pode ser genial a pensar, mas, claramente, não nasceu para estar na linha da frente da política. No dia 24 de janeiro, os eleitores dirão se concordam.

O paternalismo com Tino

Vitorino Silva teve mais uma amável conversa na televisão. O candidato que obriga os adversários a ceder ao politicamente correto encontrou-se na RTP com João Ferreira para mais uma simulação de debate político. É indiferente se tem pensamento político, se tem alguma ideia para o cargo a que se está a candidatar… É a democracia a funcionar, dirão alguns.

O candidato comunista tratou o Tino de Rans com o mesmo paternalismo com que todos os outros o trataram. Não se discutiram diferenças políticas, não houve ataques, nem réplicas, e muito menos estratégias para convencer o eleitorado. Foi só uma espécie de tempo de antena, durante o qual o moderador procurou cumprir o seu papel de jornalista, não conseguindo evitar que estes debates “entre todos” não sejam apenas uma simulação de democracia, promovidos por quem não quer ficar mal na fotografia e foge da crítica como o diabo da cruz.

Talvez esta seja uma das maravilhas da democracia: cabe lá tudo o que quisermos.

Anselmo Crespo