A investigação da operação Marquês tinha tudo para correr bem. Abundante informação de fluxos financeiros, entre Portugal e a Suíça, uma fortuna colossal nas mãos de um consultor da construção civil, e um ex-primeiro-ministro que a esbanja sem cerimónia. Como se não houvesse amanhã. Não pede dinheiro, exige-o, de forma compulsiva, e sempre sob a forma de notas. A palavra dinheiro é proibida ao telefone. E vive “de favor” numa casa de três milhões onde dá ordens sobre a cor do chão. As escutas são ouro, melhores a cada dia. Com isto servido de bandeja, o que é que um polícia podia querer mais para começar? Nada. Se a ouvir as escutas estivessem polícias. Não estavam. E esse é o primeiro erro do procurador Rosário Teixeira, one man show, quando a seguir quer ir à origem do dinheiro e aos atos de corrupção que o justificam. 

O Ministério Público não é uma empresa de investigação privada, em que cada magistrado contrata os serviços que lhe apetece. A ação penal está ao serviço do Estado, e o Estado, que somos nós, tem um corpo superior de polícia, com formação própria, especializado no combate à criminalidade económico-financeira. Chama-se Polícia Judiciária. Mas o dr. Rosário insiste em ir atrás de corrupção, até quando quer fazer o maior processo da História, com fiscais das Finanças. 

Esta acusação tem méritos inegáveis e indícios gritantes, já aqui referidos. As escutas não enganam, e aquele dinheiro, sempre de mão em mão, dentro de envelopes, é como se falasse connosco. Uma prova cristalina que nem o juiz Ivo Rosa rebateu. O Tribunal da Relação até pode inverter toda a decisão instrutória e, por absurdo, enviar tudo para julgamento como se o dr. Rosa nunca tivesse existido. Mas há também ali erros básicos, como ir buscar escutas a outros processos sem pedir ao juiz, que eram dispensáveis. Nem falo de prescrições, com prazos pouco consensuais na comunidade jurídica. Mas não vejo Ivo Rosa com culpa de não haver nada, mas nada, que me mostre que Sócrates tenha sido subornado pelo grupo de Vale do Lobo só porque na administração da Caixa Geral de Depósitos, para lhes conceder um crédito-calote, estava Armando Vara. É possível que sim, mas, só o facto de eu não conseguir dizer mais do que isso, já diz tudo sobre o que está ali de prova. Zero. 

Não consigo eu e não consegue ninguém: os 10 milhões de juristas e 200 mil peticionários, que querem a cabeça do dr. Ivo, digam-me onde está a prova, que levasse a uma condenação em tribunal, de Sócrates ter sido corrompido no negócio de Vale do Lobo. E esse foi o segundo erro de Rosário Teixeira, intimamente ligado ao primeiro: que não se tivesse apoiado numa polícia a sério que o ajudasse a trilhar o caminho certo. 

Encolhia o megaprocesso, que talvez não se arrastasse até 2050, cortando na palha que lhe intoxica tudo o resto que ali tem de forte, seguro e bem consolidado. Porque essa palha teve um efeito perverso. Mais não fez do que, involuntariamente, prestar um grande favor à narrativa do engenheiro Sócrates, na estratégia de vitimização que montou em cima dos tais atos concretos de corrupção. Quem viu a entrevista de Sócrates à TVI percebeu os temas em que ele se sente como peixe na água – e onde é que lhe tremem as pernas: quando se fala do dinheiro vivo, das “fotocópias” e do cofre da mãe. Ponto. 

Não tenho nada contra a Autoridade Tributária, exceção feita ao saque fiscal a que estamos sujeitos neste país, mas impostos são impostos. E corrupção é corrupção.