«4x4x3» é um espaço de análise técnico-tática do jornalista Nuno Travassos. Siga-o no Twitter.

Enquanto muitos portugueses esgotam a paciência por causa do cartão de cidadão, um certo francês tratou da renovação sem perder tempo em filas. A papelada até foi preenchida anteriormente, mas a exibição no Jamor confirmou (uma vez mais) que a classe de Mathieu ainda não caducou.

Alguns até esperariam vê-lo no balcão das reformas, por estes dias, mas Jérémy vai continuar no Sporting, e essa é uma boa notícia para a Liga, que tem no internacional gaulês um dos seus embaixadores no ativo.

O central está a caminho dos 36 anos (outubro), e por isso é natural que a condição física justifique uma gestão prudente, mas neste caso até se pode dizer que a quantidade confirma a qualidade: Mathieu participou em 81 dos 114 encontros disputados pelo Sporting nestes dois anos (71 por cento).

Se há setor onde o Sporting está em linha com os rivais é no eixo defensivo, onde a garra e imponência de Seba Coates combinam a preceito com a serenidade e subtileza de Mathieu. O francês dispensa berros ou quezílias, e não é qualquer um que se impõe pela via da elegância.

E a classe do francês não se aplica apenas nas tarefas defensivas, mas também na verticalidade que dá à construção de jogo, afigura-se imprescindível para que Marcel Keizer consiga o «upgrade». Agora que terá a oportunidade de treinar a equipa desde o início da época, é expectável que o técnico holandês procure construir as bases de um Sporting mais dominador e autoritário. Algo que tentou logo de início, mas que decidiu sacrificar, em certa medida, para encontrar um ponto de equilíbrio.

P.S.: a analogia do cartão de cidadão e da caducidade aplica-se também a Maurizio Sarri. Não pode ser uma final a traçar a diferença entre fracasso e sucesso - mesmo tratando-se de uma final europeia -, mas a conquista da Liga Europa pelo Chelsea deu uma (merecida) alegria a um homem que, mesmo de rosto fechado, tem provado que nunca é tarde para concretizar sonhos.

Sarri tinha já quarenta anos quando decidiu deixar a vida de bancário para dedicar-se exclusivamente ao futebol. Só aos 55 anos é que chegou à Serie A, e aos 60 conquista o seu primeiro grande título.

Dizer que esta conquista tardou é desvalorizar o caminho que Sarri fez até aqui e o tempo que o moldou.

Nuno Travassos