6 de fevereiro de 1992. O Conselho de Ministro anuncia a atribuição das licenças dos canais 3 e 4.
É o arranque da televisão privada e o princípio do fim do monopólio da RTP.

Neste 25 anos  mudou quase tudo. E as televisões  privadas ajudaram nessa  mudança, oferecendo aos portugueses um olhar mais plural e mais crítico.

Num percurso que não foi isento de erros, as televisões privadas conquistaram a preferência dos portugueses, inovaram  e criaram  uma indústria de audiovisual que emprega  milhares de pessoas.

Nestes 25 anos enfrentaram crises,  reestruturaram o  modelo de negócio, modernizaram e redimensionaram  as respetivas  empresas. Tudo sem gastar um tostão dos contribuintes.

E a RTP?

25 anos depois a televisão pública continua à procura de um modelo. Serviço Público de Televisão é o dogma dos que verdadeiramente nada querem mudar. Não querem mudar nem conseguem explicar o que é o Serviço Público de Televisão.

Futebol, sim ou não? Tourada, sim ou não? Novela, sim ou não? Concursos, sim ou não? Cinema estrangeiro, sim ou não? Cinema nacional, sim ou não? Missa, sim ou não? Música popular, sim ou não? Filmes eróticos, sim ou não?

E por aí fora. Está tudo na grelha da  RTP. Como está nas grelhas das estações privadas. Mas a concorrência não é leal.

Ainda hoje os canais privados, para contarem  aos portugueses a vida de Mário Soares, a  revolução de  Abril ou  recordar as primeiras eleições legislativas,  pagam muitas centenas  de euros pelas imagens  que são obrigados a comprar à  RTP.  Imagens captadas antes do nascimento da TVI ou da SIC e que estão num arquivo que já custou muitos  milhões de euros  aos contribuintes. E quando se fala do preço cobrado não se pense que é uma compreensível “taxa moderadora”…

Um ziguezaguear sem fim onde se  acumulam culpados  e onde se misturam muitos interesses. Uma confusão de conceitos que alimenta muita gente.

Nesta viagem sem destino os menos culpados são os  profissionais da RTP. Hoje, como há 25 anos, estão lá alguns dos melhores.

A culpa  não é deles. É  dos sucessivos governos e da maioria das administrações, que se limitaram cumprir o guião.

Por razões mais ou menos claras, todos optaram por manter a RTP numa rota indefinida, que cada um vai adaptando à vontade dos poderes e dos interesses de ocasião.

Se esses interesses passam pela privatização, anuncia-se a privatização. E meses depois o contrário. Não há problema nem é preciso prestar contas.

Se é preciso passar para o TDT dois ou três canais e garantir  à  RTP regras diferentes das que vão ser impostas aos privados,  seja feita a vontade.

Com o  dinheiro dos contribuintes. Para eles as audiências não contam (pasme-se).
De permeio uma ERC, quase sempre “eleita” à medida dos interesses.

Quanto aos profissionais, só uns quantos merece o adjetivo …  Os que permitiram que os desígnios políticos e económicos fossem cumpridos.

É uma minoria que ajoelha e reza.

P.S. Trabalhei na RTP muitos anos e aprendi muito com profissionais de qualidade. Saí há 16 anos, hoje trabalho numa televisão privada mas,  como cidadão, gostava que uma empresa de referência como  a  RTP tivesse encontrado um caminho diferente. Fosse mesmo uma referência.

Tinha sido melhor para a empresa, para os portugueses e para a televisão portuguesa.

António Prata