Mais do que os aviões a embater nas Torres, os rostos de pânico cobertos de cinza ou os momentos em que os edifícios desabaram, há uma imagem que permanece na minha memória quando recordo o 11 de setembro de 2001: um homem que cai, o corpo posicionado verticalmente, alinhado com as janelas de uma das Torres. Cai para o vazio, escolheu morrer assim, sem fuga possível. É, para mim, a imagem mais icónica daquela data, porque sublinha o horror, o desprendimento, a entrega perante uma tragédia inominável.

“O homem em queda” é o título da imagem que inspirou o romance do escritor americano Don DeLillo. A foto foi captada por Richard Drew e transformou-se num símbolo. Para o repórter da Associated Press, aquele foi um instante de silêncio, do qual só se apercebeu quando, ao final do dia, reviu todas as suas imagens captadas em Lower Manhattan, como explicou em entrevista à revista “Time”.

O New York Times foi o primeiro jornal a publicar a foto, logo a 12 de setembro, mas muitos foram os editores que se recusaram a usá-la, por ser demasiado chocante ou sádica. Alguns anos depois, a revista Esquire considerou que se tratava de um ícone, uma obra de arte, e até Elton John se rendeu: “É provavelmente uma das fotos mais perfeitas algumas vez tiradas”.

Até hoje, continua sem se conhecer oficialmente a identidade do homem em queda, mas a última versão aponta para que seja um funcionário do restaurante “Windows on the World”, instalado no 106º e 107º andares da Torre Norte do World Trade Center.

“O homem em queda”, tal como “o soldado caído” (foto de Robert Capa na Guerra Civil espanhola), sublinha o poder da imagem face à expressão de sofrimento num momento de desespero. Aquele instante irrepetível, para sempre imortalizado numa imagem capaz de nos transportar para aquele lugar, mesmo que ali só se veja a composição de um corpo à frente de linhas brancas. Nele vemos a velocidade da queda, o desespero da escolha, a condição de abandono, o fim. E também nós estamos a cair para o abismo. E também nós poderíamos ter escolhido aquele fim se estivéssemos no 100º andar da Torre Norte às 10h da manhã de 11 de setembro de 2001.

Por isso, é impossível esquecer aquele dia, aquela imagem, aqueles aviões e tudo o que aconteceu depois disso. O medo de uma guerra mundial, a reação dos americanos, a invasão do Afeganistão, a invasão do Iraque, a tortura de prisioneiros, Guantánamo, o Estado Islâmico, os ataques terroristas, a vaga de refugiados, a ascensão da extrema-direita e toda a intolerância gerada pelos ódios alimentados entretanto. Podem passar vinte, quarenta, cem anos do 11 de setembro. Todos sabemos que o mundo mudou e é impossível esquecer aquele dia.