P.S. (Para Seguir) é um espaço assinado pelo jornalista Nuno Travassos, que pretende destacar jogadores até aos 21 anos. 

A Sérvia fica quase sempre aquém das expectativas quando se trata da seleção principal, mas continua a ser um dos mercados mais aliciantes para a descoberta de jovens talentos, e a esse nível até tem dado algumas alegrias ao povo, nomeadamente com o título mundial de sub-20 conquistado há cinco anos.

Alguns clubes estão a conquistar reputação precisamente através da aposta na formação, mas Estrela Vermelha e Partizan continuam num patamar superior, tanto pelo legado histórico como pela dimensão das estruturas profissionais.

Tricampeão com o português Tomané, o Estrela Vermelha está mais pujante nesta fase, e na caminhada para o 31.º título lançou Zeljko Gavric. O jovem extremo estava há um ano e meio a jogar na equipa satélite, o Graficar, mas no início de 2020 foi recrutado pelo técnico do Estrela, o histórico Dejan Stankovic.

Gavric ainda realizou onze jogos, oito deles como titular, e apontou um golo, frente ao Napredak, no último jogo antes da paragem forçada pela pandemia de covid-19. Um tento dedicado ao avô, falecido pouco tempo antes, e que tinha o sonho de ver o neto chegar à equipa principal do «seu» Estrela Vermelha.

O título foi festejado no jogo seguinte, a goleada ao Rad (5-0), disputado mais de dois meses depois, e sem o calor dos adeptos nas bancadas.

No clube desde 2014, e com contrato válido até 2023, Zeljko Gavric é um dos principais talentos do futebol sérvio, e está mesmo nomeado para «Golden Boy» deste ano. Ainda assim tem menos projeção mediática do que outros valores que apareceram nos últimos anos, mas isso até será benéfico para o processo evolutivo.

Zeljko Gavric ainda não está pronto para patamares mais exigentes, mas tem um potencial evidente, que pode e deve rentabilizar com o enquadramento certo. Em entrevista ao jornal «Novosti» revelou admiração pelo compatriota Dusan Tadic (Ajax), mas também por um nome menos comum nestas escolhas, o inglês Wilfried Zaha (Crystal Palace).

Utilizado preferencialmente a partir do flanco esquerdo, Gavric é extremamente forte no um-para-um, mas não sustenta isso numa capacidade de explosão inconsciente. Encara o adversário de forma aparentemente descontraída, ou até despreocupada, mas depois, com a bola colada aos pés, tira proveito de uma gama apurada de recursos técnicos para contornar o obstáculo.

Está sempre à procura de movimentos em diagonal para a área, sobretudo com bola, e tem perfil para revelar-se um jogador extremamente influente na área, capaz de revelar-se tão goleador quanto criador.

A inteligência aliada à qualidade técnica também pede que assuma protagonismo no corredor central, a tirar proveito da capacidade para decidir em espaços reduzidos.

Pode também evoluir no capítulo defensivo, mas isso é a primeira característica que o próprio assume, e que está relacionada com a menor exigência nas camadas jovens.

Zeljko Gavric ainda não é propriamente um produto para exportação, mas revela potencial para tornar-se um nome importante do futebol sérvio, e também a mentalidade certa para o conseguir (o que não é menos importante).

Nuno Travassos