P.S. (Para Seguir) é um espaço assinado pelo jornalista Nuno Travassos, que pretende destacar jogadores até aos 21 anos. 

Bogarde. Um apelido familiar para muitos adeptos de futebol nascidos no século passado, aqueles que recordam Winston Bogarde, antigo internacional holandês, campeão europeu pelo Ajax em 1995, e que depois ainda representou Milan, Barcelona e Chelsea.

Winston está agora mais na «sombra», como adjunto de Mitchell van der Gaag (ex-Marítimo e Belenenses) na equipa B do Ajax, mas o apelido Bogarde pode muito bem começar a entrar nos ouvidos dos adeptos mais jovens.

É que o sobrinho, Melayro, é uma promessa do futebol holandês. Nasceu a 28 de maio de 2002, poucos meses antes do último jogo da carreira do tio (novembro), com a camisola do Chelsea.

Natural de Roterdão, Melayro esteve dez anos na academia do Feyenoord. O irmão Lamare, nascido em 2004, ainda lá está, de resto. Mas Melayro decidiu sair em 2018, depois de completar os 16 anos, e assinou pelo Hoffenheim.

Na época passada ajudou a equipa alemã a chegar às meias-finais da Youth League, onde foi eliminada pelo FC Porto (3-0 em Nyon, com golos de Romário Baró, Fábio Silva e Tiago Matos).

Melayro teve pouco tempo para ficar desiludido, no entanto, já que um mês depois sagrou-se campeão europeu com a Holanda, e ainda conquistou um lugar na equipa ideal do torneio.

Em novembro, no Mundial, a seleção «laranja» ficou pelas meias-finais, e o protagonismo de Bogarde foi menor. Expulso no segundo encontro, ainda na fase de grupos, só voltou à titularidade no jogo de acesso à final, perdido nos penáltis para o México.

Ainda assim tem confirmado, nos últimos tempos, que é um jogador de enorme potencial. Aguarda ainda a estrela na equipa principal do Hoffenheim, mas tem trabalhado frequentemente com o plantel orientado pelo compatriota Alfred Schreuder.

Embora seja defesa, tal como o tio, Melaryo já arriscou dizer que é mais ofensivo do que Winston, que até jogava muitas vezes como lateral (esquerdo). Uma análise nada imparcial, mas plenamente adequada, tendo em conta a influência que o jovem central assume na fase de construção.

Esse é, de resto, o principal atributo de Melaryo. A serenidade que mostra com a bola nos pés e a capacidade para descobrir passes verticais que fazem a equipa avançar no terreno. O passe lateralizado é sempre a solução de recurso, e nunca o primeiro pensamento.

A descontração em campo faz lembrar Virgil van Dijk, a sua principal referência, mas as semelhanças passam também a uma falsa lentidão que ilude aqueles que tentam explorar a profundidade na sua zona.

Melaryo mostra também competência nesse aspeto, mas o próprio assume que precisa melhorar sobretudo a nível defensivo. Acertar o posicionamento e evoluir nos duelos individuais. Nesse sentido, a realidade alemã pode ser útil para melhorar esses aspetos sem perder aquilo que já o distingue, tão valorizado por lá.

Nuno Travassos