Não foi perfeito, o adversário até pode ter sido dócil, mas Portugal passou com distinção no último ensaio antes de arrancar a defesa do título europeu conquistado em 2016.

As últimas afinações mostraram sobretudo que as peças João Cancelo e Bruno Fernandes estão «no ponto», mas também a equipa das quinas tem muitas soluções (e condições) para fazer uma longa volta à Europa durante o próximo mês.

Depois do empate com Espanha num jogo sofrido para Portugal, a equipa de Fernando Santos libertou-se, deu asas à criatividade e voou com segurança até à goleada.

Ao centro, Bruno Fernandes explorava terra de ninguém: espaço entre linhas e olhos nos homens da frente. Foi ele, que esteve ausente contra Espanha, o elemento mais lúcido (e não houve pouca!) da equipa das quinas com a bola nos pés.

Portugal girou à volta de Bruno Fernandes: marcou dois golos, «cheirou-o» mais vezes, deu a marcar e mostrou que com ele, mesmo contra seleções bem mais poderosas do que este modesto Israel, Portugal pode ser muito mais equipa do que foi na passada sexta-feira em Madrid.

À direita, a boa comunhão de ideias entre Bernardo Silva e João Cancelo. O segundo com via-rápida até à linha de fundo: velocidade, dribles e cruzamentos perfeitos

No meio, William e Rúben Neves formaram uma parceria coesa. Pouco trabalho defensivo, espaço para jogar e verticalidade no passe.

Mais do que para ver quem está melhor ou pior, o jogo de Alvalade serviu sobretudo para a aquisição de automatismos com bola. Se Espanha pôs à prova a coesão defensiva e a capacidade de sofrimento lusa, Israel foi o adversário ideal para ver o que se é capaz de fazer quando se passa 2/3 de um jogo no meio-campo ofensivo e a tentar desmontar uma linha defensiva de cinco e um bloco tendencialmente baixo mas recheado de debilidades e buracos por explorar.

Curiosamente, Portugal fê-lo com mais competência num período em que não viu a ampla superioridade materializada em golos. Ronaldo, Jota (duas vezes) e Bruno Fernandes ameaçaram o golo nos 20 minutos iniciais.

Só bem mais tarde, já a fechar a primeira parte, Bruno Fernandes e Cristiano Ronaldo fizeram o 1 e o 2-0, com o último a chegar ao 104.º golo pela Seleção.

Lá atrás, Pepe e Rúben Dias tiveram uma noite tranquila até a dupla ser desfeita por novo teste de Danilo no eixo defensivo após a hora de jogo. Um cruzamento para um precioso corte de cabeça do central do City e um remate perigoso de Zahavi quase a fechar foi quase tudo o que os israelitas produziram ofensivamente ao longo de hora e meia em Alvalade.

Na segunda parte, depois de uma boa reentrada, o jogo foi perdendo ritmo à medida que Fernando Santos mexia na equipa.

André Silva foi o primeiro a ir a jogo e a ele seguiram-se Danilo e Moutinho, e mais tarde Guedes, Renato Sanches e Pedro Gonçalves.

Durante longos minutos, o jogo esteve distante da baliza israelita. Mas, tirando um ou outro momento, também não andou perto das redes de Rui Silva, que cumpriu esta quarta-feira a estreia pela Seleção Nacional e negou um golo feito a Zahavi, o melhor dos visitantes.

Nos minutos finais, Portugal acelerou para a goleada através dos melhores da noite: João Cancelo assinou o 3-0 num remate de pé esquerdo após mais um excelente desequilíbrio individual e Bruno Fernandes fechou a contagem com um remate forte em zona frontal.

Diante de um adversário macio, Portugal venceu, teve momentos convincentes e mostrou que mais do que prometer jogar olhos nos olhos com alguns dos favoritos à conquista do Euro – como Fernando Santos o havia feito na véspera do jogo de Espanha – há condições (mesmo) para fazê-lo.

Venham eles!

David Marques