O armazém da Decopharma, no Montijo, é enorme mas Fábio nunca se perde por entre corredores cheios de medicamentos com nomes esquisitos. O seu trabalho consiste em reunir todos os produtos de cada encomenda e colocá-los numa embalagem, pronta para a expedição. “Não é muito complicado mas tenho que estar com muita atenção para não me enganar”, explica. É um trabalho solitário e silencioso. Mas isso é algo que lhe agrada.

Fábio Fernandes era um jovem introvertido e com grandes dificuldades de relacionamento. Terminado o 12º ano, com um curso de informática e gestão, não conseguia arranjar trabalho. E estava cada vez mais isolado. Ao Fábio nunca lhe foi diagnosticada qualquer doença do foro mental e, precisamente por não ter um certificado de incapacidade, era difícil explicar a sua enorme timidez. A família entrou então em contacto com as técnicas do programa Incorpora, através da Escola Profissional do Montijo, pedindo ajuda na integração profissional de Fábio. 

“O Incorpora é um programa de inserção laboral com uma metodologia muito interessante e inovadora”, explica Cláudia Prates, técnica de acompanhamento do Incorpora no Montijo. “Temos uma conversa mais informal e trabalhamos de forma muito personalizada, isso permite-nos conhecer muito bem as pessoas.  Isso, só por si, já faz a diferença. Procuramos as competências que a pessoa tem. Independentemente da experiência profissional que a pessoa tenha tido numa outra área completamente distinta, este trabalho individualizado e muito empático com os beneficiários faz com que os possamos encaminhar para uma empresa pois, mesmo que não tenham experiência nessa área, nós sabemos que têm as competências para desempenhar o trabalho.”

As técnicas do programa Incorpora acreditam que é possível encontrar um emprego para todas as pessoas, só que por vezes isso dá algum trabalho e exige que se olhe para cada indivíduo como um todo e não apenas fazendo a habitual entrevista de emprego. O caso do Fábio é exemplar desse processo. 

Na altura, recorda a técnica de prospeção Cristina Cabrita, surgiu uma vaga como Técnico de Informática na Decopharma e o Fábio foi encaminhado para esse emprego, “porque tinha as aptidões e tinha gosto por essa área”. Na primeira entrevista, com o responsável pelos recursos humanos da empresa, houve algumas dúvidas quanto à sua contratação. Por isso, a segunda entrevista foi feita pela CEO da Decopharma Portugal - Serviços Logísticos, Lda., Rosa Magalhães. No decorrer do processo, Fábio mostrou ser cumpridor de prazos, pontual, e com imensa responsabilidade no envio de documentos necessários. Foram essas as características que a levaram a considerar a contratação do Fábio mas para outra vaga, de operador de armazém.

“Fiquei logo com a certeza que o Fábio estava ok para a função”, conta Rosa Magalhães. A empresária percebeu que o jovem tinha algumas dificuldades - nomeadamente em comunicar e em mostrar o seu melhor numa entrevista de emprego - mas que, apesar disso, tinha competências que poderiam ser úteis ali. “Precisávamos de uma pessoa que tivesse algumas skills informáticas, que fosse assíduo e pontual. Porque depois a formação concreta nos processos do armazém somos nós que a ministramos. O Fábio trazia essas ferramentas, trazia um curso de informática, e não tive dúvidas que era uma pessoa que estava muito necessitada de um trabalho e portanto tivemos logo a certeza que ele ia ser uma pessoa dedicada. E foi o que se verificou efetivamente.”

“A oferta que nós tínhamos era dentro da área do Fábio mas efetivamente ele ficou colocado a desempenhar funções completamente diferentes, adaptadas às suas competências”, conta Cláudia Prates. “A empresa podia não ter ficado com ele mas percebeu que ele tinha competências para desempenhar outras funções e que dar-lhe esta primeira oportunidade era muito importante para ele depois fazer o seu caminho.”

Como funciona o Incorpora?

O Programa Incorpora da Fundação “la Caixa” tem como objetivo fomentar o emprego entre pessoas em situação de vulnerabilidade. Lançado em Portugal em colaboração com o BPI em 2018, o Incorpora já apoiou a criação de 1333 postos de trabalho em 508 empresas em todo o país. 

Ao programa podem candidatar-se entidades sociais, que recebem apoio financeiro e formação profissional com o objetivo de constituir equipas para trabalharem no terreno. Estas equipas são formadas por técnicos de prospeção, que devem identificar as ofertas de trabalho na sua região e promover, junto de empresas, a contratação de pessoas em risco de exclusão social, e técnicos de acompanhamento, que devem trabalhar na melhoria da empregabilidade da sua população-alvo, assim como acompanhar os beneficiários durante todo o processo de candidatura e integração no posto de trabalho. A Fundação la Caixa conta neste momento com uma rede de 58 entidades sociais em Portugal

O programa destina-se a pessoas vulneráveis, em risco de ou situação de exclusão. Este critério abrange, por exemplo, jovens NEET (não estudam nem trabalham), desempregados de longa duração, com mais de 45 anos, ex-reclusos, ex-toxicodependentes, vítimas de violência doméstica e pessoas com deficiência ou incapacidade. Do total de pessoas que conseguiram a inserção laboral com o apoio do programa Incorpora, 105 são pessoas com incapacidade.

Segundo a técnica Cristina Cabrita os beneficiários do Incorpora são de uma maneira geral, “pessoas que estão desempregadas há muito tempo” ou então pessoas que “durante muito tempo desempenharam sempre a mesma função” e que agora se encontram no desemprego e não sabem como mudar. “Uma das características da metodologia Incorpora é que permite não só dar atenção à experiência que cada pessoa tem mas também trabalhar todas as suas outras competências. E assim conseguimos trabalhar ainda melhor a empregabilidade das pessoas.”

“No início do projeto nós tínhamos uma postura um bocadinho diferente”, explica Cristina Cabrita. “Contactávamos as empresas para saber quais as suas necessidades e, depois, dentro daquele leque de ofertas e dentro dos beneficiários que tínhamos, tentávamos fazer o match. Agora, estamos a trabalhar de forma um pouco diferente e o sucesso é muito maior, efetivamente. Centramos o nosso trabalho no beneficiário e vamos procurar um emprego com ele. Vamos ter com as empresas e propomos os trabalhadores.” 

As empresas estão muito abertas a estas propostas, garantem as técnicas. Existe cada vez mais uma consciência da responsabilidade social empresarial e as empresas mostram-se disponíveis até para fazerem algumas adaptações para acolherem estas propostas. “Os empresários fazem um esforço para que estes sejam efetivamente casos de sucesso”, explica a técnica de prospecção. Foi o que aconteceu no caso de Fábio Gonçalves.  

Com o Incorpora “ganham todos”

“A integração do Fábio foi muito fácil porque ele é uma pessoa muito dedicada, é extraordinariamente pontual, é 100% fiável. O que nós combinarmos com o Fábio, ele faz. A nossa atividade é muito regrada, toda assente em processos e procedimentos, e a partir do momento em que o Fábio tem treino em determinado procedimento ou processo, ele vai executá-lo sempre da mesma forma”, conta Rosa Magalhães. “E integrou-se bem na equipa, tem sido uma boa experiência.”

Para a responsável pela Decopharma poder contar com o Incorpora é uma mais valia: “Quando abrimos um processo de recrutamento a primeira entidade que contactamos é a Escola profissional do Montijo, que tem a parceria com o programa Incorpora. Dizemos-lhes qual é o perfil do candidato que precisamos. A escola faz a seleção e quando nos envia as pessoas já vêm pré-selecionadas, já são as pessoas adequadas para aquilo que vêm fazer.” Além disso, ao mesmo tempo que se resolve o problema da empresa, resolve-se também “efetivamente o problema de uma pessoa que tem alguma dificuldade em arranjar emprego. Ganham todos, a empresa, a sociedade e, o mais importante, ganha a pessoa que fica integrada no mercado de trabalho e dona do seu futuro”.

No armazém, Fábio não só prepara as encomendas como também também tem formação na receção da mercadoria. “Ele dá a entrada na mercadoria e arruma-a nas devidas localizações - com exceção das substâncias controladas que têm um acesso mesmo muito restrito”, explica Rosa Magalhães.

Apesar de ser de poucas palavras, Fábio faz questão de dizer que está satisfeito. “Ao princípio tive algumas dificuldades, tive que aprender muita coisa, mas com o tempo habituei-me. Estou super contente de trabalhar na Decopharma”, diz, embora ainda alimente o sonho de criança de um dia ser treinador de futebol. “Nunca se sabe”, diz, com um sorriso na cara.

As técnicas do Incorpora também não conseguem evitar um sorriso. Quem o viu e quem o vê. “Nós temos um Fábio que nos chega de cabeça baixa, sem olhar para nós, e passados seis meses  temos um Fábio que olha para nós,  ri, goza e ainda nos diz: temos de fazer umas saidinhas. É outro Fábio.”

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