Mais do que os olhos, é a pele o espelho da nossa alma. Assim o asseguram a dermatologista Ana Pedrosa e a psicóloga e sexóloga Ana Alexandra Carvalheira, explicando como o maior órgão do nosso corpo reflete tudo o que vivemos, com um especial foco na saúde emocional.

“Há um eixo cérebro-pele muito bem definido, já baseado na evidência científica”, esclarece Ana Pedrosa. E acrescenta: “Até existe uma área da dermatologia denominada ‘psicodermatologia’, que visa, realmente, estudar os efeitos que o stress, ansiedade e todas estas patologias do foro da saúde mental podem ter, de facto, na saúde da pele”.

E é justamente esta a abordagem da primeira talk do projeto “Falar Saúde”, organizada pela TVI24 e a Vichy, sobre o tema “O stress e a pele”. Com moderação de Sara Sousa Pinto, as duas profissionais de saúde convidadas falam da sinergia que existe entre o físico e o mental, e como os cuidados de um não devem excluir os cuidados do outro.

Uma pele bonita é, pois, o resultado de diversas condições determinantes, como o estilo de vida e os cuidados dermatológicos e de saúde que temos. Como tal, é importante o uso de protetor solar, a preservação de uma alimentação variada, a prevenção de hábitos prejudiciais como o tabagismo e a adoção de hábitos de limpeza corretos. No entanto, embora os cuidados externos não devam ser descurados, podem não ser suficientes, já que a saúde mental tem um peso fundamental na nossa pele.

Saúde mental e física: um círculo vicioso

A derme costuma ser uma das zonas mais afetadas pela chamada psicossomatização, como explica Ana Alexandra Carvalheira, isto é, a aparição de sintomas físicos desencadeados por questões emocionais. Isto significa que a pele reflete a nossa saúde mental, as nossas emoções, as nossas angústias e os nossos medos.

“Não podemos separar o nosso corpo físico do nosso corpo emocional, isso seria muito redutor. Os sistemas estão constantemente articulados”, afirma a psicóloga e sexóloga. Relembra, aliás, que todos os nossos fenómenos mentais acontecem na célula, no corpo, uma vez que as emoções são reações químicas.

Neste caso, é necessário mencionar uma hormona importante: o cortisol. Conhecida como hormona do stress, altura em que é liberta em maior quantidade, atrasa a cicatrização e diminui a capacidade de resposta do sistema imune.

Ou seja, sentir algumas emoções mais complicadas, como medo, ansiedade ou angústia, sem as saber gerir de forma saudável pode tornar-nos mais suscetíveis a qualquer patologia “oportunista”, sendo alguns dos exemplos mais comuns o acne, a psoríase e o vírus do herpes.

E aqui surge um círculo vicioso. Por vezes, somos nós que desencadeamos estas respostas físicas sem intenção. O facto de sabermos que pode surgir algum sintoma em situações de stress deixa-nos ainda mais preocupados e leva a que, efetivamente, isso acabe por acontecer. De seguida, ao psicossomatizar alguns sintomas, ficamos ainda mais nervosos e, claro, estes demoram mais a serem resolvidos.

A autoestima como variável determinante na nossa vida

Além do stress adicional pelo receio ou incómodo de ter uma patologia física, pode existir muita frustração quando esta afeta a nossa autoimagem. E, de novo, torna-se mais difícil resolvê-la exatamente porque a nossa autoestima foi afetada e sentimo-nos mais fragilizados.

“Muitas vezes as dermatoses têm um impacto na autoestima da pessoa, na sua autoimagem. E a autoimagem e a autoestima estão ligadas à autoconfiança, o que tem um impacto na nossa vida toda”, explica Ana Alexandra Carvalheira. Como exemplo, fala dos efeitos que pode ter na vida sexual das mulheres, embora seja geralmente visto como algo fútil, pois falamos apenas de pele ou do aspeto físico.

“Uma mulher que não tem uma boa autoimagem, uma relação positiva com o seu corpo, tem o seu desejo sexual afetado. Desliga-se dele, há como que uma desconexão, um corte, em que a mulher não desce ao corpo, não interpreta, não dá significado às sensações físicas. Fica muito aqui [na cabeça], em processos mentais de analisar, de comparar, de avaliar, de questionar, crenças de insuficiência – não sou bonita o suficiente, interessante o suficiente.”

Um dos níveis está relacionado com a possível distração durante a relação sexual. A mulher está preocupada com o modo como o parceiro ou a parceira a está a ver, acabando por se descentrar dos estímulos eróticos e perturbando o prazer sexual. “Aquilo que a ciência nos mostra, que os estudos mostram [...] é que uma má autoimagem é um fator determinante de um baixo desejo sexual.”

E em época de pandemia?

Da mesma forma que não devemos descurar os cuidados físicos nem a saúde mental para ter uma pele saudável, também não podemos ignorar os fatores ambientais que nos afetam interior e exteriormente, como é o caso da pandemia.

A pandemia tem sido difícil de gerir emocionalmente para muitas pessoas, devido à situação de insegurança, incerteza e medo. O medo é a doença dos nossos tempos, reconhece Ana Alexandra Carvalheira, e confirma que as situações de depressão e ansiedade, bem como os comportamentos compulsivo-obsessivos, agravaram-se nesta época.

Também a dermatologista Ana Pedrosa lembra como a pele foi afetada diretamente pelo uso do álcool e da máscara. Algumas doenças progrediram e inclusive identificou-se uma nova condição: mascne. Isto é, acne causado pela máscara.

A juntar a isto, temos também a questão das videochamadas e da autoestima. Estarmos em frente a um ecrã obrigou-nos a lidar com a nossa imagem e a perceber se nos sentimos mais ou menos satisfeitos com ela.

Para algumas pessoas, estar em teletrabalho significou ter mais tempo e disponibilidade para cuidar da sua autoestima, da sua pele, para criar hábitos saudáveis. Porém, para uma grande percentagem, a pandemia e os confinamentos foram muito duros, nomeadamente para mulheres em teletrabalho e com filhos que tiveram de assumir muitos papéis: mãe, dona de casa, professora, profissional, mulher, entre outros.

Ora, nestes casos, é natural que o tempo e a disposição mental para cuidar de si próprias durante esta fase tenha sido ainda menor. E, possivelmente, a pele possa estar em piores condições nesta fase, refletindo a falta de tempo para os devidos cuidados e ainda a preocupação, o cansaço e a angústia.

A urgência de praticar o cuidado próprio

Vivemos numa sociedade exigente com a imagem feminina, questão especialmente clara quando pensamos no envelhecimento da pele. Porém, esta mesma sociedade considera que os cuidados próprios são secundários e egoístas quando comparados com o trabalho e a família, tornando o direito de cuidar de si própria numa conquista que deve ser adquirida.

Como conseguir então navegar entre estes “stressores” contraditórios?

As duas profissionais concordam que o melhor conselho é ouvir o nosso corpo, não negligenciar os sintomas e não ter medo de procurar ajuda. A pele é, neste sentido, um sensor. Sente e avisa-nos através de uma dermatose – doença de pele – que existe algum problema que deve ser tratado, seja ele físico ou emocional. De novo, a saúde física e a mental não são separáveis, sendo muito óbvia esta relação, por exemplo, em noites mal dormidas devido a preocupações ou angústias.

Assim, deixam alguns conselhos essenciais, destacando desde logo a importância da fotoproteção até durante o inverno e em casa. Sabe-se agora que a emissão de luz dos dispositivos móveis pode afetar a pele, sendo necessário um creme com um largo espectro de proteção.

Também os cuidados de higiene são cruciais, devendo ser mais “agressivos” durante a noite e suaves de dia, uma vez que de noite a pele produz elementos importantes. Além disso, se possível, aconselham a visita a um dermatologista para ajudar a prevenir futuros problemas que poderiam ser evitados com uma correta identificação do tipo de pele (que varia de pessoa para pessoa e de uma zona do corpo para outra) e de sinais de pele fragilizada.

No caso da gestão de stress, sem dúvida que respirar fundo pode ajudar. É uma forma de fazer uma pausa, de ter um momento para nós, de nos permitirmos sentir e ouvir o nosso corpo. Costumamos ser empurrados pela vida, por isso, aprender a abrandar um pouco certamente ajuda a elevar muito o nosso bem-estar.

Apenas 27% das portuguesas considera ter uma pele saudável, que está radiosa, luminosa, lisa e sem sinais de uma pele fragilizada. Se a pele é, efetivamente, o espelho de como estamos em todos os aspetos da nossa vida, este é um número demasiado baixo e que precisa de aumentar.

E qual é o conselho final que as duas profissionais nos relembram? Que a palavra-chave na nossa vida deve ser sempre praticar o cuidado próprio.

 

 

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