Imagine uma orquestra com diversos músicos e um maestro que tenta que todos os instrumentos entrem em sequência. Por vezes, pode haver um que se adianta e outro que se atrasa, causando alguns desequilíbrios na música.

É assim que a Dr.ª Leonor Girão, dermatologista, explica o funcionamento do nosso sistema endócrino e a importância do equilíbrio das hormonas para o nosso humor e o nosso bem-estar.

É justamente para abordar as hormonas, o seu funcionamento e os efeitos que podem ter na pele que à especialista em Dermatologia se junta a Dr.ª Rute Ferreira, endocrinologista no Hospital Egas Moniz e representante da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM). Esta terceira talk do projeto “Falar Saúde”, organizada pela TVI24 e a Vichy, com o tema “A saúde da pele e as hormonas” conta, de novo, com a moderação de Sara Sousa Pinto.

 

 

Mas o que são, então, as hormonas?

A endocrinologista explica que, de forma simples, são mensageiros químicos produzidos pelas nossas glândulas. Cada hormona tem várias funções, por vezes específicas e outras vezes abrangentes, atuando em diversos pontos do organismo, tendo uma função diferente em cada um desses pontos. E todos os tipos de hormonas são fundamentais para nós vivermos.

No entanto, é também certo que não podemos escapar de certas alturas mais propensas a alterações, como é o caso da puberdade, da gravidez ou da menopausa, sendo que muitas vezes estas mudanças se manifestam na pele.

Quando a orquestra não está afinada

A homeostase é o equilíbrio hormonal, isto é, o estado natural de uma pessoa que não tenha uma desregulação. As hormonas são controladas por mecanismos muito inteligentes de retrocontrolo, que informam a hipófise – a glândula-chefe que regula todas as hormonas, localizada no cérebro –, permitindo que esta equilibre a segregação hormonal. Quando existe uma oscilação, seja um défice ou um excesso, os sintomas podem manifestar-se de diferentes formas.

 

 

Como exemplo, a Dr.ª Rute Ferreira refere a tiroide, a glândula mais conhecida, que funciona quase como uma balança do nosso corpo. É muito abrangente, regulando inúmeras funções e atuando em órgãos tão diversos como o coração, os intestinos e a pele.  Por isso, em caso de hipertiroidismo (hormonas a mais), a pele fica mais suada, quente e vermelha. Já se for hipotiroidismo (hormonas a menos), a pele mostra-se seca e áspera, as unhas quebradiças e pode existir queda de cabelo.

Aliás, é de referir que as patologias da tiroide podem surgir em qualquer idade, inclusive em crianças, refletindo-se no seu desenvolvimento.

 

 

A acne não é só hormonal

Outra situação familiar, relembra a Dr.ª Leonor Girão, é a acne, uma das doenças mais associadas à desregulação hormonal. É especialmente relacionada com a puberdade, a fase da vida em que algumas das nossas glândulas começam a segregar hormonas. Por exemplo, a testosterona, que é muito poderosa e pode causar formas mais graves de acne nos rapazes.

Por vezes, justamente por ser considerada uma doença específica de uma fase de vida, é negligenciado o tratamento. Mas da mesma forma que quando temos uma dor de cabeça ajudamos a tratar os sintomas sem necessidade de que a condição piore, também devemos fazê-lo no caso da acne, evitando que leve a cicatrizes que ficam para o resto da vida.

Embora seja associada a fases hormonais, na realidade existem vários motivos e causas para esta doença. Por isso, pode surgir em qualquer altura da nossa vida, tanto por razões hormonais e fisiológicas (no caso das mulheres, condições como quistos nos ovários, gravidez e menopausa), como devido à genética, ao estilo de vida e a fatores externos, caso dos produtos de má qualidade e da poluição.

Afinal, devemos considerar que as nossas circunstâncias também mudam e podemos estar mais sujeitos a situações que desencadeiam esta doença em determinadas alturas da nossa vida. Por exemplo, hábitos de higiene, tabagismo e produtos de má qualidade, exposição ao ar condicionado, toma da pílula, viver num local mais poluído ou situações de stress.

O peso do stress no sistema endócrino

Aliás, o stress pode ser um fator-chave no aparecimento da acne, mas também de outras questões dermatológicas, tais como manchas e queda de cabelo. Além disso, explica a especialista em Endocrinologia, é possível que seja a causa de desarranjos na imunidade ou autoimunidade. Estas doenças costumam ser mais frequentes nas mulheres e nas alturas de “mudança de idade”, como a perimenopausa.

Outro fator muito associado ao stress é a compulsão alimentar e o oposto, a perda de apetite. Esta situação também causa obesidade ou falta de nutrientes, influenciando o sistema endócrino e, consequentemente, a pele e outros órgãos.

Depois, numa situação de stress, existem duas dificuldades acrescidas. A primeira é perceber quando é essa a causa de uma patologia, tendo em conta que atualmente é um fator muito comum. A segunda está relacionada com a aceitação deste diagnóstico por parte do paciente e o tratamento, uma vez que exige uma alteração no estilo de vida que pode não ser viável.

 

 

Queda de cabelo: quando se deve preocupar?

Também a queda de cabelo é um sinal dermatológico que pode derivar do stress ou de uma desregulação hormonal.

Primeiro, quebrar mitos: existe ou não queda sazonal? A Dr.ª Leonor Girão confirma que sim. “Quem tem cão e gatos sabe perfeitamente como ficam as casas”, justifica, “e nós também somos mamíferos, também nos cai cabelo nesta altura”. Contudo, chama a atenção para o facto de ser uma queda que não cause angústia, pois se for exagerada pode dever-se a outras causas.

Outra dúvida que costuma aparecer está relacionada com a queda de cabelo na gravidez e pós-parto. Pode haver uma alteração nos meses a seguir ao parto, mas geralmente não é uma condição que venha para ficar, e é possível ajudar a atenuar. Mesmo assim, é preciso considerar o que aconteceu no parto (houve uma hemorragia que tenha levado a um défice de nutrientes?), o estilo de vida da mãe e outros fatores associados.

Para diagnosticar o porquê da queda de cabelo, é preciso seguir o histórico clínico, saber se é exagerada, se existiram outras intercorrências (stress, parto, doenças) e se há outras queixas, como pele baça ou cansaço. Sabe-se agora, aliás, que quem teve Covid-19, mesmo com sintomas ligeiros, pode ter tido uma queda de cabelo muito expressiva. É, desse modo, muito importante ir a uma consulta médica que saiba como diagnosticar e tratar.

 

 

Diagnóstico e tratamento

Chegar a um diagnóstico não é fácil, explica a Dr.ª Rute Ferreira. Por um lado, os sintomas podem ser indicativos de diversas doenças e causas, pelo que, muitas vezes, o diagnóstico é feito por exclusão: é necessário perceber, primeiro, o que não é. E isto aplica-se tanto ao stress como às desregulações hormonais. Por outro lado, pode haver sinais que o paciente desconsidera e que podem ser chave para se concluir tratar-se de uma doença específica.

Por isso, como acrescenta a Dr.ª Leonor Girão, o diagnóstico médico é “quase como num romance policial, em que temos de fazer as perguntas certas e estar atentos aos sinais”. Devem, portanto, seguir as pistas e perceber se as peças encaixam: saber os sintomas, perceber o histórico, pedir análises hormonais ou outros exames e recorrer, se necessário, a outros colegas de áreas como a Endocrinologia, a Ginecologia e a Psiquiatria, seja para ajudar a um diagnóstico ou para encaminhar o paciente para tratamento.

Aliás, no caso da Endocrinologia, não existe um check-up geral ou um mapa hormonal. A endocrinologista esclarece que as análises e os exames são feitos e interpretados conforme as queixas e os sintomas dos pacientes, considerando que os valores fora dos parâmetros de referência podem ter vários significados, relevantes ou não, dependendo da situação. A partir dos sinais e sintomas, existe então uma investigação que parte do que é mais provável de ser e se vai fazendo exclusões.

 

 

Relativamente ao tratamento de patologias do sistema endócrino, em termos gerais, se houver produção em excesso, deve ser feito um tratamento de bloqueio. Ao contrário, se existir um défice, é necessário fazer uma reposição hormonal. O tratamento dependerá, assim, da doença, das situações e do histórico clínico e familiar da pessoa. É, sobretudo, importante saber que costumam ter uma evolução favorável. Pode ser difícil chegar ao diagnóstico, mas tratar a doença não deverá ser complicado.

A terapêutica de substituição hormonal, por exemplo, bastante falada no caso da menopausa, pode contribuir para aliviar sintomas complicados nesta fase de vida. No entanto, é preciso avaliar se existem contraindicações, como casos de trombose ou antecedentes de cancro da mama ou do útero. Pode, ainda, ajudar com questões dermatológicas como manchas na pele. Este sinal costuma estar relacionado com o sol e o envelhecimento da pele, mas a menopausa e outras causas hormonais também podem desencadeá-lo.

 

 

A Dr.ª Leonor Girão relembra ser fundamental ajudar a saúde da pele mantendo hábitos de higiene corretos, um estilo de vida e uma alimentação saudáveis, e usar produtos adequados. Caso exista, mesmo assim, alguma queixa, as duas especialistas chamam a atenção para a importância de recorrer ao médico.

Os grandes problemas endócrinos têm manifestações que o paciente percebe e costumam ser vários os sintomas. Assim, se se sentir desconfortável e vir que a situação não melhora, deve consultar o médico, para este poder, com a sua experiência, chegar a um diagnóstico e ajudar o paciente com um tratamento que o permita voltar à sua normalidade.