Graham Potter foi um lateral esquerdo mediano. Fez apenas oito jogos na Liga Inglesa, apesar de ter passado por Birmingham, Stoke City, West Bromwich e Southampton. Acabou por encerrar a carreira aos 30 anos, depois de cair na terceira divisão, e ninguém ficou com saudades.

Por isso era pouco menos do que um desconhecido, quando se licenciou em Ciências Sociais e começou a trabalhar como treinador nas universidades de Hull e Leeds Metropolitan, enquanto finalizava um mestrado em liderança e inteligência emocional.

Em 2010 decidiu que queria mais: queria ser treinador de futebol, e não apenas de equipas universitárias. Até então só conseguira um cargo de diretor técnico da seleção feminina do Gana.

O problema é que as portas não se abriam para ele.

Acabou por ser Graeme Jones, um antigo companheiro de equipa, que na altura era adjunto de Roberto Martínez, quem o ajudou: no final de um jogo de pré-época, e quando o presidente do Ostersunds, da quarta divisão da Suécia, lhe pediu referências, ele apontou para Graham Potter.

O inglês sentiu que devia arriscar e mudou a jovem família para o norte gelado da Suécia, para uma cidade que não tinha tradição no futebol e que era conhecida apenas pelos desportos no gelo.

«Foi um grande passo. Tinha construído um trajeto de cinco anos no ensino superior, que é uma carreira bastante segura. Tínhamos acabado de ter o nosso primeiro filho e minha esposa tinha um negócio que ela construíra ao longo de 10 anos», recordou Graham Potter.

«Por isso foi uma mudança muito grande. Fui completamnte para o desconhecido, para um clube de futebol que tinha acabado de descer à quarta divisão e que tinha mudado muito de treinadores.»

Graham Potter admite que os primeiros seis meses foram duros, mas concentrou-se no facto de saber que é muito difícil abrir as portas no futebol e atirou-se com toda a força ao trabalho.

Em cinco anos subiu o Ostersunds três vezes de divisão, até uma estreia histórica na Liga Sueca, ganhou uma Taça da Suécia e disputou uma Liga Europa, na qual até venceu... o Arsenal.

Antes disso, nas pré-eliminatórias, afastou da competição o Galatasaray e o PAOK, para depois terminar em segundo na fase de grupos e seguir em frente. Caiu perante o Arsenal, é verdade, mas ainda foi vencer ao Emirates, acabando eliminado após uma derrota na segunda mão em casa.

Para uma equipa que poucos anos antes estava na quarta divisão de um país que está muito longe de ter um futebol internacionalmente relevante, foi de facto um feito enorme. Sobretudo porque Graham Potter era tudo menos um inglês normal: para ele o essencial era sair da zona de conforto.

«Quero que os meus jogadores sejam corajosos, que não tenham medo de errar. Que possam pegar na bola, mostrar coragem e tentar divertir-se a jogar futebol. Se os jogadores gostarem do futebol que estão a jogar, há uma hipótese de os adeptos também gostarem. E é assim que crescemos enquanto jogadores e que nos desenvolvemos enquanto equipa.»

Ora para que isto seja possível, Graham Potter utiliza estratégias pouco convencionais. Na Suécia, por exemplo, desafiou os jogadores a fazer trabalho comunitário e mandou-os ter aulas de canto.

Depois fizeram uma apresentação do Lago dos Cisnes para a comunidadee.

«Até eu tive de fazer um solo de dança improvisado no meio do palco sozinho. Foi terrível. Eu sou muito mau dançarino. Outra vez fizemos uma apresentação de canto em frente a 1.600 pessoas e eu toquei o hino nacional da província de Jamtland na abertura do espetáculo. Foi assustador.»

Graham Potter queria tirar os jogadores da zona de conforto. Fazê-los enfrentar riscos... e medos.

«Estas atividades fomentam um vínculo entre todos e dão aos envolvidos uma lição importante sobre como enfrentar situações desconhecidas e às vezes indesejadas. Abraçar o desafio ao invés de temê-lo», referiu.

«Também é importante que os adeptos vejam os jogadores como seres humanos, com as suas famílias e fazendo mais do que vestir a camisola. Se os adeptos se conectarem com os jogadores de alguma forma, podem apoiá-los mais e ter paciência quando eles precisarem.»

Ora num futebol inglês muito conservador e avesso ao risco, que tende a não aceitar métodos pouco ortodoxos e personagens não convencionais, a reação ao sucesso de Graham Potter foi uma surpresa.

O treinador é olhado como uma pedrada no charco de um panorama que há anos não apresenta um projeto de treinador verdadeiramente entusiasmante. Por isso as portas do futebol inglês abriram-se, primeiro através do Swansea, que conduziu aos quartos de final da Taça e ao décimo lugar do Championship, e passado um ano do Brighton, atingindo então o sonho da Liga Inglesa.

A primeira temporada trouxe um recorde de pontos (41) e de golos (39) na história do clube na Liga Inglesa, igualando também a melhor posição no final da época: um 15º lugar. Na segunda época, Graham Potter voltou a igualar o recorde de pontos (41) e bateu o recorde de golos (40).

Este ano, o Brighton tem tudo para fazer melhor. Em meio campeonato, a equipa já leva 28 pontos e ocupa o oitavo lugar. Sempre fiel a um estilo de jogo que é marca registada do treinador: uma equipa taticamente flexível, ofensiva e que baseia todo o futebol na posse de bola.

Ou não gostasse Graham Potter de se inspirar em Guardiola e Roberto Martínez.

«É inglês, é um treinador moderno e traz novas ideias. Gosta que as suas equipas se preocupem em trocar bem a bola e começa a construir a partir de trás», elogiou Marcelo Bielsa.

«Há uma coisa que os bilionários donos de clubes deviam refletir um pouco: 'Como podemos tirar mais dos jogadores a quem pagamos salários tão substanciais?' Eles quase sempre pensam que não podem desenvolver e serem melhores com o que têm. Isso está errado. Os jogadores podem ser sempre melhores. Podem ser sempre muito melhores», referiu Graham Potter à CNN.

Essa é, aliás, grande parte do segredo do sucesso do treinador inglês: tornar os jogadores melhores. Para isso gosta de criar um ambiente positivo dentro da equipa, gosta de fomentar um clima de proteção e não abdica nunca de desafiar os jogadores a otimizar as suas características.

«É o melhor treinador que eu já tive ao nível pessoal, de longe. Preocupa-se muito com o nosso bem-estar. O futebol é um jogo que se baseia em resultados e muitas vezes somos vistos quase como carne para canhão. Ele vai mais além para ajudar os jogadores», conta o escocês McBurnie.

Aos 46 anos, e como uma carreira de dez anos apenas, Graham Potter ainda tem a vida toda pela frente. Em Inglaterra dizem que ele está talhado para grandes feitos: ainda recentemente foi falado com insistência para o Tottenham e a BBC já fez um artigo a dizer que a seleção espera por ele.

Para um homem que ainda há pouco tempo teve de deixar tudo e levar a família para a chamada Cidade do Inverno, onde as temperaturas estão frequentemente abaixo do zero e os miúdos só querem patinar no gelo, seguramente não há muitos limites. Basta querer muito e ser criativo.

Nem que para isso seja necessário colocar os jogadores a dançar outra vez o Lago dos Cisnes.