No nordeste de Inglaterra há um caso sério de amor pelo futebol.

Sunderland e Newcastle mantém uma das maiores rivalidades do futebol inglês, mas as circunstâncias mudaram significativamente desde há duas épocas, quando os «Black Cats» caíram sucessivamente duas divisões no futebol inglês.

A série «Sunderland ‘Til I Die» retrata precisamente esse ponto crítico na vida do clube.

Quem não perdoa são os adeptos do rival Newcastle, que a cada oportunidade troçam da situação, cantando no estádio coisas como eu vi-vos a chorar na Netflix.

«We saw you crying on Netflix…»

A derrocada desportiva do Sunderland da Premier League para a League One é um drama desportivo. Aliás, depois de ver Sunderland ‘Til I Die, contemplamos o sentimento de uma cidade pelo emblema que a representa.

Até que, por fim, entendemos: não há vergonha nenhuma em chorar.

(Artigo originalmente publicado às 23:45 de 28-01-2019)

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VER: «Sunderland ‘Til I Die»

Género: série documental

Produtores executivos: Leo Pearlman e Bem Turner

País: Reino Unido

Duração: 40 minutos (x8 episódios)

Depois de vermos estes oito episódios, tornamo-nos todos um pouco mais adeptos do Sunderland.

Aliás, basta escutar o melancólico tema Shipyards, do genérico de abertura, para percebermos que esta série disponível na plataforma Netflix é uma das melhores coisas sobre futebol que pudemos ver nos últimos tempos.

A ligação umbilical entre o emblema desta cidade portuária do norte de Inglaterra e a classe trabalhadora, que compõe a sua base de apoio, salienta a relevância social do futebol numa comunidade.

Em certa medida, Sunderland ‘Til I Die é uma antítese de All or Nothing, conteúdo produzido pela Amazon sobre o Manchester City.

A história do sucesso dos milionários citizens, com craques de nível mundial a interpretarem o inebriante futebol de Pep Guardiola, contrasta em grande medida com o fracasso do Sunderland, que em duas épocas consecutivas cai da elite do futebol inglês para dois patamares abaixo.

Depois da despromoção na Premier League, Ellis Short, proprietário do clube, resolveu desinvestir no clube e é nesse momento difícil que se foca toda a ação, que tem como palco primordial o majestoso Stadium of Light.

A série acompanha a época 2017/18 do Sunderland no Championship. O que se esperava ser um período de renascimento, acaba por transformar-se numa longa agonia, com o clube a descer à League One.

O documentário foi lançado a 14 de dezembro de 2018, está disponível em Portugal na plataforma Netflix e tem o selo de garantia da produtora Fulwell 73 – a mesma da Class of 92, sobre a geração de ouro do Manchester United.

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OUVIR: Shipyards

Autores: The Lake Poets

Género: folk

País: Reino Unido

Duração: 4:11 minutos

 

On a river where they used to build the boats

By the harbour wall the place you loved the most

I can see you there but all you know

I'll be there soon

All your life you worked your fingers to the bone

You worked hard for every little thing you owned

But you gave away for yours as if you'd known

They will call and out

Call and out 2x

But if you could see me now

But if you could see me now

I hope that I'm making you proud

I hope that I'm making you proud 2x

proud

Like a ship you built you're long gone from the coast

Where you are and where we go we'll never know

On a ship you built that's where I see you most

If your smile and I

But if you could see me now 2x

I hope that I am making you proud 3x

Proud 3x

Um dos encantos de Sunderland ‘Til I Die é a banda sonora.

A música de abertura cativa logo a atenção do espectador.

The Lake Poets, o mesmo será dizer o cantautor Marty Longstaff [na foto], sintetiza o espírito da cidade portuária do norte de Inglaterra e das suas gentes numa balada folk que entra no ouvido desde os primeiros acordes.

Sem ser um tema sobre futebol, Shipyards – estaleiros, traduzindo para português –, é uma declaração de amor à cidade portuária e ao rio Wear, «onde faziam barcos». É a relação entre clube e cidade que faz o tema, cujo EP foi lançado em 2015, adaptar-se à narrativa da série.

Além da versão de estúdio, poderá também ver aqui a performance acústica de Martin Longstaff na catedral de Durham, cidade vizinha a Sunderland.

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«PLATEIA» é um espaço quinzenal de sugestões culturais sobre futebol do jornalista Sérgio Pires. Pode enviar as suas através do e-mail smpires@mediacapital.pt