O primeiro frente-a-frente entre os dois candidatos à autarquia da capital começou com uma acesa discussão sobre a crise habitacional em Lisboa. Medina acusou Carlos Moedas de não ter contacto com a realidade ao apresentar uma descida que classifica como irrealista do IMT.

Carlos Moedas defendeu que o IMT é um imposto único de Portugal, que é "injusto" e sublinhou que a sua proposta é adequada a "todos" os lisboetas que queiram "comprar uma casa até 250 mil euros em princípio de vida".

Medina foi rápido na resposta e questiona como é que Moedas "consegue falar de 250 mil euros de um preço de casa, com 50 mil euros de entrada" e mesmo assim achar que fala de uma cidade como Lisboa.

"Achar que um pequeno descontinho que praticamente ninguém na classe média consegue suportar, pensar que isso ajuda alguém? Qualquer pessoa aqui poderá fazer as contas é que uma casa de 250 mil euros precisará de uma entrada de cinquenta mil euros. O que vai fazer a diferença aqui não é o desconto de cinco mil euros, é quem terá o dinheiro para dar de entrada?", questiona Medina no debate moderado pela TVI. 

Medina acrescentou ainda que, no último concurso de renda acessível da Câmara Municipal de Lisboa, a idade média foi de 38 anos e com formação superior. "O Carlos sabe qual o rendimento líquido médio dessas pessoas? 1.100 euros. A proposta de Carlos é que tem de ter 40,30, 50 mil euros de entrada para beneficiar do desconto do IMT".

A solução para resolver a crise habitacional, destaca Medina, passa por continuar o investimento na promoção de iniciativa pública, com rendas que sejam no máximo 30% do rendimento líquido do agregado. "E mais, casas a arrendar e não a comprar - esse foi o erro que o nosso país cometeu.

Neste ponto, Carlos Moedas pede clareza perante "a demagogia". "Uma pessoa que seja um funcionário público. Fernando Medina é funcionário público e político. Quando comprou a sua casa, pediu entrada para a casa e conseguiu pagá-la, não é rico".

Medina interrompe o candidato apoiado pela direita moderada. "Tive familiares que me ajudaram. É aos filhos dos pais com posses que devemos dirigir a política pública?" Moedas retoma a palavra para perguntar se Medina se considera um homem rico. "Comparado com a média, não tenha dúvida", responde o autarca Lisboeta. "Retiro já o que disse", remata Medina.

Regressando ao valor que um jovem de classe média consegue suportar na compra de uma casa no início de vida, Medina assume que conhece muitas pessoas de classe média que conseguem, para uma casa de 250 mil euros, "não só poupar 20 mil euros para dar entrada, ou com ajuda de familiares, e acabam a pagar menos do que em casas albergadas pelo programa de renda acessível".

"O que Fernando Medina não disse foi que um T3 nessa renda acessível custa oitocentos euros por mês", assevera Carlos Moedas, sendo pausado pelo presidente da Câmara que destaca que as pessoas que têm em média 1.100 euros de rendimento "pagam 330 euros de renda".

Medina retoma o discurso e volta ao ataque. "Como é que uma pessoa que se candidata à Câmara Municipal de Lisboa não conhece o rendimento das suas pessoas?", mas Carlos Moedas abre a pasta e revela uma fotografia de uma casa na capital, "onde vivem seis pessoas e que não tem teto". 

"Olhe como vivem as pessoas em Lisboa", declara Moedas, uma afirmação que é recebida com ironia. "Fico satisfeito que ao menos esta campanha está a fazer com que o Carlos Moedas descubra que há pobreza e situações difíceis nas cidades".

Questionado, por sua vez, sobre a especulação imobiliária na capital e se um teto faria sentido, Medina diz que a história revela que "não devíamos voltar" a essa tática. Defende, porém,"a construção e reabilitação de fogos" para que a cidade tenha "um verdadeiro parque habitacional".

"O Fernando fala como se o programa tivesse funcionado", afirma Medina, apontando para a promessa falhada de disponibilizar seis mil casas de arrendamento acessível.

"É capaz de vir falar de promessas falhadas, quando nunca teve proposta e disse que as políticas de Assunção Cristas foram boas, a lei que expulsou idosos de Lisboa", responde Medina.

Contrapondo, Moedas reitera que a solução "tem de ter vários pilares". Primeiro a aposta deve ser municipal e social e só depois dedicada ao rendimento acessível.

“Fico cheio de orgulho de o PSD ouvir quem tem baixos rendimentos, mas leve-lhes a proposta do IMT e de certeza que vão ficar satisfeitos”, diz com ironia o autarca.

 

Carlos Moedas quer descer os impostos, Medina aposta nas "contas certas"

O candidato da coligação de direita apresentou a sua proposta principal para reduzir a carga fiscal aos habitantes de Lisboa. Moedas assume-se até como um politico que tem como objetivo baixar os impostos às pessoas.

Para isso, recorre a um plano com duas frentes: "Devolver às pessoas 32 milhões de euros - através da descida de impostos - que é dinheiro das pessoas" e isentar o IMT para os mais jovens comprarem casa com maior facilidade.

Medina rejeita esta tese, sublinhando que a sua Câmara, na Área Metropolitana de Lisboa, já é a que impostos e taxas mais baixos oferece, desde 2012.

"Temos de manter a segurança financeira, as contas certas. Custou muito a conquistar e eu não abdico disso, porque permitiu libertar recursos para o maior programa de apoio no combate à pandemia sem subir a dívida", justifica e aponta a falta de necessidade de descer "ainda mais" os impostos. Isto porque "40% das famílias em Lisboa não pagam IRS por rendimentos baixos.

"Não é justo estar a distribuir folga por um conjunto reduzido de pessoas, aqueles que têm mais rendimentos. Preferimos dirigir esses fundos para os que ganham menos", através de um programa que, no final do seu eventual mandato, poderá oferecer creches gratuitas a todos os cidadãos.

Moedas tem a última palavra sobre este tema, salientando que a estabilidade financeira de que Medina se gaba "veio por herança do governo PSD".

"Os impostos não são nossos, o dinheiro é dos lisboetas. Numa câmara com mil milhoes de euros de orçamento é um compromisso", assume.

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O escrutínio de Moedas: Inês Lobo, Rússia e Manuel Salgado

No princípio do debate, Carlos Moedas desenhou a ofensiva através das polémicas que têm marcado o mandato de Medina à frente da Câmara Municipal de Lisboa. Primeiro o Russiagate - a autarquia enviou dados de ativistas russos para a embaixada -, mais recentemente o vereador Manuel Salgado foi constituído arguido, num processo em que estão em causa alegados crimes de abuso de poder e corrupção.

Questionado se a acumulação de casos corrói a credibilidade da autarquia, Medina defende a sua postura. "Nós temos a postura correta do ponto de vista institucional, assegurar celeridade e colaborar para que rapidamente se esclareça o que há a esclarecer", afirma, passando imediatamente para o ataque.

"O que corrói é a repetição desses casos que transforma suspeitas em acusações e condenações. Não há ninguém acusado de nenhum crime. O meu papel é diligenciar, apoiando para que todas as responsabilidades sejam apuradas. É nisso que os lisboetas podem apostar", afirma, garantindo que está "tranquilo" porque "conhece as pessoas envolvidas".

No momento em que Medina fala de aproveitamento político, Moedas sublinha que a sua posição é a de escrutinar. "Aquilo que tenho feito é o escrutínio de casos importantes para a democracia", diz, antes de tomar a dianteira da troca de acusações e dizer que Fernando Medina escolheu para número dois "uma arquiteta que tem contrato com a Câmara Municipal no valor de 800 mil euros".

Moedas fala da arquiteta Inês Lobo e Medina sublinha que é uma das mais influentes e respeitadas profissionais em Portugal, atirando que Carlos Moedas "não tem qualquer ideia sobre a cidade de Lisboa, não tem visão nem substância, tentou agarrar-se a todos os ataques possíveis".

Medina diz que esta estratégia de "ataques sem sentido" fez com que o candidato se desleixasse na sua apresentação de ideias para a capital, como a habitação. Moedas nega e fala num conflito de interesses.

“Eu nunca tive contratos com o estado. A nossa diferença é que paguei salários. Quando fui para o Governo não recebia do Estado”, aponta, enquanto Medina diz que o seu ataque "é tão baixo, é tão baixo".

“Achar estranho que um profissional que dedica a sua vida a trabalhar e que depois não tem forma legal de gerir a transição (para o setor público).. É tão baixo, tão baixo. É um ponto que o marcará", remata Medina, prometendo que o caso de Inês Lobo "vai ser resolvido".

Concorrem à presidência da Câmara de Lisboa, Fernando Medina (coligação PS/Livre) Carlos Moedas (coligação PSD/CDS-PP/PPM/MPT/Aliança), Beatriz Gomes Dias (BE), Bruno Horta Soares (IL), João Ferreira (CDU - coligação PCP/PEV), Nuno Graciano (Chega), Manuela Gonzaga (PAN), Tiago Matos Gomes (Volt), João Patrocínio (Ergue-te), Bruno Fialho (PDR), Sofia Afonso Ferreira (Nós, Cidadãos!) e Ossanda Líber (movimento Somos Todos Lisboa).

O executivo de Lisboa é atualmente composto por oito eleitos pelo PS (incluindo dos Cidadãos por Lisboa e do Lisboa é muita gente), um do BE, quatro do CDS-PP, dois do PSD e dois da CDU.

As eleições autárquicas realizam-se em 26 de setembro.