O presidente do PSD, Rui Rio, defendeu esta quarta-feira que o ministro das Finanças "não tem condições para continuar" no Governo, considerando que será uma má decisão se António Costa mantiver "um ministro que não lhe foi leal".

Se estava mal, com esta prestação na Assembleia da República, Centeno ainda ficou pior. Não tem condições para continuar! Mal vai um primeiro-ministro que mantém um ministro que não lhe foi leal, que tem a crítica pública do Presidente da República, que a bancada do PS não defendeu e que diz ser irresponsável fazer o que o primeiro-ministro anunciou", defendeu Rio, numa publicação na sua conta oficial da rede social Twitter.

 

Em audição parlamentar, o ministro de Estado e das Finanças, Mário Centeno, afirmou que a transferência de 850 milhões de euros para o Fundo de Resolução destinado à recapitalização do Novo Banco não foi feita à revelia do primeiro-ministro.

Não, não foi à revelia, não há nenhuma decisão do Governo que não passe por uma decisão conjunta do Conselho de Ministros", disse Mário Centeno numa audição regimental da Comissão de Orçamento e Finanças (COF) do parlamento.

Mário Centeno afirmou ainda que "não há transferências nem empréstimos feitos à revelia de ninguém", explicando que "a ficha de apoio ao senhor primeiro-ministro chegou com um par de horas de atraso, e o senhor primeiro-ministro, quando deu a resposta que deu, não tinha à frente dele a informação atualizada".

O Expresso noticiou na quinta-feira que o Fundo de Resolução recebeu mais um empréstimo público no valor de 850 milhões de euros destinado à recapitalização do Novo Banco, horas depois de António Costa ter garantido no debate quinzena que não haveria mais ajudas até que os resultados da auditoria que está a ser feita ao Novo Banco fossem conhecidos.

No dia seguinte, o primeiro-ministro explicou que não foi informado pelo Ministério das Finanças do pagamento de 850 milhões de euros, tendo pedido desculpa ao Bloco de Esquerda pela informação errada transmitida no parlamento.

Em entrevista à TSF, o ministro das Finanças admitiu na terça-feira uma falha de comunicação entre o seu gabinete e o do primeiro-ministro quanto à injeção de capital no Novo Banco, mas "não uma falha financeira", que seria desastrosa.

O Presidente da República considerou que o primeiro-ministro "esteve muito bem" ao remeter nova transferência para o Novo Banco para depois de se conhecerem as conclusões da auditoria que abrange o período 2000-2018.

Centeno sem condições para debate do Programa de Estabilidade

O presidente do PSD afirmou que, na sua opinião, o ministro das Finanças "não tem condições" para debater quinta-feira o Programa de Estabilidade no parlamento, mas remeteu para o primeiro-ministro a avaliação sobre a situação de Mário Centeno.

Em declarações aos jornalistas na Assembleia da República, Rui Rio verbalizou as críticas que já tinha deixado antes na publicação no Twitter.

Ele não foi leal ao primeiro-ministro, ele já tem uma crítica pública do Presidente da República e, hoje à tarde, no debate no parlamento a bancada do PS não o defendeu, limitou-se a criticar o passado para não ter de ficar calado", disse.

O líder do PSD referiu-se ainda à audição parlamentar de Mário Centeno, hoje de manhã: "Disse que seria irresponsável não se pagar [ao Fundo de Resolução] e esperar pela auditoria [ao Novo Banco]. Ao dizer isto, está a considerar que quer o primeiro-ministro quer o Presidente da República foram irresponsáveis".

Questionado se essa demissão deve acontecer antes do debate, na quinta-feira, do Programa de Estabilidade, Rio remeteu a avaliação do `timing´ para o primeiro-ministro.

No entanto, à pergunta se Mário Centeno terá condições para protagonizar esse debate, o líder do PSD foi claro.

Eu pessoalmente acho que não tem, mas veremos se ele vem ou não, veremos quem é que o Governo manda amanhã para o Programa de Estabilidade", disse.

Rio fez questão de salientar que esta posição reflete "o que faria se estivesse no lugar do primeiro-ministro".

Não é a oposição que faz remodelações, depois há um juízo político sobre o primeiro-ministro se mantém em funções um ministro das Finanças que tem este comportamento", afirmou.

CDS defende que "seria prudente" que Marcelo "evitasse ser arrastado"

O presidente do CDS-PP desafiou o primeiro-ministro a esclarecer se mantém a confiança política no ministro das Finanças e defendeu que “seria prudente” que o Presidente da República “evitasse ser arrastado para o conflito”.

Numa nota divulgada esta noite, Francisco Rodrigues dos Santos aponta que “a coordenação política no Governo é da competência do primeiro-ministro” e considera que, “existindo descoordenação a culpa é de António Costa, que deve assumir as suas responsabilidades”.

Portanto, cabe a António Costa esclarecer se o ministro das Finanças é capaz de acertar o passo e se mantém a sua confiança política nele ou se, por outro lado, a relação institucional se deteriorou ao ponto de Mário Centeno ter de abandonar o Governo”, salienta o líder democrata-cristão.

Apontando que “essa resposta tem de ser o primeiro-ministro a dar ao país”, Rodrigues dos Santos adianta que o chefe de Governo “não conta” com o CDS “para fazer o frete de escolher por ele”.

Referindo também o comentário do Presidente da República sobre a questão da injeção de capital no Fundo de Resolução para a recapitalização do Novo Banco, o presidente centrista considera que “seria prudente” que Marcelo Rebelo de Sousa “zelasse pelo regular funcionamento das instituições e evitasse ser arrastado para o conflito, não lhe cabendo coordenar o Governo”.

Num tom jocoso, Francisco Rodrigues dos Santos refere ainda que “a avaliar pelos rasgados elogios” que António Costa fez ao ministro de Estado e das Finanças nos últimos quatro anos, “nenhum português diria que seria difícil ao primeiro-ministro entender-se com o ‘Ronaldo das Finanças’”.

Também hoje, em declarações aos jornalistas, o líder do CDS considerou que Mário Centeno desautorizou António Costa nesta matéria, e salientou que os dois "têm de acertar o passo".

PS repudia "declarações abusivas"

O PS repudiou as “declarações abusivas” do líder do PSD sobre o debate parlamentar desta tarde, considerando que Rui Rio quis desviar as atenções “para uma certa teoria da conspiração” ao defender a saída de Mário Centeno.

Rui Rio fez há pouco declarações abusivas sobre aquilo que foi o debate desta tarde. O debate desta tarde não passou por saber se o ministro das Finanças, Mário Centeno, foi, é ou será ministro das Finanças. Do nosso ponto de vista isso não é minimamente discutível”, disse, em resposta, o vice-presidente da bancada do PS, João Paulo Correia.

Na perspetiva do deputado do PS, “Rui Rio quis desviar aquilo que foi o debate desta tarde para uma certa teoria da conspiração”, repudiando e lamentando que “isso tenha acontecido”.

O senhor ministro das Finanças tem feito um trabalho notável ao serviço do país”, defendeu João Paulo Correia, considerando que o líder do PSD quis “desviar a atenção quando o PS meteu o dedo na ferida naquilo que foi a responsabilidade do PSD na resolução do BES”.

/ AG