O bastonário da Ordem dos Médicos entende que o primeiro-ministro “não está a saber aproveitar a nova oportunidade que os portugueses lhe deram” ao manter os mesmos ministros da Saúde e das Finanças.

Em declarações à agência Lusa, o bastonário dos Médicos, Miguel Guimarães, nota que António Costa “manteve os dois principais responsáveis pelo estado da saúde em Portugal”, os ministros das Finanças, Mário Centeno, e da Saúde, Marta Temido.

“Não sei se esta escolha do primeiro-ministro é para ter um Serviço Nacional de Saúde mais forte ou para continuar a ser as Finanças a dominar sobre a saúde dos portugueses. Creio que é a segunda hipótese”, afirmou Miguel Guimarães.

Para o bastonário dos Médicos, a atual ministra, que continua no cargo, “nada fez de significativo” pela saúde em Portugal.

Miguel Guimarães aproveitou para recordar um artigo da revista científica Lancet que refere que a saúde em Portugal precisa de “uma nova oportunidade”.

Marta Temido continuará como ministra da Saúde no novo Governo, depois de em outubro do ano passado ter substituído no cargo Adalberto Campos Fernandes, num ano em que a agitação no setor não diminuiu.

A ministra tinha tomado posse no anterior Governo faz esta terça-feira precisamente um ano.

Ordem dos Enfermeiros espera "mudança no caminho"

A bastonária dos Enfermeiros destaca que a ministra da Saúde hoje reconduzida foi a governante que “apelidou os enfermeiros de criminosos”, mas acredita que há sempre margem para corrigir trajetos e manifesta-se disponível para o diálogo.

Num comentário à continuação de Marta Temido como ministra da Saúde, a bastonária Ana Rita Cavaco disse esperar uma “mudança no caminho e na relação que a ministra, Marta Temido, tem com a classe em si”, e não tanto com a Ordem, recordando que os enfermeiros são a maior classe profissional do Serviço Nacional de Saúde.

A bastonária aludiu ainda a declarações da ministra feitas em dezembro do ano passado, quando, numa entrevista disse ter-se recusado a iniciar conversações com os enfermeiros em greve pois isso seria beneficiar “o criminoso, o infrator”.

Depois desta declaração, a ministra enviou um pedido de desculpas através da própria bastonária.

“Há sempre espaço para as pessoas poderem corrigir trajetos, caminhos e formas de estar”, afirmou à agência Lusa a representante dos enfermeiros.

Ana Rita Cavaco lamenta contudo a “falta de disponibilidade” que Marta Temido foi revelando para com os parceiros profissionais e sociais, mas mostra-se disponível para “dialogar e resolver problemas em conjunto”.

“Da nossa parte podem contar com disponibilidade para o diálogo mas também para continuar a fazer denúncias sempre que houver uma quebra na segurança da prestação de cuidados de enfermagem”, referiu.

A ministra Marta Temido tem tido, ao longo de um ano no executivo, uma relação crispada com a Ordem dos Enfermeiros, à qual determinou a realização de uma sindicância, por exemplo.

Continuidade de Matos Fernandes no Ambiente bem recebida

A manutenção de João Pedro Matos Fernandes como ministro do Ambiente é bem vista por associações ambientalistas, que se interrogam sobre quem vai tutelar a área da energia no próximo Governo, devido à mudança de nome do Ministério.

Matos Fernandes vai de novo ter o cargo de ministro do Ambiente no próximo Governo, uma repetição que nunca até hoje tinha acontecido desde que há um Ministério para o setor. Mas o Ministério do Ambiente e Transição Energética passa agora a chamar-se Ministério do Ambiente e Ação Climática.

Ouvidas pela Lusa, as associações ambientalistas Zero e Quercus entenderam a manutenção como positiva e não criticaram a mudança do nome do ministério, mas perguntam quem vai tutelar a área da energia.

Francisco Ferreira, presidente da Zero, disse à Lusa que considera “merecido” que a “ação climática” fique no Ministério do Ambiente, que conduziu o roteiro para que Portugal seja neutro em carbono em 2050.

Do Ministério saiu também o Plano Nacional de Energia e Clima, lembrou Francisco Ferreira, para acrescentar que se justifica que esse trabalho na área da energia seja continuado no Ministério de Matos Fernandes. “E que tenha relevo, porque estamos numa situação de emergência climática”, disse.

“Esperamos que a energia fique neste novo Ministério, porque grande parte das decisões que interferem com a redução das emissões estão ligadas à política energética”, referiu Francisco Ferreira, concluindo que se assim não for “há o trabalho de um ano que seria perdido”.

Francisco Ferreira disse ainda que o novo Ministério tem “um trabalho acrescido”, de políticas de redução de emissões de gases com efeito de estufa, e louvou a decisão de o Ministério do Ambiente receber a área das Florestas e assumir por inteiro a tutela do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

O ambientalista elogiou ainda o nome de Ricardo Serrão Santos para ministro do Mar, referindo que tem “um percurso científico e de ação na proteção dos oceanos e na salvaguarda das áreas naturais marinhas”. “Esperamos que traga uma visão diferente da economia do mar”, disse.

Maunel Heitor no Ensino Superior tem "desafio" de aumentar financiamento

O presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) manifestou-se satisfeito com a continuidade de Manuel Heitor como ministro do Ensino Superior, mas lembrou o "desafio claro" do "aumento efetivo" do financiamento das instituições.

"É um ministro que criou uma excelente relação com os politécnicos, que conhece o setor por dentro", afirmou à Lusa Pedro Dominguinhos, recordando, porém, o "desafio claro" do "aumento efetivo do financiamento do setor".

Segundo Pedro Dominguinhos, que lidera o Instituto Politécnico de Setúbal, é necessário um "contrato de estabilidade que garanta a previsibilidade do financiamento", para "dotar as instituições de maior capacidade".

O alargamento da formação ao longo da vida, a concessão do grau de doutor e a designação dos politécnicos como universidades são reivindicações que o CCISP espera ver concretizadas.

"Temos expectativas positivas, mas muito exigentes e colaborantes", assinalou Pedro Dominguinhos.

 

Sindicato do Ensino Superior diz que recondução de ministro é "desilusão para milhares de pessoas"

O Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup) disse que a recondução do ministro Manuel Heitor foi uma “desilusão para milhares de pessoas” porque significa a “continuidade de problemas” como a precariedade e o envelhecimento de professores e investigadores.

Depois de um mandato de quatro anos, o professor catedrático do Instituto Superior Técnico Manuel Heitor volta a assumir as pastas da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior no novo Governo socialista de António Costa.

Para o presidente do SNESup, Gonçalo Velho, esta recondução é a “continuidade de um conjunto de problemas que vêm do passado”, nomeadamente a precariedade laboral, o envelhecimento de professores e investigadores e as questões remuneratórias.

Este é um ministro que já conhecemos e por isso não são esperadas grandes mudanças”, lamentou, em declarações à Lusa, lembrando ainda a instabilidade profissional em que continuam a trabalhar os professores convidados e o “falhado” processo de regularização dos vínculos precários (PREVPAP).

Gonçalo Velho disse também estar “apreensivo quanto à escolha do secretário de estado”, desejando uma mudança.

No anterior mandato, Manuel Heitor enfrentou a contestação dos cientistas precários e seniores por falta de perspetivas de carreira, recebeu reclamações de investigadores e bolseiros devido aos atrasos nos concursos de contratação, mas também ouviu queixas dos reitores que criticaram o subfinanciamento nas universidades.

Patrões satisfeitos com novo executivo e subida de Siza Vieira a 'número 2'

Os patrões mostraram-se esta quarta-feira satisfeitos com o novo elenco governativo apresentado pelo primeiro-ministro, António Costa, destacando, pela positiva, a passagem “a número dois” do ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, e elogiaram a melhoria das previsões macroeconómicas.

À saída da reunião de Comissão Permanente de Concertação Social de preparação para o Conselho Europeu que arranca na quinta-feira em Bruxelas, o presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), João Vieira Lopes, destacou a “maior aposta na Economia e menos no Orçamento”, com a passagem de Siza Vieira a “número dois”.

Pedro Siza Vieira será um dos quatro ministros de Estado, juntamente com Augusto Santos Silva, Mariana Vieira da Silva e Mário Centeno, mantendo responsabilidades na Economia e assumindo a área da Transição Digital.

O presidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, considerou que "é um sinal positivo que o Governo reforce o peso da Economia e o papel do ministro da Economia [no novo Governo]".

O presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Luís Mira, manifestou confiança no nome escolhido para nova ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque, mas reconheceu que não terá uma tarefa fácil num contexto de “plena negociação da reforma agrícola comum”.

O presidente da Confederação do Turismo de Portugal, Francisco Calheiros, por sua vez, disse que "mais do que rostos" é preciso olhar para as políticas, mas manifestou confiança no trabalho do ministro Siza Vieira na próxima legislatura e também da nova ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho, anterior secretária de Estado do Turismo.

António Saraiva destacou a melhoria das previsões macroeconómicas apresentadas no Projeto de Plano Orçamental para 2020, que o executivo enviou na terça-feira à Comissão Europeia e onde no qual manteve a previsão de crescimento económico de 1,9% para este ano e melhorou em uma décima a projeção para o próximo ano, para 2%.

Temos que ser ambiciosos e colocar sempre mais ambição no cumprimento dos objetivos”, disse Saraiva aos jornalistas no final da reunião de Concertação Social, destacando o caminho de recuperação e correção das contas públicas.

Se contas públicas não apresentarem credibilidade depois as agências de notação penalizam-nos. Efetivamente, as contas públicas caminham no sentido da correção dos desequilíbrios”, disse ainda o responsável da CIP, sublinhando que o país não se pode contentar em estar na média europeia.

Para a secretária-geral adjunta da UGT, Ana Paula Bernardo, as revisões em alta apresentadas pelo Governo “são obviamente acolhidas positivamente” pela estrutura, que espera agora uma melhoria do rendimento dos trabalhadores, incluindo do salário mínimo que espera em breve poder negociar com o Governo.

Na mesma linha, o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, destacou que o objetivo de alcançar o défice zero deverá apresentar-se como uma oportunidade para dar prioridade à melhoria dos rendimentos dos trabalhadores.

Para o sindicalista, a economia cresceu e “não foi só por causa das exportações", mas "porque houve um significativo aumento da procura interna”.

Uma ligeira melhoria originou mais emprego, mais empresas e melhor economia está aqui a solução”, disse.