O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, acusou este domingo o Governo de “abertura” aos “propósitos usurpadores” do grande capital, que “já se organizou para tirar o máximo proveito dos fundos europeus” do Programa de Recuperação e Resiliência.

Numa intervenção na cerimónia de apresentação dos candidatos da CDU às eleições autárquicas em Valongo, no distrito do Porto, o dirigente comunista expressou a preocupação do partido com a gestão dos fundos da ‘bazuca’ europeia.

Há muitos anúncios à volta do Programa de Recuperação e Resiliência, batizado de bazuca, mas não só a concretização tarda, como está cada vez mais dirigida para o sítio errado, para os negócios, para os projetos do grande capital e para os grupos económicos”, disse.

Apontando o dedo aos decisores políticos europeus, Jerónimo de Sousa alertou que “as opções determinadas pelas grandes potências que estão por detrás do tal dito plano mais fazem temer que uma parte importante desses recursos, mas também do quadro financeiro plurianual, constituam, sobretudo, uma transferência dos fundos públicos para alimentar os lucros dos grupos nacionais e estrangeiros que em Portugal são também financiados por essa via”.

São uma preocupação as cedências ao grande capital, que se organizou já para tirar o máximo proveito dos fundos e que da parte do Governo do PS tem uma cada vez maior abertura aos seus propósitos usurpadores”, criticou o secretário-geral do PCP.

Defendendo a aplicação dos fundos através de uma “política integrada que vise o desenvolvimento geral do país e de cada uma das regiões”, o dirigente apelou para que o processo “contribua para a reconstrução do aparelho produtivo nacional, para a criação do emprego”, assim diminuindo a dependência externa e aumentando a dimensão do investimento público.

Para Jerónimo de Sousa, Portugal poderia ir “mais longe nos apoios sociais ao conjunto dos setores afetados” pela pandemia de covid-19, bem como no apoio ao investimento, para uma melhoria dos serviços públicos e para dinamizar a economia.

Precisamos de recuperar o país, recuperar no plano nacional, na economia, nos domínios da saúde, da educação, da cultura, nos mais variados setores”, reiterou o dirigente comunista.

Na área da Saúde, continuou, “tardam medidas da parte do Governo há muito identificadas, de reforço do Serviço Nacional de Saúde (SNS), numa altura em que, além da resposta necessária a todos aqueles que testam positivo à covid-19, se mantêm dificuldades no atendimento de utentes com outras patologias”.

O comunista considerou também ser cada vez mais necessário preparar o serviço público para responder às implicações futuras na saúde e qualidade de vida de uma parte daqueles que testaram positivo à covid-19.

A solução não passa, como alguns sugerem, dar como alternativa aos utentes em lista de espera a prestação de cuidados nas unidades dos grupos económicos de saúde, mas por garantir no SNS o reforço de profissionais, com a valorização das carreiras, dos salários, e dotar as suas unidades com os equipamentos em falta”, insistiu, antes de assinalar a “grande lição e ensinamento” retirada em tempo de pandemia.

“Não fora, porventura, o SNS, com as suas debilidades e fragilidades a fazê-lo e nunca seria o setor privado a resolver este combate à epidemia. Foi o SNS, foram os seus profissionais que o defenderam”, enfatizou.

Jerónimo de Sousa expressou-se ainda preocupado por a menos de um mês do início do ano letivo - e “quando era desejável que o Governo apresentasse soluções eficazes para que a escola reúna as condições necessárias […] após um período longo de ensino à distância” - o regresso às aulas acontecer “com menos três mil professores e menos milhares de outros técnicos e assistentes operacionais”.

/ JGR