Jerónimo de Sousa foi reeleito, neste domingo, secretário-geral do PCP, pelo comité central reunido no XXI congresso nacional do partido, em Loures.

Trata-se da quinta eleição de Jerónimo de Sousa, com apenas um voto contra, sendo que o próprio também entendeu "não votar" na sua candidatura.

Esta é a primeira vez, em todas as eleições, que Jerónimo de Sousa recebe um voto contra do Comité Central.

Escolhido pela primeira vez em 2004, Jerónimo foi reeleito por quatro vezes para liderar os comunistas, sucedendo a Carlos Carvalhas, que esteve no cargo 12 anos, de 1992 a 2004.

Em 2004 foi eleito por maioria, com quatro abstenções, nas três reeleições (2008, 2012, 2016) teve apenas uma abstenção.

Operário e deputado à Constituinte, em 1975, Jerónimo de Sousa, 73 anos, torna-se assim no segundo secretário-geral há mais tempo à frente do partido (16 anos), depois do líder histórico do PCP Álvaro Cunhal (31 anos).

Candidato presidencial João Ferreira sobe à Comissão Política

O candidato presidencial João Ferreira é um dos cinco novos nomes da Comissão Política do PCP, órgão que foi eleito por maioria com apenas uma abstenção, e do qual sai Carlos Gonçalves.

Para a Comissão Política do PCP, que passou de 21 para 24 elementos, além de João Ferreira, entram Belmiro Magalhães, Carina Castro, Paulo Raimundo e Ricardo Costa, saindo deste órgão executivo Carlos Gonçalves e Margarida Botelho.

Em relação ao anterior congresso de 2016, que se realizou em Almada, Margarida Botelho é o único novo nome entre os dez membros do Secretariado do Comité Central do PCP, do qual sai a histórica Luísa Araújo.

Acumulam a sua presença na Comissão Política e no Secretariado, além do secretário-geral Jerónimo de Sousa, Francisco Lopes, Jorge Cordeiro, José Capucho e, agora, na sequência deste congresso, Paulo Raimundo.

Tal como o Secretariado, também a nova Comissão Central de Controlo do PCP, que aumentou de sete para nove membros, foi eleita por unanimidade, registando-se a entrada do antigo deputado Agostinho Lopes e de Carlos Gonçalves, este último que cessou funções na Comissão Política do partido.

Entram igualmente para a Comissão Central de Controlo do PCP Francisco Melo, Luís Fernandes e Luísa Araújo, registando-se as saídas de Alice Carregosa, Maria Manuela Bernardino e de Raimundo Cabral.

Lista completa dos órgãos eleitos

Comissão Política do Comité Central

Ângelo Alves

Armindo Miranda

Belmiro Magalhães

Carina Castro

Fernanda Mateus

Francisco Lopes

Gonçalo Oliveira

Jaime Toga

Jerónimo de Sousa

João Dias Coelho

João Ferreira

João Frazão

João Oliveira

Jorge Cordeiro

Jorge Pires

José Capucho

Manuel Rodrigues

Octávio Augusto

Patrícia Machado

Paulo Raimundo

Ricardo Costa

Rui Fernandes

Vasco Cardoso

Vladimiro Vale

Secretariado do Comité Central

Alexandre Araújo

Francisco Lopes

Jerónimo de Sousa

Jorge Cordeiro

José Capucho

Manuela Pinto Ângelo

Margarida Botelho

Paulo Raimundo

Pedro Guerreiro

Rui Braga

Comissão Central de Controlo

Agostinho Lopes

Albano Nunes

Armando Morais

Carlos Gonçalves

Francisco Melo

José Augusto Esteves

Luís Fernandes

Luísa Araújo

Rosa Rabiais

Jerónimo, o líder-operário que sorri

Jerónimo de Sousa, o antigo operário que sorri e gosta de ditados populares, assinou o primeiro acordo político à esquerda em Portugal, e é o secretário-geral do PCP há mais tempo na liderança depois do histórico Álvaro Cunhal.

Aos 73 anos, Jerónimo de Sousa, eleito secretário-geral para um quinto mandato, passou os últimos 16 anos à frente dos comunistas portugueses (só superado pelos 31 de Cunhal), viu vitórias e derrotas nas eleições e protagonizou um feito único na história do partido em Portugal – um acordo à esquerda, com PS, BE e PEV, que permitiu afastar a direita (PSD/CDS) do governo e apoiar, com base em “posições conjuntas”, um governo minoritário liderado pelo socialista António Costa.

Nesta história, coube a Jerónimo uma declaração-chave da noite eleitoral de 6 de outubro de 2015, quando PSD e CDS ganharam as eleições, mas a esquerda ficou em maioria no Parlamento, ao dizer: "Com este quadro, o PS tem condições para formar Governo, mas têm de perguntar ao PS.”

Seguiu-se um mês de negociações com António Costa para estabelecer a inédita e histórica posição bilateral conjunta, à semelhança de BE e “Os Verdes”, a denominada “geringonça”, a que os comunistas chamavam a “nova fase da vida política nacional”. Durou quatro anos (uma legislatura inteira), tempo em que o PCP não escondeu as suas divergências com o PS, apesar de ter viabilizado quatro orçamentos do estado.

Mas nestes 16 anos de liderança, se houve êxitos (ser o terceiro partido mais votado nas eleições gerais de 2005), também registou fracassos.

Em termos eleitorais, as últimas legislativas, em 2019, ditaram o pior resultado de sempre em percentagem e votos para a Coligação Democrática Unitária (CDU), recuando para os mesmos 12 deputados de 2002.

E nas autárquicas, em 2017, a coligação dos comunistas perdeu votos e dez câmaras municipais, incluindo a emblemática Almada (Setúbal), para o PS. Nas europeias, de novo “um recuo”, como se lhe referem os comunistas: 6,8% com João Ferreira, que agora é candidato às presidenciais de 24 de janeiro de 2021.

As legislativas, em que a CDU caiu de 17 para 12 deputados, com menos dois pontos percentuais do que em 2015, passaram a “velha” a “nova fase da vida política nacional”, como os comunistas chamam ao período da “geringonça”.

O PS não quis acordo, apesar da maioria de esquerda no Parlamento, mas o PCP e Jerónimo foram pondo distâncias aos socialistas.

A pandemia de covid-19, declarada em março, abriu uma crise sanitária e “fechou” o país por várias semanas e, depois de dois meses de tréguas políticas, da direita à esquerda, a crise social e económica voltou a abrir divergências entre os dois ex-parceiros com o voto contra da bancada do PCP no Orçamento Suplementar, viabilizado pela abstenção do PSD. E foi isso que Jerónimo admitiu numa entrevista à Lusa, embora tenha negociado o apoio ao orçamento de 2021 com o PS e o Governo.

Antigo afinador de máquinas numa empresa metalúrgica e dirigente sindical, Jerónimo Carvalho de Sousa, nasceu em 13 de abril de 1947, criado pela mãe biológica, Olímpia Jorge Carvalho, e seu marido António de Sousa. Sempre viveu em Pirescoxe, Santa Iria de Azóia, Loures.

Batizado pela Igreja Católica e com o quarto ano do antigo curso industrial, ao mesmo tempo que trabalhava (desde os 14 anos de idade), após ser um dos mais assíduos às passagens da carrinha-biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian, Jerónimo casou-se aos 19 anos com Ovídia e é pai de duas filhas, Marília e Lina.

O futuro líder comunista ajudou a fundar e dirigir Associação Cultural e Desportiva local em Pirescoxe e ainda hoje exerce o seu direito de voto, sob numerosos lentes e flashes, no Grupo Desportivo da terra, aproveitando para jogar às cartas e conviver com velhos amigos dos tempos de teatro e dança na coletividade 1.º de Agosto de Santa Iria.

Entre 1969 e 1971, o secretário-geral do PCP, benfiquista e fã da banda inglesa The Beatles, cumpriu o serviço militar, com uma incursão ao difícil cenário da guerra colonial na Guiné-Bissau.

Logo em 1975, um ano depois de ter aderido ao PCP, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte e continua, hoje em dia, como deputado na Assembleia da República. Dos primeiros tempos em São Bento, recorda como dava uma visão “do mundo do trabalho” a quem escrevia a Constituição.

Jerónimo foi eleito para o Comité Central do PCP no IX Congresso Nacional (1979) e integrou a Comissão Política comunista desde o XIV Congresso (1992).

Candidato à Presidência da República em 1996 e 2006, foi eleito líder comunista no XVII Congresso Nacional (2004), em Almada, sucedendo a Carvalhas, o escolhido para substituir o histórico Álvaro Cunhal, em 1992.

Além de hoje, foi reeleito em 2008 (Lisboa), 2012 (em Almada) e 2016 (Lisboa), cenário que esteve em dúvida durante o último ano.

Se em 2019, numa entrevista à Lusa, admitiu poder sair, neste congresso, pelas “leis da vida”, há pouco menos de uma semana pôs a hipótese contrária. “Pelas leis da vida, eu tenho-me aguentado bem.” Com um sorriso.

E afirmou que ainda não tem vontade de para escrever um livro de memórias: “Continuo a pensar que meu futuro, seja como secretário-geral seja membro do comité central ou militante, o meu futuro é ainda a olhar para frente. Continuo com mais projeto do que memória”, afirmou, uma semana antes do congresso.

João Morais do Carmo / com Lusa