O primeiro-ministro defendeu esta noite, no Jornal das 8 da TVI, que o Governo fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar um novo confinamento geral, admitindo que as medidas menos restritivas no Natal geraram, consequentemente, comportamentos menos restritivos.

Acho que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para evitarmos esta situação. Quando vários países tiveram confinamentos logo em setembro e outubro, conseguimos resistir, conseguimos durante muitas semanas controlar a segunda onda através dos confinamentos sobretudo ao fim de semana", garantiu António Costa, na primeira entrevista depois do anúncio das novas medidas restritivas e a poucas horas da entrada em vigor do confinamento geral.

O primeiro-ministro não disse que voltaria atrás se pudesse na decisão de aliviar as restrições no Natal, mas admitiu que as medidas menos restritivas levaram as pessoas a ter "comportamentos menos restritivos".

Quando decretámos o primeiro estado de emergência tinha falecido uma pessoa em Portugal. Hoje, números de ontem, faleceram 148 pessoas. E o ambiente geral hoje é de menor receio do que tínhamos no início e isso determina muitos dos comportamentos", observou.

"As pessoas teriam cumprido mais?", questionou António Costa, sobre a possibilidade de ter imposto medidas restritivas no Natal, como as que foram aplicadas em alguns países europeus, de que, exemplificou, não poderia haver mais de cinco pessoas sentadas à mesa.

O primeiro-ministro diz que se vive, presentemente, um "equilíbrio no fio da navalha", porque sempre que são aligeiradas as medidas "aumenta a pandemia" e quando se restringem "a economia é atacada duramente".

Temos sempre de privilegiar a situação sanitária. E a mensagem que temos de passar é a de que 'temos mesmo de fechar'. Chegámos a este ponto e agora temos mesmo de ficar em casa."

Se o ponto que os números da situação epidemiológica atingiram nos últimos dias, com uma média de 10.000 casos diário e 150 mortos, foram decisivos para determinar o novo confinamento, o mesmo não se pode dizer do contrário. 

"Nunca fixámos a fasquia [para desconfinar]. E essa fasquia tem sido evolutiva. Porque é que agora podemos viver com números que não podíamos em março? Porque hoje há máscaras, há gel, há maior distanciamento, porque sabemos mais, porque o SNS tem maior capacidade", afirmou.

O que sabemos é: temos de quebrar radicalmente esta curva que está em crescimento exponencial, temos de atingir rapidamente o pico, fazê-lo descer para números seguros. As medidas têm de ser reavaliadas a cada 15 dias e seria muito imprudente criar a ilusão aos portugueses que em menos de um mês podemos voltar ao ponto em que estávamos antes destas medidas. Seguramente um mês vamos precisar de estar neste regime", garantiu.

"Raiz desta crise está na saúde, não está na economia"

António Costa lembrou que "a raiz desta crise está na saúde, não está na economia" e que, por isso mesmo, "ninguém pode ter a ilusão de que se vai passar por esta pandemia só com danos na saúde e nas vidas".

Vai ter um impacto muito grande na economia e no emprego. Antes de 2022 não regressaremos ao ponto em que estávamos em 2019, o que significa três anos perdidos", lamentou.

No entanto, o enquadramento desta crise permite encarar com "confiança" a retoma económica, apesar de estarmos a viver "há largos meses uma crise económica muitíssimo profunda e sem paralelo".

Chegámos a esta crise melhor do que chegámos à crise anterior, porque tínhamos uma situação de excedente orçamental, recuperámos os recursos da Segurança Social e desta vez a União Europeia reagiu mais cedo", defendeu António Costa, lembrando, ainda, a "histórica" emissão de dívida a dez anos, alcançada no dia de ontem, com juros negativos.

E, "felizmente", sublinhou, as "empresas portuguesas têm mostrado muito maior resiliência do que aquilo que se temia no início desta crise".

No entanto, segundo estimativas do Governo, o PIB caiu 15 mil milhões de euros e o conjunto das medidas de apoio às empresas e famílias chegam aos 22,9 mil milhões de euros, mais do que Portugal vai receber de ajuda da União Europeia.

"Estamos perante uma crise muito dura, em relação à qual tem havido felizmente maior resiliência", reiterou.

Face à situação atual, de um agravamento da economia, António Costa disse que "um dos grandes objetivos da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia é conseguir pôr neste semestre a famosa bazuca a disparar, ou seja, o dinheiro a chegar efetivamente aos diferentes Estados-membros".

Catarina Machado