O frente a frente entre Ana Gomes e Vitorino Silva serviu para colocar a conversa sobre o Partido Socialista - ela enquanto atual militante, ele como antigo militante. Houve ainda tempo para compreender António Costa e Marcelo na gestão da pandemia, analisar o contributo da geringonça e discutir um possível adiamento das eleições.

O debate começou com Ana Gomes a esclarecer, mais uma vez, que não tem nada contra a aplicação do estado de emergência, considera-o até necessário, mas insiste na "cobertura legal" do mesmo e apelou à criação de uma lei de emergência nacional. 

Eu não tenho nada contra as medidas, antes pelo contrário, eu apoio as medidas e respeito-as. (...) Eu tenho criticado o estado de emergência porque não considero que se possa banalizar a cobertura legal, o arco legal, para essas mesmas medidas. Já houve mais do que tempo para que fosse feita uma lei de emergência sanitária". 

No dia em que Portugal regista mais de 10.000 casos diários, a socialista admite a possibilidade de um novo confinamento geral e disse que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa têm de assegurar que o país aguenta 'fechar' novamente.

Na mesma linha, Vitorino Silva defendeu que devia existir "mais pulso" por parte do Governo e que "faz sentido fechar as pessoas todas em casa". Foi neste ponto que o candidato meteu em cima da mesa a hipótese de um adiamento das eleições.

Adiar eleições? Vitorino fala em "atentado", Ana Gomes admite que questão podia ter sido ser levantada 

O candidato presidencial de Rans afirmou que as eleições presidenciais, marcadas para dia 24 de janeiro, deveriam ter sido adiadas e equiparou-as a um atentado.

O maior atentado que se pode fazer é marcar as eleições para janeiro. Sejam responsáveis, tenham coragem".

Acredita que o nível de abstenção vai ser muito maior do que os anos anteriores, porque muitos idosos vão ter receio de ir votar: "Se o nosso grande adversário é a abstenção, se os idosos são quem mais votam, porque é que marcaram as eleições em janeiro?".

Mais cuidadosa, Ana Gomes não deixou de admitir que a questão é relevante, mas que deveria ter sido levantada mais cedo e não agora.

Neste momento, se calhar essa questão poderia ter-se posto antes. Até porque, de facto, o anúncio das eleições foi tão tardio (...), mas é muito difícil a tomada de decisão por parte das autoridades".

A diplomata referiu ainda que gostava que a Assembleia da República tivesse agilizado medidas mais "de fundo" para facilitar, por exemplo, o voto por correspondência dos emigrantes. 

"Não me importo de ser o último português" a tomar a vacina contra a covid-19

Vitorino Silva deixou claro que não tem medo de tomar a vacina contra a covid-19, mas garantiu que nunca se vai "colocar em bicos de pés" para o fazer.

Não tenho medo. Uma pessoa tem de acreditar na ciência. Eu quero ser Presidente da República, eu tenho de acreditar na ciência, porque a ciência está à frente dos políticos". 

Admitiu que foi mais fácil conseguir assinaturas em tempo de pandemia, porque as pessoas reconheciam a sua voz. Foi nesta intervenção que Ana Gomes interrompeu para dizer que "tem pena" que Vitorino tivesse saído do PS.

O Vitorino é um lutador pela democracia e eu penso que estas lutas pela democracia têm que se fazer nos partidos". Tino reiterou que ia "lutar pelo voto de Guterres"

Geringonça? Tino diz que "é tudo farelo do mesmo saco", Ana Gomes deixa elogios

Um dos pontos onde os dois candidatos discordaram foi na origem da chamada geringonça. Tino afirmou que já sabia que um dia a direita iria querer fazer o mesmo que a esquerda fez e que as pessoas, nessa altura, iriam dizer que era "tudo farelo do mesmo saco"

Há muitos políticos que fazem política ao sabor da marés e eu respeito todas as marés, mas eu, pessoalmente, não concordei nem com um, nem com outro", disse Vitorino a propósito da solução governativa do país e a mais recente nos Açores. 

Com uma visão oposta, Ana Gomes relembrou que apoiou a geringonça desde o primeiro momento e considera que foi um solução governativa "que fez bem ao país"

Era o que nos dizia o Governo de Passos Coelho é que não havia alternativa. Eram aquelas medidas horríveis: cortavam os salários, cortavam as pensões, aumentavam os impostos e não havia alternativa. E é evidente que há sempre alternativa. A geringonça demonstrou que havia alternativa". 

A socialista disse ainda que a bazuca europeia é uma "oportunidade extraordinária" para Portugal se reorganizar e aplicar bem os fundos europeus.

Já no final do debate, o candidato apoiado pelo RIR elegeu o combate à violência doméstica como a sua “grande causa” e Ana Gomes aproveitou a deixa afirmando que essa é “justamente uma das questões em que uma mulher na presidência da República vai fazer uma grande diferença”.

Cláudia Évora