A polémica em torno do pedido de exoneração do Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), almirante Mendes Calado, e a nomeação do vice-almirante Gouveia e Melo para o cargo foi um dos temas que marcou a atualidade política, esta semana.

Ângelo Correia, antigo ministro da Administração Interna e coordenador da área de Defesa no Conselho Estratégico da Área Nacional do PSD, recordou que, em fevereiro, o Governo quis propôr para o CEMA Gouveia e Melo, mas, segundo o social-democrata, não o fez devido ao facto de o vice-almirante ter estado prestes a começar a chefiar a task-force para a vacinação da covid-19. Por isso, o executivo do Partido Socialista convidou o almirante Mendes Calado para o cargo, mas sublinhou que não era para ficar até ao final do mandato. 

A nomeação do almirante Calado tinha uma característica prática: ele sabia que não ia ficar o mandato todo e aceitou isso. E sabia, não explícita, mas implicitamente, que isso tinha a ver com o facto de que o candidato do Governo era o senhor Gouveia e Melo, mas que este não podia ir”, contou. 

O político lembrou ainda um episódio em que Mendes Calado não ficou bem visto entre as chefias da Armada portuguesa por ter mandado fazer um campo de golfe no Alfeite, ao contrário daquilo que se esperava, que era um “ressurgimento da base” do Alfeite.

Eu julgo que, nestes casos de mudanças de Chefe de Estado Maior, há conversas longas, profundas e íntimas entre o senhor Presidente da República e o primeiro-ministro. Ou seja, eu penso que houve acordo entre o Presidente da República e o senhor primeiro-ministro sobre quem poderia substituir quem, mas nunca foi dito quando é que isso se ia fazer”, explicou. 

Quando o ministro da Defesa convoca o CEMA para lhe explicar que ia ser substituído, Marcelo Rebelo de Sousa não terá tido conhecimento de que essa reunião ia acontecer nesse dia, revelou Ângelo Correia.

Houve uma falha importante do Governo do Partido Socialista. Podiam ter articulado o nome do substituto, mas o momento da substituição era muito importante. Será que o ministro da Defesa veio comunicar para os jornais que ia fazer isso? Não acredito”, frisou o social-democrata.

Ângelo Correia defendeu ainda a posição do líder do PSD, Rui Rio, que defendeu a demissão, não do ministro da Defesa, mas sim do responsável por trazer o assunto a público. “A posição do doutor Rui Rio é a mais séria, a mais honesta e a menos demagógica”, explicou.

A lei obriga a que, quando o CEMA vai ser alterado, o ministro da Defesa ouça o Conselho Superior do Ramo, neste caso o do Almirantado, para que se saiba a opinião do Conselho. 

Neste caminho todo, são várias as fontes, porque o percurso é grande. Por isso, a posição do doutor Rui Rio é a mais honesta. Nós temos de acusar o Governo por não ter informado o Presidente da República que, nesse dia, ia fazer a démarche”, destacou.

Ângelo Correia diz ainda que a “questão básica” é a instrumentalização do nome do vice-almirante Gouveia e Melo, que viu o seu nome “misturado” com uma confusão “do qual ele não tem nada a ver”. Sobre se a escolha do antigo líder da task-force da vacinação contra a covid-19 deverá ir mesmo para a frente, Correia foi inequívoco: “só falta escolher a data”. No entanto, defende que devemos “proteger a face” do Presidente da República e não nos precipitarmos na nomeação do CEMA, correndo o risco de os portugueses ficarem a pensar que Marcelo Rebelo de Sousa fez “um teatro para português ver”.

Quanto tempo podemos esperar? (...) se eu fosse decisor político, no limite de outubro, princípio de novembro seria quando eu faria isto”, revelou.