A SOS Racismo acusou, esta quarta-feira, o primeiro-ministro de reduzir “a luta antirracista e as suas reivindicações” e de, em simultâneo, desvalorizar e subestimar o “crescimento dos ideários do nacionalismo colonial”, após as declarações de António Costa ao jornal Público, onde considerou estar a criar-se “uma fratura perigosa” na sociedade portuguesa.

De acordo com o comunicado enviado às redações, a organização sugere que a principal preocupação do primeiro-ministro em proteger a “identidade e a imagem de Portugal” colaboram para “os fantasmas e as divisões que têm desviado a atenção do essencial” e têm feito crescer “a antagonia para com o movimento antirracista”.

A principal preocupação do PM António Costa, parece recair na ameaça que o processo de disputa e pluralização das narrativas sobre o período colonial coloca à “identidade” e à imagem de Portugal, na sua “relação com o mundo”, em particular o ‘mundo Lusófono’.”, pode ler-se no documento.

O movimento queixa-se ainda daquilo a que chama uma “tentativa concertada” de reduzir as reivindicações antirracistas à intenção de agredir e destruir património ou a memória de protagonistas da história cultura nacional. Para o SOS Racismo, as palavras do primeiro ministro validam essa narrativa.

A mensagem deixada pelo PM de algum modo valida estas ameaças e preocupações como legítimas, parecendo reafirmar a necessidade de manter defendida a identidade nacional, com base numa imagem impoluta do colonialismo português, mesmo que tal implique fabricar ou amputar a história”, refere o comunicado.

A organização questiona o comprometimento de António Costa para com a “desconstrução dos imaginários” que continuam a “criminalizar e a inferiorizar” as vítimas do colonialismo.  

É ainda feita uma referência à vez que o primeiro-ministro foi interpelado pela então líder do CDS, Assunção Cristas, acerca dos acontecimentos no bairro da Jamaica, onde António Costa perguntou à centrista se a sua pergunta se deveu à cor da sua pele.

O PM não deixou de deduzir a existência de racismo na forma como foi interpelado a 25 de janeiro 2019, pela então líder do CDS, num debate na Assembleia da República sobre os acontecimentos do bairro da Jamaica, perguntando-lhe: “deve ser pela cor da minha pele que me pergunta?”. Acreditará o PM que a sua experiência enquanto “pessoa de origem indiana”, pese embora a sua pertença a uma elite, com posição na esfera do poder financeiro, partidário e governativo, lhe permite deduzir o racismo que “existe ou não existe na sociedade portuguesa”?”

Recorde-se que, na entrevista ao Público, António Costa falou sobre o debate aceso entre elementos de extrema-direita e das plataformas antirracistas sobre o passado colonial de Portugal. O primeiro-ministro destacou o reconhecimento e a estabilidade das políticas de acolhimento e lembrou que o país não se resume aos extremos.

Temos, quer em matéria de política de imigração, quer de refugiados, um historial continuado que tem resistido a todas as mudanças de Governo e que, com pequenas derivas, foi sempre mantido como consensual. E nem André Ventura nem Mamadou Ba representam aquilo que é o sentimento da generalidade do país. Felizmente! Nem André Ventura nem Mamadou Ba representam aquilo que é o sentimento generalizado do país", concluiu.

O SOS Racismo conclui o comunicado a sublinhar que a estratégia de “isolar o antirracismo ou de o equiparar ao fascismo” poderá resultar num reforço do racismo e na sua banalização.

O Racismo não passa a existir porque falamos nele. O PM devia sabê-lo”, frisa o comunicado.