O primeiro-ministro considerou, esta segunda-feira que Portugal está "seguramente chocado com o desplante" de Joe Berardo, quando foi ouvido na Assembleia da República, e disse esperar que o empresário pague "o que deve" à Caixa Geral de Depósitos.

Eu acho que o país está seguramente todo chocado pelo desplante com que o senhor Joe Berardo respondeu na semana passada nesta Assembleia da República", disse António Costa no debate quinzenal que decorre esta tarde no parlamento.

Em resposta à líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, o primeiro-ministro salientou que "a atual gestão da Caixa, nomeada por este Governo, acionou o senhor Joe Berardo para pagar à Caixa o que deve à Caixa".

E aquilo que tenho a desejar é que, naturalmente, a justiça funcione e que o que é devido seja obviamente pago, porque não há nenhuma razão para que a Caixa Geral de Depósitos [CGD] perdoe qualquer tipo de crédito, designadamente não perdoe créditos a quem tem a obrigação estrita de os pagar", notou.

Na opinião de Catarina Martins, o banco foi "completamente irresponsável" neste caso.

A bloquista falou também num "esquema" por parte de Joe Berardo, que incluiu "manobras, trafulhice e prejuízos para o Estado".

O empresário madeirense foi ouvido no parlamento na sexta-feira, onde disse que é "claro" que não tem dívidas, e confirmou que a garantia que os bancos têm é da Associação Coleção Berardo, e não das obras de arte.

Joe Berardo esclareceu que a garantia dada à CGD são os títulos da Associação Coleção Berardo e não das obras de arte em si.

CDU critica “escândalo” da “desfaçatez” de Berardo

O secretário-geral do PCP criticou o "escândalo" da "desfaçatez" do empresário Joe Berardo, apontando à promiscuidade entre poder político e poder económico como raiz do problema da corrupção e perda de milhões de euros do erário público.

Camaradas, veja-se esse escândalo do Berardo e da sua desfaçatez, que mais não é do que a ponta do icebergue que esconde esse problema maior que mina a sociedade portuguesa e tem origem na promiscuidade entre poder político e poder económico, com o que significa de lastro para a corrupção e justificação para drenar milhares de milhões para a banca e seus negócios obscuros", disse Jerónimo de Sousa.

O líder comunista discursava perante uma plateia de mulheres num jantar de campanha eleitoral europeia, que juntou mais de 400 pessoas nos dois salões da Casa do Alentejo em Lisboa.

Ouvimos muito falar em transparência. Andam aí a duvidar dos políticos e dos partidos. Se esses senhores da transparência estão tão empenhados, procurem aprofundar estes mecanismos, este negócio de milhares de milhões que são roubados ao nosso país e a outros, e travar esta corrupção e confusão entre poder político e poder económico. Querem transparência, combate à fraude e evasão fiscais, então vão lá ao sítio saber como isso se contraria, como se vence", afirmou.

Berardo “não caiu do céu” e “não foi invenção de si próprio”

O cabeça de lista do PSD às europeias, Paulo Rangel, defendeu que o empresário Joe Berardo “não foi uma invenção de si próprio”, mas de uma conjuntura em que “havia um Governo que queria controlar a banca”.

Nós não queremos mais ‘Berardos’ em Portugal”, defendeu Paulo Rangel, num comício em Santa Maria da Feira (Aveiro), em que defendeu a importância da reforma da união bancária e da união económica e monetária na União Europeia.

Na sua intervenção, Paulo Rangel afirmou que personalidades como o comendador Joe Berardo existiram em Portugal “para que a Caixa Geral de Depósitos assaltasse o BCP, e a Caixa e o BCP ficassem nas mãos de gente próxima do Governo socialista de José Sócrates”.

É que Berardo não caiu do céu, Joe Berardo não é uma invenção de si próprio. É uma invenção de uma conjuntura político-económica em que havia um governo que queria controlar a banca e o usou a ele”, acusou.

Agora dizem que é um produto tóxico, mas quando foi instrumental para tomar conta do BCP, o produto não era tóxico. Estava muito bem e nessa altura estavam ministros que ainda hoje estão no Governo de António Costa”, acrescentou.

Críticas e ironias em jantar de campanha do CDS

O empresário Joe Berardo foi esta noite “convidado” ausente do jantar de campanha europeia do CDS, onde foi alvo de críticas e ironias do “número um” da lista, Nuno Melo, e da vice do partido Cecília Meireles.

Três dias depois de ter dito, a rir, na comissão de inquérito à CGD, no parlamento, que não tinha dívidas, Cecília Meireles, uma das deputadas que interrogou Berardo, afirmou que aquelas afirmações são “uma desfaçatez completa” e “um desrespeito pelos portugueses”.

O empresário Berardo foi ainda utilizado pela deputada do CDS para tentar desmontar uma das heranças reclamadas pela “geringonça” (o Governo do PS com o apoio das “esquerdas encostadas”), ou seja resolver “os problemas da banca” e “pôr muito dinheiro dos impostos de todos” nos bancos.

E, tal como Nuno Melo já fizera, apontou ao ex-primeiro-ministro José Sócrates, que o CDS culpa pela “bancarrota do país” em 2011, à frente de um Governo do PS, em que o atual chefe do executivo participou.

Na origem dos problemas da banca e dos bancos lá encontramos a herança do ex-primeiro-minstro José Sócrates”, afirmou, acrescentando que os “créditos mais problemáticos” para a Caixa foram feitos nos anos em que o Governo era chefiado por Sócrates.

Se a coleção Berardo está hoje exposta no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, deve-se a “um protocolo com o Estado”, assinado nos tempos de Governo do PS.

Lá encontramos José Sócrates”, afirmou.