O líder do PS respondeu esta segunda-feira a eventuais dúvidas sobre um eventual Bloco Central no futuro, com a promessa de “seguir o mesmo caminho” na maioria com a “mesma companhia” de há dois anos.

António Costa usou o discurso aos deputados, no jantar nas jornadas parlamentares do PS, esta noite em Coimbra, para responder às dúvidas dos seus parceiros na maioria parlamentar, PCP e Bloco de Esquerda, que no domingo alertaram para o risco de entendimentos entre o PS e o PSD, que será liderado pelo candidato eleito Rui Rio, após o congresso de 19 de fevereiro.

Com algum humor à mistura, o primeiro-ministro lembrou os bons resultados obtidos pelo Governo que tem apoio parlamentar no PCP, BE e PEV e fez duas perguntas.

Quando se pergunta, o que fazer? Em primeiro lugar, quando se está no bom caminho, só há uma coisa a fazer: é não mudar de caminho”, respondeu.

Quando se está bem acompanhado, o que se faz? Não se muda de companhia”, respondeu mais uma vez.

Daí que a conclusão tenha sido simples e aponte para a manutenção dos entendimentos com bloquistas e comunistas.

A primeira coisa a fazer não tem nada de muito imaginativo, é simples: seguir o caminho que iniciamos há dois anos, com a companhia com que iniciámos há dois anos”, sintetizou.

No domingo, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins fizeram vários avisos sobre a eventualidade de, com a eleição de Rui Rio no PSD, um ressurgimento do Bloco Central, a coligação PS-PSD que governou o país entre 1983 e 1985, com Mário Soares a primeiro-ministro.

Quem elegeu o presidente do Eurogrupo?

Num discurso curto, António Costa lembrou os resultados obtidos pelo seu executivo minoritário, com o apoio da esquerda parlamentar, ao dizer que se conseguiu baixar o défice, o IVA e “manter os compromissos” com a Europa.

Depois de reclamar ter conseguido, no Governo desde 2015, resultados contra a expectativa e “o discurso da direita”, Costa enumerou novos objetivos nos dois anos que restam de legislatura: “ainda mais emprego, ainda mais crescimento e ainda mais igualdade”.

E parafraseou a tese do “bom aluno” europeu, com que Jacques Delors, ex-presidente da comissão europeia, brindava Portugal nos tempos de governação à direita, com Cavaco Silva.

Eles é que diziam que eram os bons alunos e quem elegeu o presidente do Eurogrupo [Mário Centeno]”, quase gritou o líder socialista da tribuna do discurso.

Da “agenda pesada” do PS no parlamento e do próprio Governo que preside, Costa falou na descentralização de competências para as autarquias, na transparência na política – dois temas das jornadas –, mas também na reforma da floresta ou no “desafio” do futuro quadro comunitário de apoio.

De Rui Rio, novo líder do PSD, o secretário-geral socialista nunca falou, mas mencionou os riscos de um eventual regresso da direita ao poder, considerando que irá penalizar a competitividade “à custa dos baixos salários”.

Risco de autossatisfação

Nas jornadas, o presidente do parlamento alertou para o risco da autossatisfação no PS com os resultados do Governo e avisou que “não basta um bom ciclo económico para garantir a solidez política de uma governação”.

Ferro Rodrigues disse ser necessário manter os “compromissos internos” com as “exigências internacionais” na União Europeia e alertou que o sentido de exigência dos portugueses “só vai aumentar”, não bastam os resultados económicos para se ter sucesso.

Sou um economista de formação. Mas sei bem, todos sabemos, que não basta um bom ciclo económico para garantir a solidez política de uma governação. É condição necessária, mas não é suficiente”, disse.

O presidente da Assembleia da República e ex-líder do PS lembrou que há “exemplos de partidos de governo que não se afirmam politicamente apesar dos bons resultados económicos serem abundantes”, especialmente entre os socialistas europeus.

As boas conjunturas não duram sempre, e ninguém fará o trabalho por nós”, disse.

Um novo aviso foi feito quando disse que os “portugueses não compreenderiam que, por taticismos pré-eleitorais, este ano de 2018 não fosse aproveitado para fazer avançar mudanças estruturais adiadas há demasiado tempo”.

As "mudanças estruturais e as opções inadiáveis" que “Portugal exige” e não as que “querem impor”, conclui.

Um exemplo de reforma necessária para 2018 – ano em que não há eleições – são as propostas para a transparência na vida política e na descentralização de competências para as autarquias, ambas em debate na Assembleia da República.

Apesar de ser um “risco muito limitado” no PS, Eduardo Ferro Rodrigues advertiu que, para o partido, depois dos bons resultados económicos do Governo ou a vitória nas autárquicas de outubro de 2015, “o maior risco agora é o da autossatisfação”.

As jornadas parlamentares do PS terminam na terça-feira, em Coimbra, com um debate sobre a transparência na política e a descentralização de competências para as autarquias.