O primeiro-ministro, António Costa, disse esta quinta-feira que em outubro tem de haver um acordo final para a saída do Reino Unido da União Europeia, depois de terem sido registados “progressos reais” nas negociações com o Governo de Theresa May.

Ficou muito claro que em outubro tem de haver um acordo final [do ‘Brexit’], sem prejuízo de depois poder haver acertos de redação final. Mas a decisão sobre o acordo tem de ser tomada em outubro”, defendeu.

António Costa, que falava em Salzburgo (Áustria) à saída da reunião informal de chefes de Estado e de Governo, negou que tenha ficado agendada uma cimeira extraordinária dedicada ao ‘Brexit’, desmentindo uma informação que tinha sido confirmada esta manhã pelo chanceler austríaco, Sebastian Kurz, que ocupa a presidência rotativa da UE.

Não ficou marcada nenhuma cimeira para novembro, quando muito pode haver redações finais de pormenores que sejam necessários acertar, ou uma cerimónia que simbolize a conclusão, mas a negociação e a decisão de haver ou não haver acordo tem de ser tomada em outubro. Houve progressos reais e por isso decidiu-se decidir [sobre a cimeira] em outubro”, esclareceu.

O primeiro-ministro assumiu que houve “avanços positivos” relativamente às propostas que Theresa May apresentou em Chequers.

Deixou de ser uma questão de princípio não aceitarem em caso algum a jurisdição do Tribunal de Justiça [Europeu], mas o resultado da proposta dela verificou-se que não é praticável, porque não permite manter a unidade do mercado interno que é um princípio fundamental”, esclareceu.

Costa indicou que o negociador comunitário, Michel Barnier, tem agora “um mandato claro e uma proposta clara […] e bastante pragmática” que permitirá resolver a questão central da fronteira irlandesa, sem querer, no entanto, revelar os detalhes da mesma.

A questão do ‘backstop’ (solução de recurso) da fronteira irlandesa é a que mais ‘dores de cabeça’ tem causado nas negociações entre Bruxelas e Londres, uma vez que a União Europeia recusa estender a todo o território britânico a “proposta excecional” de incluir a Irlanda do Norte na união aduaneira comunitária.

O Reino Unido vai deixar a União Europeia em 29 de março de 2019, dois anos após o lançamento oficial do processo de saída, e quase três anos após o referendo de 23 de junho de 2016 que viu 52% dos britânicos votarem a favor do ‘Brexit’.

Não valorizar extrema-direita

Em Salzburgo, o primeiro-ministro responsabilizou também os políticos e a comunicação social por promoverem indevidamente a extrema-direita, salientando que estes partidos têm sido sucessivamente derrotados nas eleições dentro da União Europeia (UE).

Uma das coisas que todos nós democratas, quer os que fazem políticas, quer os responsáveis da comunicação social, devíamos refletir se não promovemos indevidamente quem não merece ser promovido e apresentamos como uma grande ameaça quem é uma ameaça relativamente contida”, criticou.

O primeiro-ministro português respondia a uma questão sobre o crescimento da representatividade de partidos de extrema-direita na UE, à saída da reunião informal de chefes de Estado e de Governo que decorreu hoje em Salzburgo, na Áustria.

Nós não devemos andar sistematicamente a valorizar os extremistas, involuntariamente andar a fazer a sua promoção. Efetivamente, o que devemos registar é que em todas as eleições decisivas a extrema-direita foi derrotada. Foi derrotada em França, foi derrotada na Suécia. Tem sido derrotada em todo o sítio. E, mesmo quando, fruto de negociações internas em alguns países, têm conseguido chegar ao Governo, não deixam de ser extrema-direita e têm de ser tratadas como tal”, defendeu.

António Costa considerou “absolutamente extraordinária” a cobertura mediática dada ao partido Democratas da Suécia nas eleições daquele país.

Quem estiver menos atento até pensa que a extrema-direita ganhou. Foram os sociais-democratas, em segundo lugar os conservadores, e a extrema-direita ficou em terceiro lugar. Não obstante, quando se olhava para a Euronews, o que se via era sistematicamente a sede da extrema-direita”, exemplificou.

A questão colocada ao primeiro-ministro português enquadra-se no peso crescente dos movimentos populistas e nacionalistas a nível comunitário, a escassos oito meses das eleições europeias.