O primeiro-ministro, António Costa, considerou, em entrevista ao jornal Público, que a crise pandémica evidenciou o "falhanço das visões neoliberais" da sociedade recusou a ideia de que o pior já passou.

"Não tenho dúvida nenhuma de que esta crise foi o maior atestado de falhanço das visões neoliberais", vincou o chefe do executivo português na entrevista.

Segundo o primeiro-ministro, "nesta situação de aperto, não foi só o Serviço Nacional de Saúde que se revelou essencial". "Foi a escola pública que se revelou essencial quando não a tivemos, e todos os mecanismos de proteção social que têm sido indispensáveis manter empresas, postos de trabalho, o rendimento das famílias. Portanto, todos os instrumentos do Estado social revelaram-se cruciais", sustentou.

António Costa recusou também a ideia de que "o pior já passou", quer do ponto de vista sanitário, quer ponto de vista económico e social, invocando que "há fatores de imprevisibilidade que ninguém pode negar".

O grau de imprevisibilidade, indestrinçável do processo de governação, é hoje muitíssimo superior do que seria em condições normais", sublinhou.

Questionado sobre as condições de governabilidade no futuro e a necessidade de encontrar consensos, o líder do executivo respondeu que "não se alteraram", apesar de admitir ser "difícil de imaginar" o país a atravessar um "momento mais crítico" do que o que viveu no último ano.

E a verdade é que, com os momentos dramáticos que vivemos, quer entre os diferentes órgãos de soberania, quer designadamente na Assembleia da República, foi sempre possível encontrar as condições adequadas à governação e à sua eficácia. Não tenho nenhuma razão para antever que as coisas se alterem", apontou.

Na entrevista, o primeiro-ministro recusa a crítica de que o Plano de Recuperação e Resiliência (PPR) está sobretudo virado para o setor público, em detrimento da iniciativa privada.

Essa conta não corresponde à realidade. A encomenda pública dirigida às empresas corresponde a qualquer coisa como 11 mil milhões dos 13 mil milhões que estão previstos no programa. Não são alocados diretamente, mas indiretamente. Quando o Estado central ou as autarquias vão construir 26 mil habitações, quem vai construir são empresas privadas. Quando a administração pública investe na escola digital, quem está a desenvolver os softwares ou a produzir os equipamentos são empresas. Em segundo lugar, verbas diretamente destinadas às empresas são cerca de 4,6 mil milhões de euros. E isto tem de ser visto transversalmente", argumentou.

Em termos partidários, Costa fala abertamente do líder do Chega e dos populismos, considerando que André Ventura "não é propriamente um produto autêntico da extrema-direita europeia com fortes raízes, como Marine Le Pen, mas uma autofabricação para ganhar espaço mediático".

Interrogado sobre se não estará a subestimar o líder do Chega, que obteve quase 12% dos votos nas presidenciais, Costa responde: "Não é subestimá-lo. É não o valorizar. Quem faz uma tese de doutoramento como ele fez não pode dizer o que ele diz agora. Ele não se transformou de repente num fascista, porque os fascistas não têm lugar no PSD nem hoje, nem há quatro anos nem nunca".

Na opinião do primeiro-ministro e líder do PS, "é preciso evitar o erro de querer bipolarizar a vida política nacional entre ele e os outros, porque isso só tem um efeito: valorizar o André Ventura e dar-lhe uma credibilidade que ele não tem".

Não sou daqueles que hipervalorizam a figura do André Ventura e acho que é um erro profundo de quem o quer combater querer transformar a vida política portuguesa na bipolarização entre ele e todos os outros", argumentou, lembrando que "há quatro anos, ele ainda era candidato do PSD a uma das principais autarquias da região de Lisboa".

Quanto ao debate aceso entre elementos de extrema-direita e das plataformas antirracistas sobre o passado colonial de Portugal, o primeiro-ministro destacou o reconhecimento e a estabilidade das políticas de acolhimento e lembrou que o país não se resume aos extremos.

"Temos, quer em matéria de política de imigração, quer de refugiados, um historial continuado que tem resistido a todas as mudanças de Governo e que, com pequenas derivas, foi sempre mantido como consensual. E nem André Ventura nem Mamadou Ba representam aquilo que é o sentimento da generalidade do país. Felizmente! Nem André Ventura nem Mamadou Ba representam aquilo que é o sentimento generalizado do país", concluiu.

. / JGR