António Costa mostrou-se esta segunda-feira pouco confiante num envolvimento maior de PCP e Bloco de Esquerda num eventual futuro Governo do PS. Em entrevista no "Jornal das 8" da TVI, o primeiro-ministro socialista disse que continua a existir abertura para que, vencendo as eleições legislativas de 2019 com maioria relativa, o futuro do país continue a passar pela 'geringonça', mas deixou um aviso: há pontos de divergência em matérias essenciais que não permitem um grau de compromisso mais avançado.

Como costuma dizer Jerónimo de Sousa numa frase muito feliz é que ‘o grau de compromisso decorre do grau de convergência’. Ora, nós, apesar de tudo, entendemo-nos muito bem sobre um conjunto de matérias que há a fazer, mas o nível de compromisso que atingimos foi este: dá para sermos amigos, mas não dá para casar”, afirmou.

Para o chefe do Governo, o grau de divergência em matérias essenciais que existe entre os partidos “é conhecido e evidente” e “não antevê” que seja possível minorá-los o suficiente para se avançar para um nível de compromisso equivalente a um “casamento”. Ainda assim, sublinhou que “as circunstâncias variam, as coisas podem evoluir, a ver vamos”, respondeu depois de questionado sobre a possibilidade de elementos do PCP e do Bloco de Esquerda integrarem um próximo Governo do PS na sequência das próximas eleições legislativas.

De acordo com o primeiro-ministro, a atual solução governativa tem "sido estável" porque cada um dos partidos que a suporta (PS, Bloco de Esquerda, PCP e PEV) "conhece bem a sua identidade e respeita a identidade dos outros". Mas essas diferenças, ao mesmo tempo, segundo António Costa, também "delimitam muito a margem de proximidade" possível entre PS, Bloco de Esquerda e PCP.

Esta solução governativa tem tido o mérito de ser estável por uma razão fundamental: cada um conhece bem a sua própria identidade e respeita bem a identidade dos outros. (…) E acho que estas regras de respeito mútuo são absolutamente essenciais. Ora, estas regras de respeito mútuo e o respeito por estas diferenças limitam muito a margem de proximidade que podemos ter."

Diferenças à parte, António Costa congratulou-se com o sucesso da fórmula governativa que os quatro partidos construíram e relativizou a alegada tensão com o Bloco de Esquerda, que, entre outros momentos, alguns analistas consideram ter ficado evidente no debate quinzenal de 26 de setembro, em que o chefe do Governo tratou de impor distâncias em relação ao BE.

“A relação que nós temos é uma relação muito franca com todos os partidos que fazem parte desta solução política. (…) Muitas vezes chegando a acordo, outras vezes não chegando a acordo, mas conseguimos construir para o país uma solução de estabilidade política que nem sempre aconteceu em Portugal e sobretudo que é raro num contexto europeu em que nós estamos hoje”, defendeu.

A título de exemplo, o primeiro-ministro mostrou-se confiante quanto às negociações sobre Orçamento do Estado para 2019: “Se me perguntar o grau de probabilidade de insucesso deste debate orçamental, eu diria que é diminuto.”

"Governo PS-PSD não é saudável para a Democracia"

Na mesma entrevista à TVI, o primeiro-ministro socialista garantiu ainda que não quer ninguém para formar Governo além dos atuais aliados PCP ou Bloco de Esquerda, caso o PS não alcance a maioria absoluta nas eleições legislativas. Apesar de ter posto de parte um envolvimento maior do PCP e do BE num futuro Governo, o primeiro-ministro voltou a fazer um balanço positivo da "geringonça", admitindo "não ter nada contra" um prolongamento desta solução - 

O que funciona bem é para manter, não há nenhuma razão para deitar fora", afirmou. “Mudámos o paradigma de relacionamento das forças partidárias”.

O primeiro-ministro voltou a sublinhar que “nunca pediu maioria absoluta”. Mas sem maioria absoluta, o PS de António Costa só conseguiria formar Governo com um dos atuais aliados da geringonça – BE ou PCP – ou, num cenário pouco provável, com o apoio dos partidos da direita.

Se na moção que levou ao Congresso do PS de maio António Costa não deixou pistas quanto à estratégia socialista de alianças depois das legislativas de 2019, agora voltou a remeter para "circunstâncias extraordinárias" um qualquer acordo de bloco central com o PSD. 

Um Governo do PS e do PSD, salvo circunstâncias extraordinárias que podem existir, não é saudável para a Democracia porque diminui a oportunidade de os portugueses poderem escolher qual é o caminho que querem seguir. Se não houver uma catástrofe, não haverá coligação com o PSD. A resposta é não", afirmou. “Em condições de vida normais, é saudável para a democracia que os portugueses disponham sempre de alternativas de Governo (...), polarizadas ou no PS ou no PSD", reforçou.

António Costa lembrou que o próprio Rui Rio diz exatamente a mesma coisa e desligou os entendimentos com o PSD de qualquer projeto de Governo comum.

“Não é pelo facto de em determinadas matérias dever haver um entendimento político alargado que se está a construir ou a desconstruir qualquer tipo de solução de Governo", esclareceu.