O primeiro-ministro António Costa assumiu, esta noite, em entrevista à TVI, no Jornal das 8, que, apesar de Portugal estar numa "fase ascendente" da pandemia de covid-19 e de não ser possível, ainda, estimar quando será atingido o pico, não está nos planos do Governo um novo confinamento, como aconteceu na primavera.

A situação é grave, é uma situação em que não dispomos já daquela que foi a grande arma para conter o crescimento exponencial da pandemia. Hoje é impensável recorrer a um confinamento geral. Tudo está dependente dos comportamentos individuais que temos", afirmou António Costa, entrevistado em São Bento.

O primeiro-ministro admitiu que, "neste momento", não há qualquer previsão de quando será atingido o pico desta segunda vaga, que em muito contribuiu para que fosse ultrapassada a barreira dos 100.000 casos no país.

As previsões do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge confirmam o juízo que fizemos na semana passada sobre a gravidade da situação. E, tal como tem acontecido em todos os países da Europa, estamos numa fase ascendente, que vai continuar a subir nas próximas semanas. Nenhum dos epidemiologistas pôde prever quando vamos atingir o pico. Não há nenhuma previsão concreta sobre quando se pode atingir o pico. Estamos como estávamos em março, quando não se sabia quando seria atingido o pico", indicou.

 

 

Consciente da situação que se vive presentemente no país, António Costa não considera que o Governo esteja a correr atrás do prejuízo nesta segunda vaga, depois de numa primeira fase da pandemia muitos terem considerado que o sucesso de Portugal tinha sido a antecipação.

Nós temos todos vindo a correr atrás do prejuízo, porque o prejuízo ocorreu no final do ano passado na China, foi-se estendendo ao conjunto do mundo e fomos todos apanhados de surpresa com um universo desconhecido. Hoje, felizmente, já se sabe mais que em março, mas ainda há muitas incertezas. É muito difícil desenhar medidas tendo em conta o grau de incerteza grande que existe e, por isso, todos os governos têm procurado reagir", observou.

Mas as reações que têm surgido na Europa, como o recolher obrigatório e o confinamento parcial, também não estão em cima da mesa para Portugal.

Não posso excluir nenhuma medida, mas devo explicar que o custo social dessas medidas é imenso. Quando encerrámos as escolas foi fundamental, mas ninguém teve dúvidas do custo que foi para a aprendizagem das crianças. Quando proibimos durante meses as visitas a lares sabemos o custo que foi, foi uma violência brutal. Na Páscoa proibimos a circulação entre concelhos. Uma medida dessa natureza seria traumatizante", considerou o primeiro-ministro.

O mesmo se aplica ao estado de emergência, o mais grave.

Não é um cenário que esteja, neste momento, em cima da mesa", assegurou, lembrando que a prática do Governo tem sido avaliar quinzenalmente a situação no país.

"Aquilo que são os sinais que temos, e que se têm vindo a acumular desde agosto, é uma subida crescente. Fomos repetindo os avisos e percebemos que tínhamos de elevar o estado de alerta e passámos da situação de contingência para o estado de calamidade", sublinhou, ainda.

Obrigatoriedade da STAYAWAY COVID 'adiada'

Se o uso obrigatório de máscara facial na rua mereceu o consenso da maioria dos partidos, o mesmo cariz para a utilização da aplicação de rastreamento STAYAWAY COVID gerou controvérsia e, por isso, o primeiro-ministro revelou que aproveitou uma proposta do PSD sobre a obrigatoriedade das máscaras para este assunto ficar já resolvido e aprovado na Assembleia da República, nesta sexta-feira, ficando a obrigatoriedade da App para mais tarde.

Das duas propostas que fizemos foi estranhamente consensual a obrigatoriedade do uso de máscara na rua. Mas sobre a aplicação é muito útil que a Assembleia da República faça todas as audições que o PS propôs para se refletir sobre esse tema e que haja um grande debate. O Governo não seria responsável se, perante a evolução que estamos a ter da pandemia, não colocasse esta proposta à AR. Entretanto, o PSD apresentou um diploma só sobre a obrigatoriedade do uso das máscara e, portanto, se essa matéria é consensual legislemos já. Mas é bom que sejam esclarecidas as dúvidas e que os portugueses continuem a descarregar a aplicação", explicou, referindo-se ao pedido que fez ao presidente da AR, Ferro Rodrigues que retirasse o agendamento do diploma do Governo com as duas obrigatoriedade e que não poderiam ser discutidas separadamente.

António Costa voltou a sublinhar que a aplicação "não foi desenvolvida pelo Estado" e sim por uma "instituição científica", o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência da Universidade do Porto, e que a App "não permite rastrear movimentos, não tem base de dados e é assegurado o anonimato".

O número de descargas subiu exponencialmente", sublinhou, ainda.

À espera do dinheiro de Bruxelas

António Costa espera que a ajuda financeira de Bruxelas aos 27 chegue o mais brevemente possível, que é como quem diz janeiro de 2021 e na pior das hipóteses março.

Tudo depende do acordo e da negociação que está em curso com o Parlamento Europeu. As negociações estão bem encaminhadas e a expectativa que existe é que no início de 2021 essas verbas comecem a ser libertadas. Não quero arriscar-me em futurologia, mas se não for no primeiro trimestre será uma péssima noticia para o conjunto da Europa", reconheceu o primeiro-ministro, lembrando que os fundos europeus vão cobrir "despesas realizáveis desde fevereiro", além de poderem cobrir também "parte da despesa que está a ser executada neste momento".

O chefe do Governo lembrou que a economia portuguesa "está a sofrer a maior recessão de que há memória", em que "aqueles que são, claramente, mais atingidos são setores como a restauração, o turismo, a cultura, já para não falar da aviação, que é uma catástrofe a nível mundial".

António Costa recordou, igualmente, que 44% do PIB português assenta nas exportações, mas que, neste momento de crise pandémica, "não depende" de Portugal fomentar as exportações.

Há um problema de procura das exportações", sublinhou.

No entanto, o primeiro-ministro acredita que "a nossa economia tem tido um nível de resiliência superior àquele que os analistas internacionais previram há uns meses".

Se conseguirmos manter a pandemia sob o controlo necessário a não termos de repor níveis de confinamento e de interrupção das atividades, como aquelas que tivemos, o cenário que apresentámos no Orçamento do Estado para 2021 é um cenário credível, que já prevê um crescimento da economia de 5,5%. Se tivermos de adotar medidas de restrição das atividades, obviamente terá consequências dramáticas. A economia não é uma coisa abstrata. A economia é o emprego, são os salários, e é isso que temos de proteger."

"SNS está mais bem preparado"

Portugal tem, num momento em que há cada vez mais casos de covid-19, uma taxa de ocupação de cuidados intensivos de 65%, mas para António Costa o Serviço Nacional de Saúde (SNS) "ainda não" está sob pressão.

Felizmente, o SNS ainda não está sob pressão. O SNS está mais bem preparado que no início da crise", defendeu, indicando que o número de camas que podem ser disponibilizadas é bastante elevado.

"Em termos de camas de cuidados intensivos, temos mais de 500 camas reservadas, que podem crescer sem afetar o resto da atividade programada para 700 e podem crescer para 900, aí já afetando atividades programadas, exclusivamente no SNS, que tem um total de mais de 21.000 camas", assegurou António Costa.

Quanto à colaboração com os hospitais privados, o primeiro-ministro diz que Estado e privados "têm colaborado" e que estes "são necessários""estão a colaborar no regresso da atividade assistencial [não covid] e na capacidade de testagem [da covid]".

Nunca na nossa vida vivemos uma pandemia desta natureza. Já parece uma eternidade, mas isto começou com um primeiro caso no dia 2 de março. No princípio não havia máscaras, não havia gel, felizmente hoje é um problema ultrapassado. Havia o problema da falta de ventiladores, hoje estamos tranquilos com a capacidade dos ventiladores; havia o risco que todos temíamos de não ter capacidade, como em muitos países, de responder às necessidades de internamento. Ninguém acreditava que fossemos capazes de responder melhor que alguns países mais ricos e a verdade é que o nosso SNS esteve à altura desta prova dificílima", justificou.

Catarina Machado