Foi à pandemia de covid-19, ao trabalho dos profissionais de saúde e às vítimas da doença que o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, dirigiu as primeiras palavras do seu discurso do 25 de Abril, que abriu a sessão solene, neste domingo, no Parlamento.

Foi um ano de combate, em que os profissionais de saúde e todos os que permitiram que o país não parasse merecem reconhecimento nacional. Foi um ano com muitas vítimas, até ontem 16.957, que homenageámos nesta Assembleia da República há três dias", começou por dizer. 

Mas foi a liberdade e a democracia que marcaram o discurso de Ferro Rodrigues, reconhecendo que "ainda há muito por fazer, mas muito do substancial foi conseguido"

A Revolução de Abril trouxe-nos inúmeras conquistas. E pese embora ter posto fim ao analfabetismo brutificante, a que até então se assistia, não logrou ainda erradicar em Portugal as ideias e os valores que caracterizaram aquele período negro da nossa história, muitos deles adormecidos desde então. Uma das grandes virtudes da democracia e da liberdade é permitir a convivência entre todos os credos políticos, incluindo os antidemocratas. Nas redes sociais, os promotores de falsas notícias, de ódio, de desinformação, de calúnia, de mentiras contam-se por muitas centenas e atingem, por vezes, milhões de alvos. As caixas de comentários de alguns órgãos de comunicação social são um esgoto a céu aberto. Esta não é uma realidade apenas nacional, pelo contrário."

O crescimento da extrema-direita na Europa e no mundo é um "sinal de regressão", alertou Ferro Rodrigues, considerando que se trata da "realidade sombria de um passado onde ninguém deveria querer voltar".

Basta olhar para o que se passa por essa Europa fora, até mesmo em países próximos, como Espanha, França e Itália, para perceber que este movimento vai fazendo o seu caminho e aos poucos enfraquecendo a democracia e o estado de direito e a convicção por valores fundamentais que são os nossos. Veja-se também o que sucedeu nos Estados Unidos, com o inconcebível episódio da invasão do Capitólio, sede do Congresso, apoiada ou pelo menos tolerada ao mais alto nível. Onde na Europa e no mundo pareciam florescer democracias, estas são ameaçadas, num retrocesso histórico que nos aproxima da realidade sombria de um passado onde ninguém deveria querer voltar. São sinais de regressão (…) mascarados por uma suposta defesa dos interesses nacionais."

O presidente do Parlamento reconheceu que "não é fácil combater o discurso simplista dos antidemocratas", mas acredita que a democracia que nasceu em Abril vai continuar a lutar com todas as suas forças.

Não é fácil combater a desinformação, a mentira, o medo, mas sei que a democracia de Abril é suficientemente resiliente para resistir a esta investida e robusta o suficiente para a combater."

Os partidos democráticos são, por isso, "fundamentais" neste combate.

São eles parte da muralha que nos deve defender dos avanços da intolerância, da xenofobia, do ódio. Um combate em que o fortalecimento do Estado de Direito e a responsabilização de todos os protagonistas são absolutamente essenciais. Um combate em que é fundamental uma comunicação social livre, isenta e credível, capaz de informar factos, com verdade."

 

Catarina Machado