A Assembleia da República foi unânime na condenação das polémicas declarações do presidente do Eurogrupo, mas recusou um ponto pela rejeição de diversos compromissos com a União Europeia (UE) exigida pelo PCP.

Os votos de repúdio ou condenação apresentados por PSD, PS, BE e CDS-PP, que reclamavam também a demissão do ministro das Finanças da Holanda, Jeroen Dijsselbloem, da liderança do Eurogrupo, o conselho informal dos 19 estados-membros com moeda única, foram aprovados por unanimidade.

Já o texto dos comunistas, que protestava contra as "palavras insultuosas" de Dijsselbloem e repudiava "nova ameaça de sanções a Portugal pelo Banco Central Europeu (BCE)" viu o seu ponto n.º4 - pela rejeição do Tratado Orçamental, diplomas de Governação Económica e processo do Semestre Europeu - "chumbado" por PSD, PS e CDS-PP, além da abstenção do PAN.

Os restantes três pontos do voto do PCP - sobre as declarações, as pressões europeias e a ingerência da UE - foram aprovados por todas as bancadas menos a social-democrata e a democrata-cristã.

As declarações são inaceitáveis, quer na forma, quer no conteúdo. Atentam contra o cargo que exerce. O PSD não tolerará que se amesquinhe os esforços dos portugueses para recuperar o país", insurgiu-se o deputado social-democrata Miguel Morgado, durante o período de debate sobre os votos.

A secretária-geral-adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, reafirmou a "condenação às palavras insultuosas e vergonhosas, xenófobas, racistas e populistas, que tendem a dividir a Europa e a ir contra o desígnio do projeto europeu", considerando-as "condenáveis", mesmo que proferidas por um membro da família política socialista.

O BE repudia em toda a linha as declarações que foram feitas pelo ainda presidente do Eurogrupo, o seu teor preconceituoso, machista e xenófobo. São absolutamente inaceitáveis", disse a deputada bloquista Isabel Pires.

O líder parlamentar do PCP, João Oliveira, argumentou que "concentrar as atenções nas declarações sobranceiras, sexistas e xenófobas ou na personagem é só parte do problema", sendo igualmente condenável a "atitude de domínio de Estados-membros sobre outros Estados-membros", exemplificando com outras afirmações recentes do ministro das Finanças alemão ou posições do BCE.

As declarações são inaceitáveis e devem levar à demissão imediata do ministro socialista das Finanças da Holanda", vincou o democrata-cristão Mota Soares, acrescentando que aquelas palavras "separam o norte e sul, devedores e credores, bons e maus".

O deputado de "Os Verdes" José Luís Ferreira declarou que o seu partido se associava aos votos de protesto e de repúdio relativos a "um dos grandes impulsionadores das políticas de austeridade que nada resolveram e só agravaram os problemas", o qual deveria antes falar sobre "o dinheiro que países como Portugal perdem na ajuda à banca, nomeadamente a holandesa, e quando as empresas deslocam as suas sedes para a Holanda para maiores benefícios fiscais".

Numa entrevista publicada segunda-feira num jornal alemão, o membro do Partido Trabalhista holandês afirmou que "não se pode gastar todo o dinheiro em copos e mulheres e depois pedir ajuda", referindo-se aos países do sul da Europa, que foram alvo de auxílio externo.