A presidente do CDS, Assunção Cristas, afirma, em entrevista à Lusa, que a principal “virtude” do atual Governo do PS foi ter garantido a estabilidade e que o seu “falhanço” foi ter-se concentrado apenas na função pública, esquecendo o conjunto do país, a par da pouca transparência orçamental.

A estabilidade por um lado é um aspeto positivo, porque um país que não tenha alguma estabilidade do governo de facto também prejudica o seu próprio crescimento e o seu bem estar”, diz a líder do CDS, destacando, porém, que, “depois, é preciso saber a que ponto e a que o preço” a estabilidade foi assegurada.

Assunção Cristas considera, todavia, que não se surpreendeu com esse facto porque – lembra - “quem chega ao poder desta forma, tendo perdido as eleições e, portanto, tendo sido rejeitado, se quisermos, numa primeira forma direta, como primeiro ministro, mas consegue juntar uma maioria a sua volta para poder governar, tudo faria para governar durante quatro anos”.

Assim sendo, afirma, era de esperar que António Costa “tudo faria para provar” que o seu Governo era “possível e viável”. Portanto, “o primeiro ministro adotou uma postura muito pragmática em que conseguiu ter essa preocupação com a estabilidade”, conclui a líder do CDS: “foram quatro anos de estabilidade governativa, mas com um preço muito alto”.

É neste contexto que a presidente do CDS lamenta que o primeiro-ministro “tenha sacrificado tudo aquilo que era preciso fazer no país (…) com a melhor conjuntura externa de sempre, porque tinha que manter essa estabilidade com os parceiros mais à esquerda (…) muitas coisas não foram feitas, que eu acho que poderiam e deveriam ter sido feitas”.

A título de exemplo, Cristas cita a necessidade de fazer alterações na formação profissional e no ensino superior, bem como várias questões relacionadas com a fiscalidade, como baixar a taxa do IRS e fazer reformas na área da Justiça.

Em contrapartida, a líder do CDS aponta como principal “falhanço” do governo não ter colocado Portugal como um país mais competitivo e produtivo, com mais capacidade de gerar e distribuir riqueza: “este governo esqueceu o conjunto do país, esteve concentrado apenas num setor, essencialmente na função pública”, acusa.

Outra “pecha” a seu ver grave, nas suas palavras, foi a falta de transparência orçamental, “um discurso que não bateu com a realidade”, nomeadamente no que diz respeito á austeridade, que se manteve, “embora feita de forma diferente, com a maior carga fiscal de sempre, com impostos indiretos e depois com cortes no investimento público, porque nunca foi executado em linha com aquilo que estava previsto”. 

CDS à espera de bom resultado nas legislativas

A presidente do CDS, Assunção Cristas, põe de parte a possibilidade de deixar de ser líder do seu partido e reafirma que está à espera de ter um bom resultado nas próximas eleições legislativas de 06 de outubro.

Essa é uma questão que eu não me coloco, eu acho que nós vamos ter um bom resultado”, diz a líder do CDS, quando questionada diretamente, em entrevista à Lusa, sobre qual seria a percentagem mínima de votos no seu partido para se manter como dirigente máxima. “A nossa preocupação" – diz – é afirmar “as bandeiras eleitorais” do CDS e “contribuir o mais possível para um bom resultado do centro-direita”.

Assunção Cristas declara que vai continuar o seu trabalho intensamente “para que as pessoas percebam quais são as prioridades e por que é que faz sentido votar no CDS (…) porque representa uma visão diferente, alternativa, uma visão de centro-direita para Portugal”.

A líder centrista não rejeita que há muito trabalho a fazer e que sabe de onde parte: “Temos 18 deputados, sabemos o difícil que é, mas também sabemos que cada eleição é uma eleição. Portanto, o que podemos dizer é que estamos aqui, sim, para o mais possível dar força às nossas bandeiras [mas] isso está nas mãos das pessoas”.

Se as pessoas entenderem que faz sentido baixar impostos, baixar 15% o IRS e baixar os impostos para as empresas para que a economia cresça mais, melhorar as condições para as famílias e ter a natalidade como um grande tema, melhorar as condições para os mais idosos, olhar para o Estado numa visão complementar em que todos os setores são relevantes na saúde, na educação, na área social, por exemplo, tem bons motivos para votar no CDS”, destaca.

Segundo Assunção Cristas, as pessoas têm de ter a certeza de que o seu voto no CDS “para uma política alternativa de centro direita, não é para qualquer outro objetivo”, afirma ainda, sublinhando a “ambição” do CDS em “ir mais longe, libertar as pessoas, as empresas, para que possam construir a sua vida”.

Esta visão do CDS contrasta, segundo a dirigente do CDS, com as propostas à esquerda, onde não consegue “vislumbrar no mundo país onde elas tenham funcionado e onde as sociedades sejam mais prósperas e mais justas”.

A presidente do CDS cita o exemplo dos países nórdicos, nos quais coexiste um Estado social, “com um grande apoio, grande generosidade, mas [também] temos uma economia muito livre, muito aberta e sem gerar obstáculos às pessoas”.

"Geringonça à Direita" é possível na Madeira

Assunção Cristas admitiu a possibilidade de o seu partido ser a “chave” para a governação na Madeira, caso os resultados das eleições legislativas nesta região autónoma no próximo dia 22 de setembro não se traduzam numa maioria absoluta do PSD.

A receita que funcionou para o continente em 2015, pode acontecer agora na Madeira em 2019”, disse a líder do CDS em entrevista à Lusa, considerando que o CDS/Madeira “durante estes [últimos] quatro anos fez um trabalho muito intenso de oposição construtiva, tem muitas propostas e, de facto, pode ser uma chave da governação para o próximo governo regional”.

Segundo Assunção Cristas, que se mantém expectante em relação ao assunto, a preocupação do CDS/Madeira, cuja autonomia quer salvaguarda, o trabalho do partido tem sido muito de explicação das suas propostas, “pedindo força para que elas possam ser aplicadas de forma mais consistente”.

Nas regionais da Madeira, o PSD, que lidera o governo regional com maioria absoluta, e o CDS apresentam-se, em separado, às eleições.