Uma ciclovia com 35 quilómetros, que iria da Praia da Aguda, em Sintra, a Carnide, em Lisboa, passando pelos concelhos de Amadora e Odivelas: esta é uma das propostas que o PAN - Pessoas, Animais, Natureza apresentou durante a campanha para as eleições autárquicas. O PAN chama-lhe o “IC-19 em Modos Suaves” e descreve-a como "uma alternativa ao caótico IC19".

"Trata-se apenas de uma ideia, ainda não é um projeto, mas queremos lançar esta ideia e este debate", explica à TVI24 Miguel Santos, candidato do PAN à Câmara de Sintra. A proposta que foi apresentada é apenas "um traçado ideal", "só depois de os engenheiros se debruçarem sobre o assunto é que se saberá como se poderá concretizar".

"Achamos que há necessidade de uma alternativa ao IC19 e esta opção tem várias vertentes: é uma opção de mobilidade, uma alternativa para chegar a Lisboa; é uma opção que promove o desporto e a saúde; e é uma forma de preparar a transição energética", explica o candidato. "Não podemos pensar em deixar os automóveis se não tivermos alternativas."

O candidato do PAN lembra, por exemplo, "o desespero" que a população sente nos dias de greve nos transportes públicos, quando chegar a Lisboa pode ser "uma autêntico pesadelo". Pedalar por 35 quilómetros pode parecer muito, mas Miguel Santos acredita que "é mais um problema de de disponibilidade mental". E, depois, existe a possibilidade de conciliar a bicicleta com outras formas de transporte, como por exemplo, o comboio. O importante é criar alternativas ao IC-19, numa política de melhoramento da rede de transportes públicos.

Sabemos que esta opção não se adequa a toda a gente. Quem tem de levar crianças à escola, por exemplo, talvez não opte pela ciclovia. Mas acreditamos que poderá ser uma solução para muitas pessoas, não só para deslocações até Lisboa mas também para deslocações intermunicipais mais curtas e até para deslocações dentro do concelho. As ciclovias que existem atualmente em Sintra têm, sobretudo, um caráter turístico e não oferecem uma verdadeira opção de mobilidade", diz Miguel Santos.

"A nossa ideia é que a ciclovia funcione como uma espinha, que atravessa todo o concelho, e que depois tenha várias ligações, a outras ciclovias e a outros meios de transporte, para que de qualquer ponto se consiga chegar à ciclovia."

Alerta: ciclovias sim, mas com condições

Contactada pela TVI24, a MUBi - Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta admite que "não tem conhecimento, em concreto, da proposta apresentada pelo candidato do PAN" para além do que foi noticiado. "De uma forma geral, o conceito é do nosso agrado. É importante que exista uma ligação que permita aos utilizadores recorrerem à bicicleta nas suas deslocações pendulares de forma segura. Uma solução deste tipo não permite apenas ligar Lisboa a Sintra. Todos os outros concelhos e bairros pelo meio poderiam usufruir de tal solução a uma escala mais pequena", concorda Pedro Sanches, da direção da MUBi.

Mas alerta: "Agora, é preciso ter o cuidado de garantir que uma ideia deste tipo, estruturante, é devidamente enquadrada num Plano Estratégico da Área Metropolitana de Lisboa (AML). É preciso que o desenho da solução (seja ela qual for), tenha como consideração primordial a melhoria do espaço público como um todo. Requalificar ruas é uma tarefa árdua, que exige considerações ponderadas. Não podemos aceitar simplesmente, e por exemplo, que se pintem passeios de vermelho e se chame a isso uma "ciclovia". A ideia é adequada se devidamente enquadrada, se permitir a participação da sociedade civil na sua co-construção, inserida numa estratégia abrangente de requalificação do espaço público e de ligação dos diversos municípios da AML."

Em todos os países onde existem ciclovias de longa distância, as autoridades sublinham a importância de garantir a segurança dos ciclistas. As ciclovias devem ter largura suficiente para permitir os dois sentidos e o seu traçado deve ser integrado num verdadeiro planeamento urbano. A criação de ciclovias exige muita vezes a construção de passagens subterrâneas e viadutos, a colocação de sinalização que garanta a prioridade dos ciclistas em cruzamentos, a instalação de iluminação e, ainda, uma manutenção adequada para evitar acidentes.

"Auto-estradas" para bicicletas: o que acontece no resto da Europa?

A ideia de criar ciclovias fora das cidades, que permitam uma mobilidade interurbana, não é nova. As "autoestradas" para bicicletas fazem parte do plano de "transportes limpos" da Comissão Europeia como forma de encorajar as "viagens de bicicleta de longa distância".

Por exemplo, em Copenhaga, na Dinamarca, estas ciclovias são vistas como vias de transporte regional e foram consideradas de fundamental importância para atingir o objetivo da cidade de, até 2025, 50% das viagens para o trabalho e escolas serem realizados de bicicleta. A rede de "auto-estradas" para bicicletas já integra todos os municípios da região.

Em Rijn Vaal Pad, nos Países Baixos, a rede de "autoestradas" para bicicletas tem já 80 quilómetros de percurso. O objetivo é que a distância máxima de uma viagem de bicicleta passe de 10 quilómetros para 20 quilómetros.

Em março do ano passado, Bruxelas inaugurou também a sua primeira "autoestrada" para bicicletas: a E40Parkway é uma via de dois sentidos que está agregada à E40, uma das vias rápidas mais importantes da capital belga. Esta via está inserida num plano do conselho regional que tem como objectivo criar 40 quilómetros de ciclovias seguras.

"Dentro de Bruxelas, dois terços das viagens feitas têm distâncias inferiores a cinco  quilómetros, pelo que a bicicleta é adequada", disse Elke Van den Brandt, ministra da Mobilidade, que defende que precisa haver uma mudança de mentalidade em Bruxelas para encorajar os passageiros a abandonar os seus carros em favor da bicicleta.

Maria João Caetano