A coordenadora do BE, Catarina Martins, disse esta segunda-feira aguardar que o Governo "tire as devidas consequências" da polémica em torno da nomeação de José Júlio Pereira Gomes para chefe das "secretas", insistindo que essa escolha seja reconsiderada.

Nós consideramos que os relatos sobre o que aconteceu em Timor, quando Pereira Gomes era chefe de missão, são muito graves e, portanto, devem fazer o Governo reconsiderar esta escolha", começou por responder aos jornalistas Catarina Martins, durante uma visita esta tarde à Feira do Livro, em Lisboa.

A líder bloquista recordou ainda "que esta escolha passa pelo Parlamento e há uma audição obrigatória", mas foi peremtória: "Nós ainda aguardamos que o Governo, depois de dizer que ia analisar melhor o caso, tire as devidas consequências".

Sobre a notícia do semanário Expresso, que dá conta que a entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no Montepio já está a ser preparada, Catarina Martins escusou-se a falar "neste momento sobre isso".

"Como sabem, nós temos tido políticas sobre o sistema financeiro um pouco diferentes deste Governo e teremos oportunidade para falar disso também", disse apenas.

A propósito da entrevista à Antena 1 e ao Jornal de Negócios do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, na qual Rocha Andrade avisa que mexer nos escalões do IRS e reduzir a receita em 600 milhões de euros, como o BE defende, "vai ter consequências noutras áreas do Orçamento", a líder bloquista notou que "as famílias precisam de recuperar algum do rendimento que perderam nos últimos anos".

Disseram-nos muitas vezes que muitas coisas eram impossíveis. Era impossível subir o salário mínimo nacional porque ia criar desemprego e, pelo contrário, o salário mínimo nacional subiu e, mesmo assim, criou-se mais emprego e assim também mais receita fiscal e mais receita para a Segurança Social", recordou.

Catarina Martins reiterou que quando se protege os rendimentos de quem trabalha e de quem trabalhou toda uma vida, se está "sempre a proteger a economia".

"Criar mais escalões de IRS, aliviando as famílias com menos rendimentos e que têm uma carga fiscal muito desproporcional face aquilo que ganham, é um caminho essencial porque o nosso país é ainda desigual demais", insistiu.

Questionada sobre a situação dos juízes, a líder bloquista disse que o partido acompanha "com atenção" o caso e que "naturalmente o Governo irá conversar com os juízes".

"É um órgão de soberania e, portanto, são particularmente delicadas as relações entre o poder político e o poder judicial. Eu julgo que será possível encontrar bons caminhos, seguramente", disse apenas.

O Público noticiou sexta-feira a apreensão do PSD com a escolha de Pereira Gomes para chefe do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP).

Nesse mesmo dia, o primeiro-ministro, António Costa, manifestou confiança no diplomata José Júlio Pereira Gomes para o desempenho das funções de secretário-geral das "secretas", explicando que foi isso que o levou a convidá-lo para o cargo.

Já no sábado, o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, disse que o partido está atento às objeções que tem merecido a escolha do novo chefe das "secretas", mas sublinhou não querer acrescentar nada que possa "adensar a polémica".

Na semana passada, ao DN, a eurodeputada do PS Ana Gomes também já tinha demonstrado preocupação pela nomeação de José Júlio Pereira Gomes para chefe das ‘secretas'.

Ao DN, Ana Gomes assumiu que ficou "muito surpreendida e apreensiva", porque, "não estando em causa o percurso profissional, falta a Pereira Gomes o perfil psicológico".

"Tenho dúvidas de que o embaixador Pereira Gomes tenha capacidade para aguentar situações de grande pressão. Não inspira confiança e autoridade junto dos seus subordinados nos serviços de informações", referiu a eurodeputada, adiantando que já informou "quem de direito" do porquê da sua "apreensão".

Posteriormente, num artigo de opinião no Público, o jornalista Luciano Alvarez, falou também da passagem do embaixador por Timor-Leste em 1999.